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Longe vão os tempos em que essa função no Benfica tinha peso, influência e simbolismo. O carácter excepcional que presidia à atribuição do cargo diluiu-se nos últimos tempos e transformou o que era um acto simbólico numa vulgaridade. Ao longo de quarenta e quatro anos, a Luz conheceu apenas dez capitães. Nos últimos dois, a braçadeira mudou de braço sete vezes...
Longe vão os tempos em que o cargo de capitão no Benfica tinha peso, influência e simbolismo. Ao longo da sua história o clube conheceu grandes capitães, alguns deles figuras emblemáticas que marcaram o seu tempo pelas qualidades futebolísticas, características de liderança, pelo carisma que irradiavam e por estarem associados a épocas gloriosas. Desde 1956, quando José Águas herdou a braçadeira de Chico Ferreira, até ao ano 2000, a honra de a envergar coube apenas a dez jogadores, entre eles alguns que se tornaram verdadeiros símbolos do clube e outros que constituem uma referência pelo seu passado, prestígio e popularidade: José Águas, Mário Coluna, António Simões, Toni, Humberto Coelho, Bento, Shéu, Diamantino, Veloso e João Pinto. Nem todos estes nomes tinham o perfil de líderes, mas o seu passado no clube tornava-os credores do respeito e da aceitação dos companheiros de equipa e dos adeptos. Aliás, o critério que prevaleceu durante décadas para a escolha do capitão foi justamente o da antiguidade, só quebrado na gerência de Manuel Damásio, na qual houve uma interferência do próprio presidente do clube no sentido da braçadeira ser entregue a João Pinto.
Esse carácter excepcional que presidia à atribuição da braçadeira diluiu-se por completo nos últimos anos e transformou esse acto simbólico numa vulgaridade. A época de 2000/01 conheceu quatro capitães, Paulo Madeira, Ronaldo, Calado e Maniche, aos quais se podem somar mais os três que exerceram o cargo durante esta época: Fernando Meira, Enke e Drulovic.
Nenhum destes sete nomes tinha ou tem perfil, passado e estatuto para o cargo. Paulo Madeira e Maniche tinham um percurso no clube desde as camadas jovens, mas careciam de estatuto e até temperamento para o exercício dessas funções; Ronaldo além de ser estrangeiro, era um indivíduo extremamente reservado, que foi escolhido por ser dos raros que conseguira permanecer no clube quatro épocas consecutivas; a Calado, sendo português, ninguém reconhecia peso e estatura para assumir tal responsabilidade, também pela circunstância de se tratar de um jogador de nível mediano.
Um atributo vir do FC Porto
Se é sintomático o facto de Fernando Meira ter sido promovido a capitão após uma época de permanência na Luz, a atribuição da braçadeira a Drulovic, um jogador intrinsecamente ligado aos êxitos e à filosofia do FC Porto, reflecte a crise que se abateu sobre o plantel do Benfica ao nível de jogadores representativos e com raízes no clube. O sub-capitão é outro jogador proveniente do FC Porto no início desta época, João Manuel Pinto. Como se ter sido jogador do principal rival da última década fosse um atributo, um factor de afirmação no Benfica. Imaginam um jogador contratado pelo Barcelona ao Real Madrid ou vice-versa receber a braçadeira de capitão alguns meses decorridos sobre a sua chegada ao clube? Do mesmo modo, seria possível ocorrer a situação inversa no FC Porto [onde, apesar de tudo, se mantém jogadores referenciais como Vítor Baía, Jorge Costa, Paulinho Santos e Capucho] de um jogador contratado ao Benfica capitanear a equipa portista após alguns meses ao serviço do clube? Ou no seu velho rival, o Sporting, no qual essa responsabilidade está endossada a Pedro Barbosa e Beto?
É um facto que estamos perante um fenómeno decorrente de vários factores, que também atingiu o FC Porto e o Sporting, nomeadamente a livre circulação de jogadores consagrada pela chamada Lei Bosman no espaço europeu, mas esse não foi o cerne da crise. Quantos jogadores verdadeiramente importantes o Benfica perdeu por causa da Lei Bosman? Não preenchem os dedos de uma mão. A questão nuclear residiu justamente na ausência de uma politica coerente de contratações, sobretudo a partir da gerência de Manuel Damásio, a qual marca o início do descalabro com o desmantelamento da equipa que se sagrara campeã em 93/94 e a contratação massiva de jogadores de segundo plano, e que se acentuaria nos mandatos de Vale e Azevedo. A verdade é que a erosão no Benfica, onde nestes últimos anos entraram e saíram mais de uma centena de jogadores, foi muito mais acelerada do que nos rivais.
