No Dia dos Irmãos, a história de João Martins: «Foi difícil ser sempre comparado ao Carlos»

Jogador do Mafra e a carreira na sombra do mediatismo de Carlos Martins

João Martins exibe o nome na camisola; nem sempre chegou para não ser confundido com o irmão
João Martins recebeu reportagem de Record no estádio do Mafra
João Martins e Carlos Martins num dos dois duelos como profissionais: Académico Viseu-Benfica B em 2014
João Martins exibe o nome na camisola; nem sempre chegou para não ser confundido com o irmão
João Martins recebeu reportagem de Record no estádio do Mafra
João Martins e Carlos Martins num dos dois duelos como profissionais: Académico Viseu-Benfica B em 2014
João Martins exibe o nome na camisola; nem sempre chegou para não ser confundido com o irmão
João Martins recebeu reportagem de Record no estádio do Mafra
João Martins e Carlos Martins num dos dois duelos como profissionais: Académico Viseu-Benfica B em 2014

Carlos Martins, já retirado, jogou no Sporting, Benfica e ainda na Seleção Nacional. Conquistou todos os títulos de clubes em Portugal e até experimentou o campeonato espanhol; João Martins conta apenas com uma temporada na 1.ª Divisão, com a camisola do Penafiel em 2014/2015 e, aos 29 anos, ainda tem o palmarés em branco. Carlos e João são irmãos, ambos futebolistas. E hoje, Dia Internacional dos Irmãos, Record conta-lhe o ponto de vista de quem esteve sempre na sombra e teve de lidar constantemente com comparações. Hoje no Mafra, emblema recém-promovido à 2.ª Divisão, João Martins personifica a teoria de de que uma carreira com menos visibilidade não é, necessariamente, sinal de infelicidade.

RECORD - Tem tido a carreira que sonhou ou a carreira possível dentro das circunstâncias?

JOÃO MARTINS - Sonhei alto e sonhei ter uma carreira diferente da que construí. Mas orgulho-me da carreira que tenho, porque tive muitos percalços, como lesões, e sempre soube dar a volta por cima. Consegui chegar à primeira divisão, mas infelizmente apenas durante uma época. Certo é que estou há muitos anos no futebol profissional.

R - Foram muitas lesões?

JM - Infelizmente tive lesões graves em momentos cruciais. Quando estava no Penafiel sofri uma lesão no tendão de Aquiles que abortou a minha transferência para uma equipa da 1.ª Divisão. Não interessa agora dizer qual era o clube, certo é que estava tudo apalavrado e acabou por não acontecer. No ano seguinte acabei por ir para o Académico de Viseu, voltei a lesionar-me gravemente no ligamento cruzado e fiquei de fora mais 8 meses.

R - Se não fossem as lesões, onde poderia ter chegado?

JM - A verdade é que nunca tive muitas oportunidades. Acho que mostrava dentro de campo que merecia estar a um nível mais alto, os treinadores diziam-me o mesmo, mas nunca surgia a oportunidade de jogar na 1.ª Divisão. Houve apenas um treinador que me deu essa hipótese, o Ricardo Chéu, no Penafiel. Foi a minha melhor época, sentia-me confiante a jogar entre os melhores, marquei golos e fiz assistências. Mas o Penafiel acabou por descer divisão.

R - O João Martins chegou ao Sporting com 12 anos, jogou em vários escalões e até treinou com a equipa principal, na altura do Paulo Bento. O Sporting deu-lhe sinais de que acreditava em si?

JM - Sim, na altura eu era um ativo do clube porque joguei em todas os escalões do clube e também porque era assíduo na seleção até aos sub-21. O clube tinha muitas esperanças em mim mas, por uma ou outra razão, optou por dar oportunidades a outros jogadores. Fui emprestado sucessivamente, a Olhanense, Olivais e Moscavide e Atlético, e acabei por rescindir o contrato.

R - Hoje é Dia Internacional dos Irmãos. O João e o Carlos são irmãos e ambos jogadores de futebol. Viveram intensamente a carreira um do outro?

