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José Mourinho confidenciou como lida com as emoções, depois dos jogos. Foi algo que diz ter aprendido com o pai, Félix Mourinho, e raramente extravasa, após uma grande vitória ou derrota.
"Era um líder extraordinário, com uma tranquilidade incrível, com um controlo das emoções ao mais alto nível. Há uma coisa nele que eu agarrei e não mudo, que é: Depois do jogo, não é o momento certo para falar com os jogadores, para expressar emoções, sejam elas positivas ou negativas. É muito difícil alguém ver-me exaltar depois de um jogo, no balneário, como é depois muito difícil verem-me depois a dar uns pontapés nas portas. Ao intervalo, sim. No final, não. No final, não há nada a fazer. Isso eu bebi do meu pai. A honestidade, eu percebi desde cedo que os jogadores apreciavam muito. E aquela coisa do pai doce e do pai tirano, é uma coisa que se aplica desde que seja no momento certo. Honestidade, acima de tudo", explicou.
José Mourinho confidenciou que tinha uma relação especial com Eusébio, apesar de "não ser amigo, amigo". Mas que, em certa altura da infância, por obra do pai, Félix Mourinho, ia recebendo prendas do Pantera Negra, até pela proximidade do aniversário entre ambos [Eusébio dia 25 de janeiro e Mourinho dia 26]. Mas o técnico dos encarnados revelou que, muitos anos mais tarde, quis ficar com a primeira Taça Eusébio, a qual venceu, ao serviço do Inter de Milão, no ano de 2008.
"Conheci o Eusébio. Tive o privilégio de ser, não diria amigo, amigo, mas ele tinha muito carinho por mim. Olhava para ele com uma admiração fantástica. O nosso aniversário era com um dia de diferença. Ele no dia 25 e eu 26. E desde pequeno, não sei como é que o meu pai conseguia aquilo, mas houve um período da minha vida que eu tinha sempre uma prenda do Eusébio. Eu tinha uma camisola do Eusébio, um postal dele com a Bota de Ouro, autografado por ele. Eles tinham uma boa relação e houve um período em que o meu pai me fazia ter este contacto com o Eusébio. Depois, volto a reencontrar o Eusébio, na Luz, na primeira Taça Eusébio, em que o jogo acaba, e no fim do jogo tive o impulso de pedir ao Massimo Moratti, a taça para mim. Eu tenho a Taça em casa. Já disse aqui no Benfica, que se a dona Flora, uma das filhas ou netas fizer muita questão de ter a primeira Taça Eusébio, que eu a dou. Mas até agora, ninguém me disse nada e a primeira Taça Eusébio está na minha casa", revelou José Mourinho, em entrevista a Rui Miguel Tovar, na Rádio Renascença.
O atual técnico dos encarnados confidenciou, ainda, que o primeiro convite que teve para ser treinador principal foi do Sp. Braga, mas que foi o pai, Félix Mourinho, que o aconselhou a não aceitar. "O meu pai na minha carreira, quando começou a perceber que eu tinha pernas para trepar, foi mais espectador e meteu a responsabilidade toda nas minhas mãos, mas houve um momento específico em que me deu uma opinião. Ele dava poucas e quando dava era muito objetivo. Eu estava no Barcelona e sou convidado pelo Sp. Braga. É o primeiro clube que me faz convite para ser treinador principal. Eu tenho aquele impulso e ele disse-me “tem juízo”. E disse-me, 'hoje o Sp. Braga, amanhã o V. Guimarães, o Belenenses, o Marítimo, algum vai ser o primeiro, mas Barça, adjunto, a trabalhar com jogadores de alto nível, tem juízo, a tua hora vai chegar", apontou, tendo ainda relatado como o progenitor lhe confidenciou que iria abandonar a carreira: "Lembro-me quando ele decidiu deixar de jogar. Não sei especificamente o último jogo dele, mas ele tinha pensado acabar no final da época, mas numa segunda feira vai-me buscar à escola e diz-me 'vou deixar de jogar'. E eu pergunto porquê? 'Porque o golo que sofri ontem, não tinha sofrido há um ano ou dois. Acabou. Chegou ao Belenenses e disse que ia continuar a treinar e passar de primeiro para terceiro guarda-redes. Se tiver de ir a suplente, preparo-me até final da época, mas a minha carreira acabou aqui. Depois lembro-me que tem de ir a suplente num jogo, com o Montijo, mas na minha cabeça quando foi convocado para aquele jogo, ele ia jogar. Convenci-me que ele ia jogar e quando o vi no banco, foi quando interiorizei que tinha mesmo acabado".
Por Valter Marques