Uma taça sem raça

Uma taça sem raça
Uma taça sem raça • Foto: Amândia Queirós

Sem patrocinador desde 2012, a Taça da Liga arrasta-se no seu purgatório depois ter recebido a extrema-unção e escapado da morte. Até o presidente da Liga, Mário Figueiredo, entendeu que era melhor acabar com a competição criada por Hermínio Loureiro em 2007, quando o atual vice-presidente da FPF sucedeu a Valentim Loureiro na cadeira do poder da instituição com sede na Rua da Constituição, no Porto.

A Taça da Liga foi, curiosamente, bem acolhida, não apenas por ser novidade mas também porque proporcionou novas receitas não apenas à Liga mas também aos clubes, sobretudo aos médios e pequenos. Começou logo por ter um vencedor que saiu do arco dos grandes – o V. Setúbal –, mas só depois do tetra do Benfica é que outro clube não campeão, o Sp. Braga, conseguiu levantar o caneco.

A Taça da Liga não proporciona, como se sabe, qualquer livre-trânsito para as provas europeias. Nem há perspetivas de que o possa conseguir. Neste momento, continua a ser uma competição em risco. Está nas mãos do próximo presidente da Liga, que será conhecido a 9 de junho, definir o futuro da competição. No essencial, esta precisa como de pão para a boca de um patrocinador, pois é insustentável para a Liga continuar a investir numa prova cujo retorno é demasiado curto. Aliás, são muitos os clubes que neste momento se queixam de prémios em atraso relativamente à prova que está a ser disputada e ninguém sabe ainda quanto podem ganhar os finalistas.

O Sp. Braga, último vencedor da competição, viu mesmo defraudadas as suas expectativas relativamente ao prémio pela conquista da taça, que terá sido inferior aos 800 mil euros prometidos. Ainda este ano esse foi um dos argumentos usados por António Salvador para criticar Mário Figueiredo. Um presidente que viu a sua margem negocial reduzida a partir do momento em que, em 2012, a Olivedesportos rescindiu, alegando justa causa, o contrato que tinha com a Liga para a transmissão dos jogos desta competição. Joaquim Oliveira tinha mesmo assumido a responsabilidade de encontrar um sponsor para a prova...

A Liga começou então por vender os jogos da prova à SIC, mas esta estação entendeu há um ano que o negócio não era interessante e tinha pouco retorno. Depois de um longo impasse, a TVI entrou em campo, sem que os números sejam conhecidos, embora os clubes se queixem de que estão a ser vendidos “ao desbarato”, tendo-se passado de 300 mil euros/jogo nas partidas mais importantes para números na ordem dos 50 mil euros.

Ou seja, a Taça da Liga não só tem perdido graça como também não está a mostrar raça. Mas ainda mexe.

Pouco atrativa para o público

O jogo da corrente edição da Taça da Liga com mais espectadores foi o Sporting-FC Porto, com 21 505. Está longe de ser uma boa assistência. Apenas confirma a Taça da Liga como uma prova pouco atrativa para quem frequenta os estádios. Esta época aí chamam apenas 138 mil pessoas. Na sua estreia contou com 134 mil...

Clubes da 2.ª Liga gostam disto

Se os clubes grandes se queixam do pouco que podem ganhar com uma boa prestação na Taça da Liga, os outros clubes continuam a ver na competição uma oportunidade para resolver problemas. Um clube do fundo da tabela da 1.ª Liga que vença a competição pode aí faturar um terço do seu orçamento, o que é significativo. O problema é chegar à final, pois os grandes têm prioridade na fórmula competitiva, entrando perto do fim da competição.

Quanto aos clubes da 2.ª Liga, veem nesta taça a possibilidade de pagar três ou quatro meses de salário. O que é ótimo. O Leixões, por exemplo, que chegou esta época à fase de grupos, faturou já mais de 100 mil euros graças à sua prestação na Taça da Liga. Pode não parecer muito mas, para clubes que têm orçamentos na ordem dos 600 mil euros, é... dinheiro vivo importante, proporcionando ainda a prova a valorização de alguns jogadores, como aconteceu esta temporada com o Leixões em relação ao seu trinco Anderson, ainda a ser disputado por emblemas nacionais de outra dimensão e a poder proporcionar um encaixe na ordem dos 300 mil euros. Portanto, não é só diretamente que os clubes da 2.ª Liga podem ganhar, também o podem fazer através da valorização dos seus ativos.

Por isso, assiste-se neste momento a uma certa resistência dos responsáveis dos clubes do campeonato secundário para não deixar morrer a Taça da Liga. Recorde-se que esta época Sp. Covilhã, Leixões, Penafiel e Beira-Mar conseguiram atingir a fase de grupos, terminando todos em último lugar...

Muita cerveja e poucas apostas

A Carlsberg, marca de cerveja comercializada pela Unicer, cujo produto principal é a Super Bock, patrocinou as primeiras três edições da Taça da Liga. A competição até ficou de certo modo conhecida por “taça da cerveja”, uma forma encontrada pelos rivais do Benfica (vencedor da 2.ª e 3.ª edições) para depreciar a competição.

Mas nesse entretanto a Sagres entrou em força no futebol e passou a sponsorizar o campeonato. Foi-se a cerveja, chegou a Bwin, uma casa de apostas que até já tinha, embora com outro nome, patrocinado o campeonato, no tempo de Valentim Loureiro. Mas aí a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa entrou em campo e rapidamente a Bwin teve de se retirar, devido ao facto de estar a pisar terreno por ora sagrado. Perderam-se, assim, dois anos de contrato. O vazio criado acabou por não ser preenchido, com Mário Figueiredo a queixar-se de que Fernando Gomes ao “subir” para a FPF levou também consigo os potenciais sponsors da Liga de Clubes...

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