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07 abril

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Fernando Santos: «Estou ansioso para falar com os jogadores»

Na primeira entrevista como treinador do Sporting, o engenheiro revela-se determinado a construir uma equipa solidária e ambiciosa

Fernando Santos: «Estou ansioso para falar com os jogadores»
Fernando Santos: «Estou ansioso para falar com os jogadores» • Foto: Fernando Ferreira

Record – Seis meses de "jejum" futebolístico. Muito tempo a analisar jogos do Sporting?

Fernando Santos – Vi alguns jogos do Sporting e dos outros clubes, como mero espectador de futebol. Também vi alguns jogos de outros campeonatos. No entanto, a televisão não é um meio muito apelativo para mim, futebolisticamente falando. Não consigo estar um jogo inteiro, frente à televisão, a ver o jogo concentrado. O que faço, muitas vezes, é estar a ler o jornal e, de vez em quando, dar uma olhadela para o ecrã. É que sinto a sensação de ter um campo de visão muito limitado e, daí, não ter interesse em ver muitos jogos. Neste período de afastamento, olha-se para o jogo não com o desejo de saber quem vai ganhar mas, por outro lado, com a curiosidade de encontrarmos alguma coisa de interessante.

– Há quanto tempo é que o Sporting o abordou?

– Passados uns dias de, publicamente, a SAD do Sporting ter assumido que o senhor Bölöni não continuaria como treinador, começou a haver algum contacto. O Sporting tem uma forma diferente de contratar. Há um perfil, vão à procura dessa pessoa e depois ouvem-na, tentando saber se se adapta ou não. Confesso que, ao princípio, me pareceu estranho porque nos muitos anos de treinador nunca tinha passado por uma contratação assim. No Sporting, as pessoas preocupam-se primeiro em dar a conhecer as várias áreas do clube, qual a filosofia e política praticada, colocam o treinador em contacto com quem ele vai trabalhar no dia a dia, em suma, procuram um conhecimento mútuo. Foi isto que aconteceu durante algum tempo, embora não fosse necessário muito tempo, pelo menos pela minha parte, para nos identificarmos. Senti que estava identificado com as pessoas, com a sua forma de pensar. Há uma perfeita comunhão de ideias e de opiniões em relação ao futebol, à actual conjuntura, ao que se pode e deve fazer.

– Quais são as ideias mais fortes?

– A de que, hoje, o futebol tem que ser visto, sob pena de amanhã não ser visto de maneira nenhuma, no plano desportivo em primeiro lugar, mas sempre interligado ao plano económico. Esta era uma questão importante. A outra, é a filosofia, num trabalho a médio e longo prazo, numa aposta clara no desenvolvimento da formação. Isto sem esquecer o imediato, sem esquecer que o Sporting quer ganhar. Depois – e este era o primeiro dado importante para mim – a filosofia de grupo, onde toda a gente tranbalha para os mesmos objectivos, em que deixam de ser "elas próprias" e passam a ser parte integrante de um grupo que é o Sporting Clube de Portugal e que todos devem trabalhar em diálogo sem perder o seu carácter, as suas ideias, mas convergentes para o grupo.

– Por isso disse que "é necessária uma certa cumplicidade"?

– Sim. Essa cumplicidade já está conseguida, em parte, embora falte juntar aqueles que são essenciais nisto tudo.

– Ao longo desta época houve problemas no balneário. Quando abordou essa ideia de cumplicidade não estava a referir-se às mudanças comportamentais necesárias?

– Não faço juízos de valor sobre coisas que não conheço nem vivi na prática. Portanto, o que me dizem não me interessa nada. A experiência como treinador, nos anos bons e menos bons, diz-me que o factor principal, para além de ter bons jogadores, naturalmente, para se ter uma boa equipa, capaz de responder, de fazer coisas boas, é esta união, esta cumplicidade. É o balneário, se lhe quisermos chamar assim. Só com um bom balneário – e não se pense nisto como "boa gente, bons rapazes" – com todos a chorar quando perdemos e rir quando ganhamos, é que poderemos atingir todos os objectivos. No Panathinaikos dizia aos jogadores que não se pode um ter espírito ganhador e estar disposto a partir um dedo para ser campeão e haver outro que não parte uma unha. É neste sentido que refiro a união, a cumplicidade. Quero um grupo que assuma e interiorize que quando ganhamos, ganhamos todos, quando perdemos, perdemos todos e que há um homem que dá a cara, que é o treinador.

– Na conferência da sua apresentação, ficou no ar um discurso de viragem de mentalidade...