Além dos erros de gestão do futebol profissional, o investimento ao nível da formação foi progressivamente descurado [e os poucos valores que iam surgindo viam-se tapados por estrangeiros sem categoria] contribuindo para agravar a ausência dos tais porta-estandartes da mística do clube.
João Pinto, o último grande capitão
João Vieira Pinto foi o último grande capitão do Benfica antes da "queda do império", mas todos os que o precederam foram figuras emblemáticas, que marcaram uma época no clube e estiveram associados a momentos inolvidáveis de glória. Nem todos tinham o perfil de líderes, mas em comum unia-os um historial no clube credor de respeito e aceitação gerais. Mário Coluna e Humberto Coelho, por exemplo, tinham qualidades de liderança indiscutíveis que faziam valer dentro e fora dos relvados. Eram líderes por todos reconhecidos, que se impunham naturalmente pela sua forte personalidade. A circunstância de serem dois grandes jogadores, dos melhores de sempre a nível mundial nas respectivas posições, apenas reforçava o seu estatuto.
José Águas foi o capitão do período áureo da conquista das duas Taças do Campeões Europeus, em 60/61 e 61/62, António Simões, um dos nomes míticos do Benfica que fez furor na Europa, ostentou a braçadeira na primeira metade da década de setenta passando o testemunho a Toni, outra figura incontornável da história do clube não só pelo seu passado como executante, mas também como treinador. Bento, Shéu, Diamantino e Veloso foram, também, com estilos diferentes, capitães de corpo inteiro, figuras de referência do clube.
Ricardo Gomes, o primeiro estrangeiro
O primeiro estrangeiro a ter a honra de ostentar a braçadeira de capitão do Benfica foi Ricardo Gomes, internacional brasileiro, um dos melhores centrais do mundo na sua época. Fê-lo em apenas alguns jogos, mas com tal autoridade e carisma que deixou marca muito forte. Tinha uma personalidade vincada, uma cultura muito acima da média, e um ascendente sobre os companheiros. Numa palavra, era um líder nato. Houve, também, outros capitães ilustres, mas pontuais, como Eusébio, Nené e Carlos Manuel, entre outros.
Reacções
TONI (EX-CAPITÃO E TREINADOR)
"A lei Bosman, ao acabar com o direito de opção, trouxe grande instabilidade ao futebol europeu a nível directivo, financeiro e da gestão dos plantéis. Era impensável há poucos anos um clube inglês, o Chelsea, entrar em campo com um inglês e dez estrangeiros. O FC Porto também deixou sair o seu grande capitão, o Jorge Costa, e no Sporting já vi o André Cruz a envergar a braçadeira... É preciso ter em conta a conjuntura e não fazer disto um 'bicho de sete cabeças".
GASPAR RAMOS (EX-DIRIGENTE)
"Preocupa-me a ausência de jogadores com tradição no clube, o que leva a que o capitão e sub-capitão sejam dois jogadores que vieram do FC Porto há um rol de meses. Não tenho nada contra o Drulovic que merece consideração pela sua postura como profissional. Vejo o clube com graves problemas financeiros que condicionam Manuel Vilarinho, sem que estejam criadas as estruturas necessárias. É preciso investir na formação e isso também não está a ser feito".
DIAMANTINO (EX-CAPITÃO)
"Não é grave o facto do Benfica ter um estrangeiro como capitão, grave é não ter um capitão que seja uma referência do clube. Não está em causa o Drulovic que é um jogador calmo, experiente, se calhar a opção mais válida para o cargo no actual contexto. O que se está a passar é o espelho da instabilidade em que o Benfica tem vivido nos últimos dez anos e que faz com que os grandes jogadores não queiram permanecer no clube".
VELOSO (EX-CAPITÃO)
"Faz-me um pouco de confusão ver um estrangeiro como capitão do Benfica, mas o que se está a passar tem a ver com as transformações que o plantel tem sofrido todos os anos, com entradas e saídas de jogadores aos magotes. Antes havia um critério, que era o da antiguidade. Agora não sei qual é, mas a verdade é que nos dias de hoje não há jogadores antigos, são todos novos".
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