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O trágico desaparecimento de Miklos Fehér, a 25 de Janeiro, com imagens em directo na televisão, alertou o País para uma realidade que, não sendo nova, tem vindo a transformar-se num drama do desporto moderno: a morte súbita de atletas, causada por problemas cardiovasculares.
Em ano de comemorações de Bodas de Prata, a Fundação Portuguesa de Cardiologia dedicou, ontem, em Lisboa, parte do seu Simpósio ao debate do tema, convidando para o efeito um dos mais reputados especialistas mundiais na matéria.
O italiano Domenico Corrado, da Universidade de Pádua, apresentou conclusões de um estudo efectuado na região de Veneto, manifestando-se apreensivo perante a evolução do consumo de substâncias dopantes (principalmente EPO, esteróides e cocaína) como possível motivo da morte súbita no desporto.
"O abuso de drogas e o 'doping' são graves problemas médicos e sociais. Verifica-se que há um número crescente de atletas vítimas de morte súbita, em cujas autópsias encontramos indícios impressionantes de múltiplas tromboses, um processo que é potenciado pela utilização de EPO, por exemplo", disse o cardiologista de 48 anos, salientando que "o 'doping' aumenta exponencialmente o risco de morte súbita".
Eficaz
O problema, no entanto, é bastante mais abrangente, como demonstram as conclusões do estudo realizado em Itália. Entre 1979 e 1999 foram identificadas 300 vítimas (dos 12 aos 35 anos), na região de que faz parte a conhecida Veneza, das quais 55 eram atletas (23 jogavam futebol).
"O risco de ocorrências é superior nos desportistas. Mas o desporto não é em si mesmo a causa. Funciona como um 'gatilho' em atletas afectados por disfunções cardíacas", considera Corrado.
Segundo o médico, o "screening" (despistagem), através de exames sistemáticos, pode prevenir o drama. "A grande vantagem do rastreio é a 'sensibilidade' do electrocardiograma. O ECG é muito eficaz na detecção da cardiomiopatia, a principal causa da morte súbita em atletas."
Futuro permitirá esclarecer origem genética
"A maioria das condições que contribuem para a morte súbita em atletas tem origens genéticas", garante Domenico Corrado, acrescentando que no futuro "será possível efectuar o rastreio genético de desportistas e familiares, para determinar factores de risco".
Em Itália, os estudos principiaram em 1979, com a autópsia ao corpo de um ciclista amador. 25 anos depois registam-se grandes avanços. "No caso de Marc-Vivien Foe - futebolista camaronês que faleceu num jogo Camarões-Colômbia, em 2003 -, o coração mostrou uma cardiomiopatia hipertrófica, uma das situações possíveis de detectar no processo de rastreio", diz.
Portugal espera solução e mais médicos na área
Domenico Corrado aproveitou a visita a Portugal para estabelecer contactos no sentido de implementar por cá o rastreio cardiovascular. Os meios de prevenção das doenças do coração não abundam no nosso país, nomeadamente na área do desporto. Ao Centro de Medicina Desportiva correspondem cerca de 80 médicos especialistas na área, número que fica muito aquém das necessidades do "mercado".
Estes problemas foram abordados no 6.º Simpósio da Fundação Portuguesa de Cardiologia, cujo leque de debates incluiu ainda um projecto no Desporto Escolar, para combater a obesidade infantil. Uma das iniciativas é promover visitas de estudo a supermercados para desmontar estratégias de "marketing"...
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