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O Benfica mostrou "falta de compreensão do que é o racismo" na reação à acusação ao encarnado Prestianni no jogo da Liga dos Campeões, na terça-feira, considerou Luís Vaz Fernandes, responsável pela comunicação de organizações não-governamentais antirracismo.
Incumbido da comunicação de organizações não-governamentais de caráter antirracista, que atuam em situações de pobreza e de vulnerabilidade social em Inglaterra, onde está radicado há cinco anos, após trabalhar como jornalista em Portugal, Luís Vaz Fernandes criticou a reação "superficial" das águias, sobretudo ao referir que "apoia e acredita plenamente na versão apresentada pelo jogador Gianluca Prestianni", que negou ter dirigido insultos racistas a Vinícius Júnior, do Real Madrid.
"Ao pôr-se ao lado de alguém que está a ser acusado de racismo, o Benfica mostra que não está preparado para compreender ainda os debates sociais. E reflete muito o que se passa no país. A questão superficial nota-se, por exemplo, quando o Benfica diz que o melhor jogador de sempre no clube foi o Eusébio ou que tem jogadores negros. Parece quase aquela máxima: "Até tenho um amigo que é negro, portanto não sou racista". Isso mostra uma falta de compreensão do que é o racismo. E mostra falta de sensibilidade", vincou, em declarações à Lusa.
No seu entender, faltou ao clube da Luz "colocar-se ao lado de um grupo" - a população portuguesa com origem africana - que não tem ainda "muito espaço" e "grande voz" no país, apesar de já se verem "mais pessoas negras em trabalhos que exigem estudos e graus universitários" e de se "verem mais anúncios televisivos com pessoas negras" comparativamente há cinco anos.
Luís Vaz Fernandes sublinhou, porém, que as empresas e organizações portuguesas são incapazes de debater questões sociais como "o papel da negritude na portugalidade", que envolvem o racismo e o passado colonial, além do "superficial".
"Cada vez que há um caso de racismo público, é tudo muito superficial. Há uma forma de comunicar que mostra que ainda não se fez esse trabalho de compreender o passado do país, de compreender porque é importante termos em conta a experiência e as dificuldades de uma parte da população portuguesa", referiu.
Convencido de que os profissionais de comunicação do Benfica mostraram falta de "noção dos debates sociais" em torno do racismo, o comunicador realçou que o fenómeno abrange o "país como um todo" e lamentou que as televisões lusas tenham dado 'palco' a comentadores capazes de dizerem "as coisas mais bárbaras", reveladoras de um "racismo básico e primário" que já poderia ter desaparecido se houvesse debate.
"A imprensa desportiva britânica reagiu aos comentários de José Mourinho [a sublinhar que estes episódios são frequentes com Vinícius Júnior] e dos comentadores portugueses com um olhar de certo desdém, como que a interrogar-se como é possível, em 2026, um país da Europa Ocidental permitir que as pessoas possam dizer essas coisas para milhões de telespectadores", acrescentou.
Ainda responsável por um documentário com produção em curso, intitulado "Fragmentos de um Portugal negro", em referência à história da população negra em solo luso desde o século XV, Luís Vaz Fernandes salienta que a Inglaterra já debate "há muito tempo" o seu legado como império colonial, ao contrário de Portugal, que considera "muito atrasado" nessa matéria.
"Ainda não fez essa reflexão. Olha ainda para si como um país de brandos costumes, como um país ainda 99% branco, quando já não o era há cinco anos e não é agora. O país ainda não se conhece muito bem", sintetizou.
Na terça-feira, na primeira mão do play-off de acesso aos oitavos de final da 'Champions', que o Real Madrid venceu por 1-0, o avançado brasileiro Vinicius Júnior, após ter marcado o único golo do jogo, terá sido alegadamente vítima de insultos racistas por parte do extremo argentino do Benfica Gianluca Prestianni.
O árbitro francês François Letexier interrompeu o encontro e acionou o protocolo antirracismo, retomando a ação quase 10 minutos depois.
Os encarnados confirmaram, na sexta-feira, a abertura de um processo interno aos adeptos que imitaram macacos no Estádio da Luz, durante o jogo, o que, caso sejam sócios, pode culminar na sua expulsão.