Os primeiros heróis

A 26 de Maio de 1946, faz sábado 55 anos, o Belenenses conquistava o título nacional de futebol. Liderados por um capitão genial (Mariano Amaro), suportados por um fenómeno colectivo inesquecível (Capela, Vasco e Feliciano, as torres de Belém) e com uma veia ofensiva dirigida por atacante versátil (Artur Quaresma), os azuis foram os pioneiros de um feito agora repetido pelo Boavista. Era preciso vencer em Elvas. Dez vitórias em dez jogos na 2ª volta animavam os azuis, que entraram a perder. Foi já perto do fim que deram a volta ao marcador, rumo a um feito histórico

FAZ sábado 55 anos que o futebol português coroou os primeiros heróis que se intrometeram na lista dos campeões nacionais: a 26 de Maio de 1946, em Elvas, o Clube de Futebol “Os Belenenses” conquistou o título, juntando-se a FC Porto, Benfica e Sporting (por ordem de chegada ao trono máximo) no grupo das grandes potências do futebol. Uma conquista extraordinária na altura mas cujo significado aumentou gradualmente à medida que os crónicos vencedores monopolizavam em absoluto o lugar mais apetecido da tabela.

Se em meados da década de 40 o Belenenses, com ou sem título, era uma potência do futebol português, o tempo encarregou-se de dimensionar o feito ao ponto de o transformar em momento com todos os contornos de uma epopeia, agora recuperada, em moldes e conjunturas distintas, pelo Boavista.

Geração de ouro

Esta geração de ouro para o clube da cruz de Cristo nasceu e viveu nas Salésias, deixando marcas inesquecíveis no futebol português dos anos 40: para além do título nacional de 1945/46, venceu uma Taça de Portugal (1941/42) e dois campeonatos de Lisboa (1943/44 e 1945/46) – prova cujo enorme significado é difícil de medir nos dias de hoje. Por outro lado, o Belenenses ficou associado a três jornadas internacionais que lhe deram então indiscutível prestígio a todos os níveis, tendo sempre o Real Madrid como parceiro: presenças na capital espanhola na festa de homenagem a Jesus Alonso (15 de Maio de 1945) e mais tarde para inaugurar o famoso Estádio de Chamartin (14 de Dezembro de 1947), com uma partida nas Salésias pelo meio, a 15 de Maio de 1945, ganha por 1-0.

Vitória em Elvas

À entrada para a última jornada a situação da prova não oferecia dúvidas: o Belenenses dispunha de um ponto de vantagem sobre o Benfica e tinha de cuidar-se porque face ao confronto directo perdia no desempate. Ou seja, para não depender de terceiros era fundamental ganhar ao SL Elvas, clube filial dos encarnados, que recebiam o Atlético. Patalino, avançado-centro que havia de chegar à selecção nacional representando sempre o clube alentejano – falamos mesmo de outros tempos... –, marcou o primeiro golo da tarde com pouco mais de um minuto de jogo. Os azuis perderam capacidade de resposta, ficaram apáticos até ao intervalo e só reagiram depois de Artur Quaresma ter empatado, aos 66’, golo que impulsionou a equipa para a vitória que valeu o título nacional.

Uma equipa cuja formação foi idêntica à que actuou a partir da entrada em cena de Manuel Andrade, o jovem ponta-de-lança que havia de ser o melhor marcador da equipa: Capela; Vasco e Feliciano; Amaro, Gomes e Serafim; Andrade, Quaresma, Andrade, José Pedro e Rafael.

O genial Mariano Amaro

É inestimável a contribuição dos campeões belenenses para a história do futebol em Portugal, não só como formação vencedora mas também pela capacidade individual dos seus componentes, aliás unanimemente reconhecida. O seu expoente máximo foi o capitão de equipa, um dos médios mais extraordinários que este país conheceu, génio inesquecível para todos quantos tiveram a sorte de o ver em acção: Mariano Amaro. Já tinha passado a casa dos 30 anos (nasceu a 7 de Agosto de 1914) quando conheceu a glória suprema. Em Elvas, contam os seus camaradas de armas, chegou a desesperar. Garantem que a partir de certa altura, já lavado em lágrimas, lutou contra a falta de sorte mas em desespero e com pouca lucidez. Foi por isso dos mais comovidos na hora do triunfo. Jogou 19 vezes na selecção nacional, número que transposto para os dias de hoje, para ter o mesmo significado, deveria ser multiplicado por quatro ou cinco...

As torres de Belém

Mas o Belenenses campeão fica marcado para a eternidade como a equipa das torres de Belém: Capela, Vasco e Feliciano. Um fenómeno de eficácia em campo e de popularidade fora dele, composto por um guarda-redes de grande envergadura (Manuel Capela, que havia ainda de entrar na história da Académica), um defesa-direito forte, duro, com pulmão para explorar o flanco (Vasco Oliveira) e um central importante para o futebol português, considerado em 1947 pelo conceituado “L’Équipe” como um dos melhores centrais da Europa (António Feliciano). José Sério, então um jovem guarda-redes com grande futuro, era o suplente que havia de ocupar o lugar até ao início de 50, ou seja, até à chegada de José Pereira.