– Sou um homem de convicções fortes. Sempre as tive. Há muitos anos uma colaboradora de Record perguntou-me quem devia ser o seleccionador nacional e eu disse "eu". Sempre lutei por elas e sempre respondi, no início de cada temporada, "há que fazer melhor do que na época passada". Felizmente – no Estrela, por exemplo – consegui sempre melhorar até atingir o que era meu objectivo: a melhor classificação de sempre. Quando fui para o FC Porto, perguntaram-me o que esperava ganhar e respondi "tudo"; para o AEK a mesma coisa. Mas não digo isto para agradar aos sócios, aos adeptos; digo-o porque acredito. Hoje digo a mesma coisa, porque vamos ser capazes de criar uma equipa suficientemente forte, capaz de jogar bem e também criar uma mística de vitória. Portanto não é uma mensagem de esperança, é, isso sim, uma mensagem de confiança. Em conjunto – eu, sozinho, não sou capaz! – seremos capazes de construir uma equipa que irá lutar para ser campeã nacional! Isso é evidente.

- Já terá feito uma análise sectorial ao plantel leonino...

– Já fiz uma análise global da equipa do Sporting...

– Então quais são as lacunas que entende deverem ser colmatadas no imediato?

– Não vou, como compreende, falar disso. Não podemos falar demais e, principalmente, falar em lugares, quando estamos na elaboração de um plantel, é dar direito à especulação. Todos os dias vejo nos jornais – e é normal, vocês têm que dar notícias – cinco, seis, sete defesas-centrais. Se os fôssemos buscar todos, queria dizer que os que lá estão não ficavam. Eu tenho confiança no Beto, no Quiroga e no Hugo que vão ser jogadores do Sporting na próxima época. Uma coisa quero que fique clara: todos aqueles que vão continuar no Sporting, têm todos a minha confiança e conto com eles a duzentos por cento. Não é a cem, é a duzentos! Agora, é óbvio que vamos equilibrar a equipa...

– Valorizar a equipa também é valorizar quem lá está e fica...

– Há duas questões importantes: uma é o equilibrio estrutural do plantel. Vão sair jogadores outros terão que entrar. E nesse esquema vamos equilibrá-lo. E não é preciso ser-se muito entendido para saber onde há que equilibrá-lo. Mas eu deixo-vos a oportunidade de brilhar e dar a vossa opinião. Vocês sabem que o plantel do Sporting tem alguns desequilíbrios...

– Falta um lateral direito... o Contreras vai sair...

– O Contreras, o João Paulo, Marcos Paulo e Kutuzov. O que acho é que vocês têm de pensar, essencialmente, para os lugares em que o Sporting se calhar, não tem ninguém, ou onde irá ter algumas dificuldades.

– Só tem um lateral-direito...

– Vamos ver . Depende. O projecto do Sporting é de rigor e vamos procurar ter uma equipa melhor. Os jogadores que estão no plantel são o factor importante e decisivo do Sporting novo que quero construir. Juntar-se-ão outros, sem perder de vista o equilibrio financeiro, sem entrar em loucuras. Isso não é, definitivamente, possível. Nesse sentido, se calhar não vamos contratar sete ou oito. Nalguns lugares iremos ver o que vamos fazer.

– Qual o número ideal do plantel? Vinte e cinco jogadores?

– Não, não vamos ter, de certeza, esse número. Vinte e três ou vinte e quatro, sendo dois deles guarda-redes. Aquilo que espero do futebol do Sporting, que é uma aposta minha e da SAD, é a de potenciarmos, claramente, a equipa B. E, para mim, potenciá-la, é ficar sob a minha direcção. A formação vai chegar até aos juniores, inclusive, e a equipa B adstrita à A, sendo que na formação haverá uma forma evolutiva de maneira a que quando chegarem aos juniores, ao último escalão da formação, estejam a trabalhar muito perto da equipa principal, em termos de treino, de metodologia, de forma a sua integração ser natural e rápida.

– O responsável pela planificação da equipa B vai ser o Fernando Santos?

– Claro!

– Disciplina foi sempre um forte da sua personalidade. Não fugirá à regra...

– Não sou um ditador. Nunca fui e tenho um percurso que tem tudo menos a ver com ditaduras. Agora, sou um homem que acha que na vida há valores, no trabalho há valores, sou daqueles que acham que não devemos ter um emprego, devemos trabalhar! E democracia – da qual sou um intransigente defensor – sem hierarquias, sem um organigrama perfeitamente clarificado, não funciona. Seria uma anarquia. Agora, mandar com respeito pelos outros. Por outras palavras: procuro mandar tendo respeito por aqueles que dirijo e espero o mesmo dos outros. Mas isto só se consegue com diálogo. Mas esta parte ainda não tenho. Neste momento ainda não tenho o diálogo com os jogadores, a identificação com eles, levá-los a perceber aquilo que eu penso e eu entender o que eles pensam. Se eles acreditarem que as minhas ideias são boas para o futebol e para eles, de certeza que irão render mais!

