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04 maio

V. Guimarães

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Cherbakov: «A vida está difícil»

Quase dez anos após o trágico acidente que lhe interrompeu a carreira, numa altura em que se revelava no Sporting, o russo sobrevive preso a uma cadeira de rodas e às memórias

Record - Como se sente?

Serguei Cherbakov - Vivo. Sinto-me normal, porque tenho outra vida. Sempre quis ter trabalho em Portugal, mas é difícil viver sem trabalho noutro país. Por isso, tive de vir para Moscovo. Vivo normalmente, tenho muitos amigos. Uma pessoa numa cadeira de rodas acaba por arranjar muitos amigos, porque necessita de muita ajuda. Encontrei muitas pessoas que me ajudam a viver e a trabalhar. E dão-me muita moral.

- A vida tem sido difícil depois do acidente de Dezembro de 1993?

- Claro que tem sido. É difícil viver numa cadeira de rodas. Mas tenho fé que esta situação possa mudar um dia e isso ajuda-me para muitos anos.

- Financeiramente, como vive?

- Nos primeiros cinco anos depois do acidente, o jogo de solidariedade que foi feito permitiu viver com esse dinheiro. Agora, a vida está um pouco difícil. Tenho trabalho como presidente da Federação de Paraolímpicos da Rússia e isso é bom.

- Tem algum apoio da federação russa de futebol?

- A federação russa de futebol apoia a Federação dos Paraolímpicos, de que sou um presidente por um tempo que não está determinado, mas directamente a mim, não. Tenho outras pessoas que me apoiam. São verdadeiros amigos que me ajudam.

- Como são os seus dias?

- Vou diariamente a uma clínica de reabilitação, em Moscovo. Faço o meu trabalho de recuperação e, depois do almoço, vou para a Federação dos Paraolímpicos, tratar de coisas relacionadas com a equipa de futebol, como torneios e campeonatos do Mundo e da Europa.

- Tem esperança em recuperar e voltar a andar?

- Claro. Trabalho todos os dias para isso. Tenho fé de que algo possa mudar daqui a um ou mais anos. Penso muito nisso e, diariamente, esforço-me muito para que tal possa acontecer.

- Anteriormente, esteve em duas outras clínicas de reabilitação, em Cuba e na África do Sul. Quem pagou?

- Não foi o Sporting, foi o Lokomotiv de Moscovo.

- Espera um dia poder abraçar um projecto num clube de futebol?

- No futuro, algo pode mudar na minha vida e poderei ajudar um treinador principal de um clube. Tenho a vida pela frente e pode acontecer ainda muita coisa. É isso em que penso todos os dias.

«Foi tudo por minha culpa»

- Aos 22 anos, tinha o mundo a seus pés...

- O que me aconteceu, podia acontecer a outra pessoa. Tenho consciência de que tinha o mundo a meus pés. Antes, tinha dinheiro e tinha uma carreira. Perdi muito. Podia ter ficado como Figo ou Zidane. Diziam que Cherbakov podia ser grande.

- O acidente cortou-lhe muitos sonhos, como a participação no Mundial dos Estados Unidos?

- Claro. O seleccionador disse-me ia começar a jogar na equipa principal. Sabia que ia jogar no Mundial dos Estados Unidos. Para todos os jogadores, participar no Campeonato do Mundo é um sonho.

- Recorda-se do acidente?

- Sim.

- ...

- Passei o semáforo vermelho e um outro carro bateu no meu.

- Na altura, teve noção da gravidade?

- Não. Pensei que as pernas talvez estivessem partidas, nada mais. Não as sentia. Mas, quando cheguei ao hospital e me tiraram da maca percebi que era mais grave.

- Quando se apercebeu que tinha acabado para o futebol?

- Quando falei com o doutor Paneiro Pinto, ele explicou que tinha sido um acidente que provocou lesões de muita gravidade. Disse-me que não mais ia jogar futebol, mas pensei que, passados dois ou três meses, voltaria a jogar. Depois, com o passar do tempo, comecei a aperceber-me que a minha vida tinha mudado. Senti-me angustiado. Às vezes, chorei na cama, porque perdi o futebol. Perdi o que mais gostava, que era jogar a um nível alto na Europa.

- Em 1991, no Mundial de sub-20, conheceu a alegria de ter sido o melhor marcador da competição que Portugal conquistou pela segunda vez consecutiva. Depois, ingressou no Sporting e estava a projectar-se. Lisboa deu-lhe a conhecer o melhor e o pior?

- É triste, mas tudo já passou.

- Sente que perdeu uma grande carreira?

- Nunca pensei muito nisso. Sempre pensei em jogar cada jogo de cada vez. Nem sequer pensava onde estaria a jogar dois ou mais anos depois. Tinha 22 anos e pensava que havia muita coisa pela frente

- O que procurava no futebol: o gosto pelo jogo, a fama ou o dinheiro?

- Primeiro, procurava a fama. Depois, o dinheiro, claro.

- O futebol deu-lhe muitas alegrias?

- Não sei. Encarava o futebol como um trabalho. Um trabalho como outros, como, por exemplo, um motorista que conduz durante oito horas e depois descansa. O que me chateava era que, depois do treino, tinha muito tempo livre e estava muito sozinho. Não sei se era feliz no meu trabalho.

- O futebol deu-lhe tudo, mas também lhe tirou tudo?

- Para mim, o futebol não me deu nada, porque não consegui atingir o objectivo de jogar a um nível muito alto. Na altura, diziam que era um grande jogador, mas não tive tempo de mostrar que realmente o era. Neste momento, apenas se pode dizer que sou uma boa pessoa e não que podia ter sido um grande jogador.

- Está triste?

- Claro, o acidente tirou-me o meu trabalho.

- Está consciente de que cometeu um erro grave?