Classe de Artur Quaresma

Na linha ofensiva, a maior saliência vai para Artur Quaresma, considerado um dos mais versáteis atacantes portugueses de então, um goleador sem ser avançado-centro de raiz. Seguindo referências escritas e testemunhos de sobreviventes a esse tempo longínquo, Rafael era extremo para os dois flancos e um rematador temível; Armando um passador exímio, José Pedro um artista de grande visão, driblador extraordinário que tratava a bola por tu e para quem o futebol não tinha segredos; Manuel Andrade foi o avançado centro que chegou dos juniores e cujo fulgor foi aproveitado de forma exemplar. O seu percurso não deixa mentir: estreou-se a titular com o FC Porto, à 9ª jornada, e marcou os três golos que permitiram ao Belenenses vencer por 3-2. Garantiu a titularidade até final, o que lhe rendeu 19 golos em 14 jogos.

Por último, referência a Augusto Silva, o treinador campeão que, para além de grande carreira como treinador, foi um dos expoentes máximos do futebol português das décadas de 20 e 30, elemento da célebre equipa olímpica de 1928. Em Maio de 1946, quando foi campeão nacional de futebol, tinha 44 anos. Era só um pouco mais velho que Jaime Pacheco na hora de este festejar feito semelhante.

História azul de 17 campeões

Esta é a história dos 17 campeões 1945/46 com a camisola do Belenenses, tendo apenas em conta as partidas disputadas para o campeonato nacional. Serafim das Neves e António Feliciano ficaram perto dos 300 jogos, meta só atingida no clube azul por Alfredo Quaresma (323 jogos) e José Pereira (303), o célebre “Pássaro Azul” que defendeu as redes portuguesas no Mundial de 1966:

SERAFIM das Neves - 298 jogos/9 golos

António FELICIANO - 294/24

Mariano AMARO - 174/2

Artur QUARESMA - 154/71

Francisco GOMES - 145/15

José SÉRIO - 144/0

RAFAEL Correia - 126/86

VASCO Oliveira - 98/1

António ELÓI - 87/37

JOSÉ PEDRO - 81/42

MÁRIO COELHO - 56/24

Manuel CAPELA - 51/0

ARMANDO Correia - 50/33

Manuel ANDRADE - 31/27

Mário SÉRIO - 18/1

Francisco MARTINS - 11/0

António MARTINHO - 7/4

Mariano Amaro, António Feliciano, Artur Quaresma, Serafim das Neves, Rafael Correia, Manuel Capela, Vasco Oliveira e José Sério representaram a selecção nacional.

As 22 etapas da grande corrida

O percurso dos campeões nacionais começou com a deslocação ao Estádio do Lumiar, onde empataram com o Sporting, para terminar com a célebre vitória em Elvas, por 2-1:

1ª VOLTA

1ª jornada – Sporting (f), 1-1

2ª jornada – Académica (c), 7-0

3ª jornada – Boavista (c), 6-1

4ª jornada – Oliveirense (f), 1-0

5ª jornada – V. Guimarães (c), 5-1

6ª jornada – V. Setúbal (f), 4-1

7ª jornada – Atlético (c), 2-2

8ª jornada – Benfica (f), 0-2

9ª jornada – FC Porto (c), 3-2

10ª jornada – Olhanense (f), 0-2

11ª jornada – SL Elvas (c), 5-2

2ª VOLTA

12ª jornada – Sporting (c), 2-1

13ª jornada – Académica (f), 3-1

14ª jornada – Boavista (f), 4-1

15ª jornada – Oliveirense (c), 10-0

16ª jornada – V. Guimarães (f), 4-2

17ª jornada – V. Setúbal (c), 3-2

18ª jornada – Atlético (f), 4-2

19ª jornada – Benfica (c), 1-0

20ª jornada – FC Porto (f), 1-0

21ª jornada – Olhanense (c), 6-0

22ª jornada – SL Elvas (f), 2-1

Quatro totalistas

Artur Quaresma, Mariano Amaro, Serafim das Neves e Vasco Oliveira foram os quatro totalistas da campanha vitoriosa:

22 jogos – Artur Quaresma, Mariano Amaro, Serafim das Neves e Vasco Oliveira

21 jogos – Armando Correia

20 jogos – António Feliciano e Francisco Gomes

19 jogos – Manuel Capela e Rafael Correia

14 jogos – Manuel Andrade

13 jogos – José Pedro

10 jogos – António Elói

9 jogos – Mário Coelho

3 jogos – José Sério

2 jogos – Francisco Martins e Mário Sério

1 jogo – António Martinho

Goleador Andrade

Manuel Andrade, com 19 golos em 14 jogos efectuados, transformou-se na grande referência ofensiva da equipa, ele que era o mais jovem elemento do grupo, com apenas 18 anos:

19 golos – Manuel Andrade

14 golos – Artur Quaresma e Armando Correia

12 golos – Rafael Correia

6 golos – José Pedro

4 golos – Mário Coelho

2 golos – António Feliciano

1 golo – António Elói e António Martinho

Dias (V. Guimarães) apontou um autogolo a favor do Belenenses

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