– Gostava de poder contar com Quaresma e Ronaldo, dois jogadores que podem sair?

– O Sporting, como qualquer equipa, deve manter sempre jogadores com potencial. Agora há uma realidade que não podemos fugir dela: em nenhum clube do mundo é possível, no momento actual do mercado, dizer que este jogador vai ser vendido ou não. As coisas não estão tão fáceis como isso. Os três principais clubes portugueses estão a investir, ao mesmo tempo, num estádio novo, numa academia. São investimentos muito fortes e o dinheiro não anda a cair do céu. Por isso admito que seja possível que amanhã, se surgir alguém a dizer que quer contratar um jogador do Sporting, e que em termos económicos seja uma mais-valia para o clube, tenhamos que a aceitar. No pressuposto que se isso vier a acontecer encontraremos soluções para contrabalançar isso.

– Está a par da intenção da SAD em reduzir os salários dos jogadores?

– Essa é uma questão que tem de ser analisada entre a Direcção e os jogadores. Mas há uma coisa que quero sempre. E aí abdico pouco, porque sei que isso é fundamental. Quero o melhor para os meus jogadores. Se eles puderem ganhar o céu, que ganhem o céu. Espero, portanto, que não haja nenhuma insatisfação. Agora, há uma comunhão uma ligação entre a SAD do Sporting e os jogadores, e essa ainda não conheço. Ainda não tive a oportunidade de falar com o plantel. Se eu tivesse entrado três/quatro meses antes… – mas o Sporting tinha um treinador que respeito muito, que foi campeão, ganhou a Taça, a Supertaça, temos de respeitar isso, para além da pessoa em si.

– Vai falar com Bölöni?

– Se me cruzar com ele, naturalmente. Cumprimentá-lo-ei. Mas sobre o Sporting, não.

– Há alguma razão para isso?

– Nenhuma. A pior coisa que há é irmos perguntar muita coisa a muita gente. Tenho as minhas próprias ideias, tenho as informações de que necessito vindas de dentro do próprio clube e ainda outros meios de análise da equipa, para além de conhecer a maior parte dos jogadores do plantel. Se o senhor Bölöni não aproveitar as férias e preferir passá-las na Academia, que é também um bom lugar, cumprimento-o, se ele me cumprimentar.

– Está ansioso para falar com o plantel?

– Estou, estou muito ansioso. Se eu pudesse chamava os jogadores todos e falava com eles já hoje.

– Caldwell, Gamarra, Nikolaidis. Que há de concreto com estes jogadores?

– Não há nenhuma contratação feita pelo Sporting, neste momento.

– Confirma que já viu Caldwell em vídeos?

– Já vi tantos vídeos… Tenho uma certa dificuldade porque não sou um aprecidador de vídeos. Hoje em dia há outras fontes de informação.

– Mas conhece o jogador?

– Vi alguns jogos do Newcastle. Mas dava muito mais atenção ao Hugo Viana…

– E Gamarra e Nikolaidis?

– Estão ao nível dos melhores jogadores que treinei. Conheço bem o carácter deles.

– Marcos Paulo e João Paulo vão sair. Para a posição de trinco só tem Rui Bento e Paulo Bento, jogadores na casa dos trinta anos. Vai ser preciso reforçar este sector?

– Não se pode ver as coisas por idade, mas sim pelo valor, capacidade, qualidade e motivação. Acredito que todos os jogadores estão motivados. O Aloíso, por exemplo, jogou até aos 38 anos sem qualquer problema.Hoje o treino é diferente, é mais personalizado.

– Numa entrevista antiga, confessou que gostava de treinar jogadores experientes. Mantém a mesma opinião?

– Esses jogadores trazem a estabilidade ao próprio grupo. E eles próprios têm uma estabilidade emocional diferente, convivem melhor com a euforia da vitória e com o desastre da derrota, ultrapassam mais depressa estas questões. Mas também gosto de treinar e apostar em jovens que estejam a ser lançados, que tem uma característica importante para qualquer equipa: a irreverência.

– O Sporting viveu muitas contrariedade esta época. Ele foi a lesão de Niculae, Sá Pinto, Beto, o castigo de João Pinto. É uma m ais valia poder contar com todos eles em pleno n pré-época...

– Para qualquer treinador é sempre bom ter uma grande dor de cabeça. Mas temos de ter o engenho e a arte necessárias para não dizer que acabou a época.Perdermos dois ou três jogadores e dizer que já não temos hipótese de lutar por nada, é o tipo de discurso que não aceito.

«Também acredito que vou ser campeão»

– Não sente a pressão de tomar conta de uma equipa que há dois anos ganhou o campeonato, a Taça e a Supertaça?