JM - Sim, foi uma constante. Vivemos as coisas boas e más um pelo outro, mas o lado mais difícil foi sempre ser comparado ao meu irmão. Tive uma carreira sendo o irmão do Carlos Martins e não o João Martins. E a comparação nunca era para o lado positivo. Quando algo acontecia de mal diziam: "Ele é igual ao irmão, tem o temperamento do irmão".

R - E quem fazia essas comparações?

JM - Toda a gente em geral. Por exemplo, quando me pedem entrevistas raramente me perguntam só sobre mim. Eu percebo que o meu irmão esteve em grandes clubes, mas para quem quer criar uma carreira como eu é complicado. E como somos parecidos fisicamente, até a jogar, dizem que somos iguais. Eu apanhei um treinador que não me conhecia de lado nenhum e, como o irmão estava a passar um mau momento na altura, disse-me: "Se vens para aqui fazer o que faz o teu irmão estás lixado". E ele nunca me tinha visto na vida. Quando eu estava a aparecer o meu irmão já estava a jogar em grandes palcos, já ia à Seleção e já era muito falado. O que me deixa triste com as pessoas é que não distinguiam um do outro. Foi uma sombra que tive e aprendi a lidar com ela, embora por vezes não tenha sido fácil.

R - O Carlos Martins ficava chateado com as comparações?

JM - Nunca falámos sobre isso, mas sinto que o Carlos também não ficava confortável. Mas sei que havia pessoas que reconheciam o meu valor, mas acabavam sempre por me associar ao Carlos. Aliás, houve treinadores que me chamavam Carlos: "Ó Carlos, anda cá. Carlos não, tu és o João". Chegou a uma altura em que me conformei: "Ok míster, sou o Carlos. Chame-me Carlos". Mas apesar de tudo quero reforçar isto: tenho muito orgulho na carreira do meu irmão e acho que ele podia ter chegado ainda mais longe se não fossem as lesões. Sempre foi o meu ídolo e sempre o admirei como futebolista, adorava vê-lo dentro de campo. Será sempre uma referência como jogador e pessoa.

R - Quem pedia mais conselhos a quem: você ao Carlos, uma vez que é mais novo?

JM - Ele por ser mais velho dava-me mais conselhos, até por situações que já tinha vivido e que eu estava prestes a viver. Dizia-me o que devia ou não fazer e a forma correta de estar no futebol.

R - Qual foi o melhor conselho que o Carlos lhe deu?

JM - "Dá o melhor de ti nos treinos e nos jogos, o resto já não depende de ti". Sempre tive isso em mente. E mesmo quando as coisas não corriam bem sentia-me de consciência tranquila porque tinha dado o melhor.

R - As comparações pressionavam-no?

JM - Sempre soube lidar bem com a pressão. Aliás, eu não consigo jogar sem pressão. Pressão não sentia, mas sentia-me triste por não me verem como o João Martins. "O João joga bem como o Carlos", ou algo do género, nunca diziam. Mas quando eu tinha uma reação qualquer diziam que eu tinha o feitio do meu irmão. As comparações eram sempre com o negativo do meu irmão e nunca com a parte positiva - e ele tem muitas coisas boas. Quem o conhece sabe a pessoa que é. Quando comecei a ser comparado com o Carlos foi quando subi a sénior e aí senti mais a comparação. Doía-me um pouco. Na altura não sabia lidar e cheguei a reagir a quente e talvez tenha feito coisas que não devia.

R - Como é que os vossos pais lidavam com as comparações entre irmãos?

JM - Para os meus pais foi ainda mais difícil, porque sempre quiseram o sucesso dos dois filhos. Eles pediam para as pessoas olharem para nós como pessoas diferentes e para distinguirem o João do Carlos, tanto a nível profissional como pessoal. Ficavam tristes porque senti-me prejudicado por ser visto como o irmão do Carlos.

R - Independentemente da carreira de cada um, o mais importante sempre foi a relação de irmãos e o orgulho um no outro, certo?

