Terminou a aventura por agora mas voltaremos à Argélia

Já estamos todos em Portugal, cumprindo rigorosamente desde segunda-feira o período de quarentena a que somos obrigados depois da aventura por terras argelinas. Mas, não foi nada fácil o regresso e, as últimas horas passadas em Argel foram angustiantes.

Como fui relatando em crónicas anteriores, fomos apanhados de surpresa pelo cancelamento das travessias via ferry e pelo encerramento das fronteiras quando nos encontrávamos em Djanet, pequena cidade às portas do Parque nacional Tassili N’Ajjer, em pleno Erg Oriental do deserto do Sahara. As 24 horas de que dispúnhamos para chegar a Oran ou a Argel tornavam o regresso impossível, pois, pelo menos, seriam necessários 3 dias para lá chegar. Optámos, e bem, pela continuidade da visita ao parque, na esperança de que, uns dias depois, a situação se normalizasse e tornasse possível o regresso a casa.

A situação não só não se normalizou como se tornou mesmo muito mais complicada. Optámos então pelo aluguer do avião que nos acabaria por trazer a casa e iniciámos o caminho até Argel, onde chegámos sábado ao final do dia e onde passámos a primeira noite. Argel estava quase deserta, com restaurantes encerrados, comércios fechados e hotéis ou sobrelotados (com viajantes franceses e alemães, sobretudo, também surpreendidos pelo fecho das fronteiras) ou mesmo encerrados, por ordem governamental. E novas dificuldades surgiram…

As imagens de uma aventura pela Argélia
No hotel, o restaurante não funcionava mas, amavelmente, lá nos deixaram cozinhar o jantar. Um jantar improvisado, já que não tinha sido possível comprar fosse o que fosse. Os enlatados cumpriram então a sua função e, como dizia a minha avó, é bem melhor pão duro que pedras moles…

A situação parecia então estar controlada: a Skyvalet garantira já autorização das autoridades espanholas para o reabastecimento do avião em Málaga, faltava o sim dos governos portugueses e argelinos, mas isso seria apenas uma questão de tempo. Faltava apenas garantir um local para deixarmos a viaturas parqueadas em segurança. Mas tínhamos então todo o domingo para encontrá-lo, com a ajuda (sempre preciosa) da agência local e da nossa embaixada. Parecia estar tudo a correr bem…

Mas não estava. O hotel avisou-nos que iria fechar e que na manhã seguinte (domingo) teríamos de o abandonar. Mas para onde iríamos? Felizmente, a nossa agência – a Mouflon - conseguiu contratar uma outra unidade e, mais tranquilos, lá fomos novamente com a tralha para o novo alojamento. Não era mau de todo, pois pelo menos um banho estava assegurado. E depois de um longo «choradinho» também conseguimos que nos fizessem o jantar. O almoço, esse tinha sido na rua, novamente à base de enlatados e pão duro.

E, segunda-feira de manhã, bem cedo, carregados apenas com as «electrónicas», estacionámos à porta da alfândega para tratar das viaturas. Recomeçaram aqui os nossos problemas. O responsável disse-nos que não podíamos deixar ali os jipes, ao contrário do que tínhamos sido informados – nós e a embaixada - anteriormente. Com os telemóveis já a fumegar, da embaixada surgiu uma alternativa: um parque de estacionamento público. Lá fomos, mas para receber… nova negativa: à noite, não havia guarda. Era desesperante, até porque o avião já tinha aterrado e a tripulação pressionava, pois havia «timings» a respeitar.

Surgiu então nova hipótese, e desta vez resultou. Lá fomos, mais esperançados. E, sim, desta vez resultou. Retirámos as chapas de matrícula, tal como nos tinham indicado na alfândega, meteram-se os jipes numa garagem (menos os dois que tinham tenda de tejadilho, que tiveram de ficar na rua, mas com vigilância) e arrancámos no minibus que a agência nos disponibilizara para as instalações alfandegárias. Pelo caminho, foi-se informando a tripulação: estamos quase a caminho do aeroporto.

Placas e documentos na mão, corremos para o edifício. A porta estava fechada. Era hora do almoço. Batemos. Apareceu um senhor que disse nada saber do assunto e, que, quem sabia, não estava. Só dali a uma hora. O risco de perdermos o avião era cada vez maior. O nosso embaixador, Luis Albuquerque (cujo apoio foi fundamental!), e a sua secretária não estavam contactáveis. Corríamos o risco de perder o vôo de regresso. Tomámos mais uma  vez a decisão correcta: deixar chapas de matrícula e documentos nas mãos da Mouflon para que esta fizesse posteriormente a sua entrega na embaixada e «voámos» para o aeroporto.

Estávamos safos? Ainda não. No controlo de passaportes, 14 do nosso G15 passaram, mas um ficou retido. Tinha de sair com a viatura ou, então, com um documento da embaixada que justificasse a sua saída sem ela e garantisse que a viría buscar quando a pandemia permitisse a reabertura das fronteiras. O moral do grupo caiu para níveis muito baixos. A dada altura, retiraram-nos todos os passaportes, analisaram-nos um por um e devolveram-nos todos menos os sete dos condutores. Foram momentos dramáticos, pois, ou saíamos todos, ou não saía ninguém. Os responsáveis exigiam um documento da nossa embaixada, tal como horas antes o tinha feito um grupo de turistas da Alemanha, garantindo que iríamos buscar as viaturas. Sem ele, nada feito. E a tripulação do avião, vendo o tempo esgotar-se, insistia: ou embarcam rapidamente, ou nós temos de partir…

As autoridades argelinas eram compreensíveis, mas como lei é lei… Já discutíamos se os que tinham passaporte deveriam ou não regressar quando conseguimos contactar a secretária do embaixador Albuquerque e a pusemos a falar com o responsável da alfândega, mas o problema mantinha-se: fazia falta o tal papel. E já quando estávamos prontos para ficar por ali, perder o vôo (e o dinheiro nele investido), eis que os argelinos encontram uma solução: se o problema era um papel, porque não cada um de nós fazer e assinar uma declaração responsabilizando-nos pela retirada dos jipes logo que possível?

Assim fizemos e foi esta a solução que nos permitiu regressar: cada condutor preencheu, em inglês, um texto elaborado pelos argelinos, assinou e colocou as impressões digitais, anexou-se-lhes fotocópias dos passaportes e: boa viagem!!!

Hoje, no sossego da quarentena, revivemos esta aventura e todas as peripécias que a envolveram, mesmo as mais complicadas, com um sorriso. Porém, este não teria sido possível tão cedo sem a colaboração do nosso guia, Imouhagh Imouhagh, da Mouflon, das pessoas da nossa embaixada e das autoridades argelinas e sem o forte espírito de entreajuda desta "Malta dos Jipes". Argélia, nós voltaremos!

Por Eládio Paramés
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