Taha Zarei: «Vou defender o Irão no Mundial do Qatar em 2022»

Guardião do Vilanovense sonha com a chamada de Carlos Queiroz

Taha Zarei tinha apenas 18 anos quando chegou ao Sporting e 19 anos quando se estreou pelo Leixões nos campeonatos profissionais, mas uma grave lesão num joelho gorou-lhe o sonho de ser chamado por Carlos Queiroz para a epopeia na Rússia. Volvidos sete meses de árdua recuperação, o guardião encara o projecto do Vilanovense, nos distritais da AF Porto, como a oportunidade ideal para relançar a carreira.

Record - Como que o Taha Zareei, natural de um país tão conservador como o Irão, chega a Portugal com apenas 18 anos?

Taha Zarei - Estava a representar os Sub-18 do Irão e um olheiro do Sporting sugeriu-me a oportunidade de vir treinar para Portugal. Financeiramente foi complicado, os meus pais endividaram-se para eu poder viajar, mas acabei por ir para a Academia de Alcochete. João de Deus era o técnico da equipa B e Marco Silva o do conjunto principal.

R – Foi complicado dar o salto da formação para o mundo profissional.

TZ – Os responsáveis do Sporting gostaram do meu potencial. Tanto que fiquei um ano a treinar e a viver em Alcochete, mas depois conversaram comigo e disseram-me que a prioridade seria sempre o jogador português porque era preciso referências para escola de guarda-redes do país. Compreendi o contexto porque o Sporting é o clube que mais jogadores dá à Seleção.

R – Foi nesse contexto que surgiu o Leixões?

TZ – Cheguei a Matosinhos com 19 anos e o guarda-redes principal foi expulso na 3ª jornada. O treinador disse-me que ia jogar frente ao FC Porto B. Joguei e ganhámos por 2-0 à equipa que viria a sagrar-se campeã nacional, mas no desafio seguinte o técnico deixou-me de fora com o argumento de que tinha muita confiança em mim, só que era muito jovem e no mundo profissional a experiência era muito importante e o Leixões já tinha um homem da casa. Fiquei triste, claro. Se joguei e fiz um bom trabalho porque tinha de sair? O futebol está recheado destas questões, mas acabei por aceitar até que em 2016/17 chegou a altura em que ia começar o período de definição para Carlos Queiroz escolher quem iria levar ao Mundial da Rússia. Ele sempre gostou do meu trabalho, mas lembrou-me que tinha de jogar com regularidade. No Leixões, no último dia de inscrições, disseram-me claramente que nunca seria a primeira escolha. A decisão é legítima, só que dizerem-me mesmo em cima do prazo caiu mal e preferi sair para ter a oportunidade de jogar com regularidade porque tinha o sonho de ir ao Mundial da Rússia. Mesmo que fosse como o 3º guarda-redes do Irão só o poder estar na Rússia com 21 anos teria sido brutal.

R – Apesar das circunstâncias competitivas não serem as melhores Carlos Queiroz mostrou-lhe sempre confiança?
TZ – Sempre. Eu sabia que em Leça ia jogar nos campeonatos distritais, mas que também teria a oportunidade de jogar com regularidade para mostrar serviço a Carlos Queiroz. Lá fiz meia temporada sempre a titular e continuei a ser chamado à selecção principal do Irão, mas fiz uma rotura de ligamentos num joelho num jogo particular com o Rio Ave e o mundo desabou. Perdi o resto da época e a oportunidade de estar na Rússia. Fui-me abaixo, mas quando o Mundial acabou o Carlos Queiroz falou comigo sobre a necessidade de ultrapassar a desilusão e recuperar bem porque eu já tenho 81 internacionalizações pelas selecções do Irão e não há mais ninguém com um currículo assim. Neste momento sou o capitão dos Sub-23 do Irão, mas tive de dedicar-me de corpo e alma à minha recuperação e não me esqueço nem dos sete meses da recuperação, nem de todos os dias em que chorei desalmadamente durante a viagem de metro entre Matosinhos e a clínica do Estádio do Dragão.

R – Como é que apareceu a oportunidade de representar o Vilanovense
TZ – Tive propostas da 2ª Liga portuguesa e também para regressar ao Esteghlal de Teerão, mas no início da época ainda não estava recuperado e ninguém acredita em ti quando não estás bem. Isso levou-me a fazer uma retrospectiva da minha vida. Estava em Portugal há quatro anos, sempre sozinho, sem ver a família e a fazer sacrifícios. Coloquei a questão do dinheiro de parte e, com o apoio do presidente António Coelho e do treinador Paulo Cadete, decidi aceitar o convite do Vilanovense porque eles acreditaram no meu valor, mesmo quando estava lesionado. Agora estou aqui para lhes retribuir toda a confiança que depositaram em mim quando não podia jogar.

R - O Vilanovense apresenta-se como a oportunidade ideal para o Taha relançar a carreira?

TZ – O Vilanovense tem uma grande história e o meu objectivo é chegar onde sonhei, mas só quero alcançar o que mereço. Não quero nada do outro Mundo, apenas o que é ajustado ao meu valor. As lesões fazem parte da vida, mas, se te entregas e tens qualidade, a tua oportunidade vai chegar. Neste momento o que quero é ter a cabeça livre para trabalhar e regressar ao meu melhor nível.

R – Uma vez que encara o Vilanovense como uma rampa de lançamento sente mais pressão no sentido de ter de fazer a diferença?

TZ – Eu sei bem o que tenho de fazer no Vilanovense e assumo que estou aqui para fazer a diferença, mas também já disse aos meus companheiros que eu não faço golos. Posso ajudar a não sofrer, mas eles é que têm de marcar. A nível pessoal o meu objetivo é regressar aos campeonatos profissionais. Já lá estive com 18 anos e como a carreia de um guarda-redes pode ser mais longa, acredito que, se mostrar a qualidade que me trouxe a Portugal, vou lá chegar outra vez. Fui pré-convocado para o Mundial da Rússia, só que fiquei de fora devido a lesão. Perdi um sonho que alimentei de quatro anos, mas não desisti. Agora sou o capitão dos Sub-23 e quero estar bem para poder jogar a Copa da Ásia em 2019 porque quero defender o Irão no Campeonato do Mundo do Qatar em 2022.

R – Quais são as diferenças entre o campeonato distrital e o mundo profissional?

TZ – As condições, essencialmente. Por exemplo, antes de jogar no Vila treinei sempre em relvados naturais, aqui o piso é sintético e foi preciso um período de adaptação. Não acho que a qualidade dos jogadores seja muito distinta, mas a personalidade é. Isso reflecte-se na responsabilidade de cada um no dia a dia. Num clube profissional treinas sempre de manhã. Vives e respiras sempre futebol . Aqui treinamos sempre ao final de um dia que para muitos é de outro tipo de trabalho. Só isso muda imensas coisas, mas as capacidades acabam por ser muito parecidas.
R – Essa ideia de dar o salto implica que o Vilanovense é um candidato à subida?

TZ – O sonho existe. Seja no Vilanovense ou nos outros clubes, mas o campeonato é muito equilibrado e não podemos projectar uma ambição sem alcançar outras, pelo que é obrigatório pensar passo a passo. Mostrar consistência, crescer e só depois pensar em algo mais.

Por Pedro Malacó
Deixe o seu comentário
Subscreva a newsletter

e receba as noticias em primeira mão

ver exemplo

Ultimas de Coluna Distrital

Notícias

Notícias Mais Vistas

Copyright © 2019. Todos os direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Cofina Media S.A. Consulte a Política de Privacidade Cofina.