JM - O meu irmão sempre teve orgulho em mim. Sinto isso, não tanto por palavras, mas sim por atos. Até houve pessoas que me disseram isso, porque ele falava bem de mim. Sempre mostrou que acreditava em mim, qualquer que fosse o clube onde estivesse. E também nunca percebeu por que não me deram oportunidades em equipas de maior dimensão. A verdade é que tenho lutado contra as lesões e acho que não é só dentro de campo que se conseguem conquistas. No meu caso, o meu maior sonho é estar bem fisicamente e poder fazer o que mais amo, que é jogar futebol. Esse seria o meu maior troféu. Não tenho sido feliz com as lesões, mas estou tratado. Peço que me dêem oportunidades para brilhar em grandes palcos. Tenho fome de bola!

R - O Carlos Martins também passou por muitas lesões. Ele dava-lhe aquela força extra nesses momentos?

JM - Sim, ele passou por muitas lesões. Nunca teve uma muito grave, mas teve várias, daquelas musculares, que são chatas. Eu tive duas operações, uma a cada joelho. E a segunda foi logo a seguir à primeira. E ele ficou sem palavras, como eu. Fiquei desanimado, mas tudo acontece por alguma razão. Um dia, quem sabe, até posso ajudar pessoas que sofram os mesmos problemas, mesmo fora do futebol, por já ter passado por isso.

R - Lembra-se de quantas vezes defrontou o seu irmão em jogos oficiais?

JM - Sim. Duas vezes.

R - Académico Viseu-Benfica B, 2.ª Divisão, em 2013/2014; Belenenses-Penafiel, 1.ª Divisão, em 2014/2015. Antes desses jogos de que falaram?

JM - Antes do jogo houve picardias porque somos ambos intensos e não gostamos de perder. Dentro de campo não há irmãos e foi o que aconteceu. Eu quando tive de ir-lhe às pernas fui; e ele o mesmo comigo. Foi uma luta e nesse jogo esquecemos que éramos irmãos. Somos muito profissionais e sempre demos o nosso melhor.







              R - Imagine que jogavam na mesma equipa. Quem ficava com o número 10 na camisola?

JM - Acredito que ele me daria o 10. O Carlos sempre gostou de usar outros números, relacionados com os filhos, como o dia do nascimento.

R - E  jogariam de olhos fechados?

JM - Tinha o sonho de jogar contra ele e felizmente consegui concretizá-lo, embora poucas vezes. Desfrutei de estar a ver jogar um ídolo e quando o defrontei até pensei: 'Ui, como é que ele consegue fazer isto? Parece fácil'. Jogar ao lado dele, infelizmente, nunca consegui, mas acredito que nos íamos entender bem e jogar de olhos fechados porque jogamos de forma parecida.

R - Com 29 anos e se a condição física ajudar, o que ainda espera alcançar?

JM - Enquanto puder vou sempre lutar pelos meus sonhos e não será uma lesão que me vai deitar abaixo. Sempre disse que quem decide quando acaba a minha carreira sou eu, não é uma lesão me vai obrigar a isso. Sou persistente, tenho sonhos e o objetivo passa por regressar a 100 por cento. E ainda ambiciono chegar à 1.ª Liga, sinto-me jovem e claro que ambiciono jogar a um nível mais alto.

R - O Carlos Martins já acabou a carreira, o João Martins ainda tem uns anos pela frente. Quando deixar de jogar vê-se a trabalhar com o seu irmão no futebol?

JM - Nem penso nisso. Ele teve oportunidades para ficar ligado ao futebol e não quis. Nesta fase também não penso nisso. Quero recuperar da lesão e voltar a jogar futebol. Estou bom e agora preciso de jogar e divertir-me. Até porque vou ser pai brevemente e ainda quero que o meu filho me veja a jogar. Ele até pode não se lembrar, mas quero que ele me veja a desfrutar da minha paixão que é jogar futebol.

Por David Novo
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