- Sim. Mas podia ter acontecido a qualquer outro. Comigo até podia ter acontecido se tivesse apanhado o táxi para casa. Tinha de acontecer.

- Existe em si algum sentimento de culpa?

- Foi tudo por minha culpa.

«Cintra não pagou o meu contrato»

- Na altura do fatídico acidente, Sousa Cintra era o presidente do Sporting. Ele disse que o Sporting se comprometia a apoiá-lo em todos os aspectos, sublinhando mesmo que não iria descurar a vertente financeira. Nunca cumpriu?

- O Sporting pagou apenas o hospital. Cintra não me ajudou mais, nem sequer no jogo de solidariedade, porque os sportinguistas compraram os bilhetes para assistir e foi essa a receita que me deram.

- O contrato continua por pagar?

- Até hoje, Sousa Cintra não pagou o meu contrato. Restavam ainda dois anos e disse-me que não podia pagar porque não jogava.

- Mas ele prometeu a seu pai que pagava?

- Ele prometeu que ia pagar uma verba todos os meses, até ao final do contrato. Depois, um dia, apareceu-me no hospital uma pessoa com um papel a dizer que tinha acabado o contrato e que não pagavam mais nada.

- Esperava essa ruptura?

- Não, fiquei muito triste. Tinha contrato e o Sporting tinha de o respeitar. Foi uma infelicidade o acidente.

- Foi uma situação injusta?

- Cintra não foi um homem sério.

- Ele disse que, algum tempo antes do acidente, o multou. Porquê?

- Só me multou uma única vez, porque regressei para casa mais tarde, depois do jantar. Fui a um restaurante e voltei perto da meia noite para casa.

- Ele afirmava que o Cherbakov andava na "má vida" e que lhe tinha dito para "ter juízo"...

- Ele tem alguma coisa a dizer em relação aos jogos que fiz? Sempre me entreguei. Troquei a minha vida na Rússia para viver em Portugal e foi muito difícil. Foi a primeira vez que estive só num país e sentia-me muito sozinho.

- Sousa Cintra não compreendeu essa situação? Devia apoiá-lo mais, aconselhando-o?

- O presidente do clube não tinha de se meter na equipa. O principal era o treinador, que era o Bobby Robson, que era uma pessoa normal. Os jogadores tinham vida privada e Cintra não tinha o direito de se meter.

- Sente-se magoado com o Sporting?

- Quando as pessoas perguntam onde joguei, sempre digo que foi no Sporting. Claro que estou muito triste pela atitude que os dirigentes da altura tiveram, mas nada tenho contra o Sporting. Cintra não foi correcto comigo. Eles disseram-me que até podiam ter resolvido o problema de outra maneira. Sempre estive aberto para conversar, para procurar a melhor maneira para resolver o caso. Queria que me comprassem qualquer coisa, se não quissessem dar dinheiro. Por exemplo, comprarem-me uma casa, mesmo que fosse pequena. Depois, arranjaria qualquer coisa para me ocupar. Mas criaram muitos problemas.

- Quanto ficou por pagar?

- Tinha a receber até final do contrato 250 mil dólares.

«Sporting está no meu coração»

- Há quanto tempo não vai a Lisboa?

- Há quase dois anos.

- Tem estabelecido contactos com os colegas da equipa do Sporting que integrou?

- Poucos. Troco poucos números de telefone. Recentemente, falei com o Figo, quando o Real Madrid veio a Moscovo jogar com o Lokomotiv.

- Não mais falou com Bobby Robson, o técnico responsável pela sua contratação por parte do Sporting?

- Não, nunca mais falei com ele.

- Tem acompanhado o futebol português?

- Às vezes, leio revistas ou jornais para ver como está o campeonato, quem ganha ou quem perde. Actualmente, sei que o FC Porto tem uma forte equipa. Que pena o Sporting estar no terceiro lugar. Não percebo o que se passou esta época. O Sporting é um grande clube.

- Trabalhou com Mourinho, no Sporting. Ele já é virtual campeão nacional no FC Porto e ganhou a Taça UEFA. Surpreende-o este sucesso?

- Não. Ele era segundo treinador do Sporting, quando lá estive. É uma pessoa honesta, um bom treinador, porque trabalhou com muitos treinadores importantes na Europa, como Van Gaal e Robson. Merece.

- Um dia disse que tinha o Sporting no coração. Ainda tem?

- Claro que o Sporting está no meu coração, porque joguei nesse clube. Foi um clube que me marcou muito, não só por ter sido a minha primeira experiência internacional, como por ter gostado muito de jogar no Sporting. Para mim, o Sporting foi muito importante.

«Seria bom jogo de solidariedade»

- Lembra-se do último jogo que fez em Alvalade, na recepção ao Beira-Mar, dias antes do acidente?

- Não tenho qualquer lembrança em particular a não ser de que não joguei nada. O que me recordo muito bem foi do jogo com o Casino de Salzburgo, na Taça UEFA, quando marquei um golo espectacular. Foi uns tempos antes do acidente.

- Sentiu o calor das pessoas na dor?

- Claro, sobretudo quando aconteceu o jogo de solidariedade. Senti sempre que as pessoas me apoiavam. Havia até muitas pessoas que iam ao hospital para me tentar ver e dar-me força. Nessa altura, houve muita gente que me ajudou muito, acreditou em mim e deu-me muita fé. Ninguém me virou as costas.

- Gostava de voltar a Portugal?

- Claro.

- Em breve?

- Sim. Em Dezembro, faz anos que aconteceu o acidente e o Lokomotiv teria muita honra em jogar com o Sporting, num jogo de solidariedade. Seria muito bom um jogo de solidariedade com o Sporting, que já se mostrou disponível. Falta encontrar uma data para fazer esse jogo.

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