– Pressão é ir treinar uma equipa que ganha quatro anos seguidos e, no seguinte, entra ou não na história do futebol . Vivi essa situação quando assumi ir treinar o FC Porto e não tremi. Se não senti a pressão nessa altura, se não tive medo...

– José Mourinho já avisou que se algum treinador proclamar que vai ser campeão, ele dirá que não será….

– E acho muito bem que diga isso. Tem todo o direito. Está a dizer aquilo em que acredita. Eu digo o mesmo: quero ser campeão! Tenho esse direito porque também acredito que vou ganhar o campeonato. O interessante de tudo isto é que pelo menos três treinadores dirão e acreditarão no mesmo...

«A Academia impressionou-me»

– A Academia impressionou-me. Conseguiu ultrapassar tudo aquilo que esperava. Vinha de um clube [Panathinaikos] que possuía muito boas condições de trabalho, mas aquilo que vim encontrar no Sporting é superior. Do melhor que há na Europa.

- E o novo estádio?

– É magnifíco. Em termos de concepção faz-me lembrar o Arena. 6 de Agosto será um dia de grande orgulho para mim. Pelas condições de trabalho já ganhámos, mas obviamente isso não chega para sermos primeiros.

«A porta está sempre aberta»

– Para já e face à aparente indefinição da situação de Jardel, falta, objectivamente, um ponta-de-lança que garanta os golos com que se conquistam pontos...

– Hoje em dia vão sendo poucos os casos em que um único jogador resolve os problemas de concretização de uma equipa. O FC Porto foi campeão e quantos golos marcou o Hélder Postiga? No entanto, a equipa não deixou de marcar setenta e tal golos. A questão é simples: ou se tem vários jogadores que podem aproveitar as ocasiões que surgirem ou se tem apenas um que, em condições normais, marca quase sempre. Como foi o caso do Jardel na época de 2001/02.

– Conta com Jardel?

– Neste momento, Jardel é jogador do Sporting. Com excepção dos quatro jogadores que estavam emprestados [Kutuzov, Contreras, Marcos Paulo e João Paulo] e que vão regressar aos seus clubes, todos os outros fazem parte do plantel e, claro, conto com eles.

– Se Jardel ficar, não receia que persista a instabilidade no balneário?

– Não temo nada. Todos os jogadores que venham a fazer parte do plantel do Sporting, na próxima época, vão saber, à partida, as directrizes do clube, nessa matéria. Algumas já conhecem – as da SAD – e, quando regressarem, vão conhecer as do treinador. Quem quiser adaptar-se à “nova ordem”, tem a porta aberta e uma possibilidade muito forte para lutar pela titularidade. Agora, quem não quiser ou não conseguir adaptar-se, seguramante que terá a porta aberta para arranjar outro clube. O Jardel, para mim, que o conheço há muito tempo, é um jogador que, repito, neste momento, faz parte do plantel. Porém, não posso dizer, aqui e agora, sob pena de poder ser mentiroso, se fica ou se poderá sair.

– No livro de Jardel publicado no final do ano passado, é referido pelo jogador que “Fernando Santos é um excelente treinador mas ainda seria ainda melhor se a sua capacidade de diálogo com os jogadores fosse melhor. Acha que neste tempo que passou e que aproveitou, como disse, para uma auto-análise profunda, se apercebeu da necessidade de uma forma diferente de diálogar?

– Não é um problema de diálogo, seguramente. Tenho a certeza absoluta que todos os jogadores com que trabalhei sabem que podem contar comigo. Reconheço que não sou capaz de enganar e isso leva-me a pôr uma cara…

– De homem sério e que nunca se ri….

– [sorri] Mas eu gosto muito de rir. Adoro rir. Agora, estamos a falar em situações de trabalho, em relações de trabalho e, embora aceite, claramente, que mesmo nessas há sempre ocasiões para tudo, para estar sério e para rir, reconheço que nesse particular, não costumo rir e, pelo que dizem, tenho uma cara sisuda! Mas, desculpe, rir só por rir, não me parece boa solução. Respeito muito os grandes humoristas que temos, que fazem rir muita gente - até a mim - mas essa é a sua função, esse é o seu ttrabalho. O meu não entra por essa área.

Não vou deixar de ser quem sou só porque dizem que sou má cara”, mas admito, sem nenhuma espécie de reservas, que possa – ou tenha – de mudar algumas coisas nesse aspecto. Mal de nós quando pensamos que sabemos fazer tudo bem – e há algumas coisas que eu não faço bem, reconhecidamente – e não aceitamos mudar nada. É um convencimento pouco inteligente . Como ser humano erro mas se reconhecer esse erro não vou persistir nele. Daí o lhe ter dito que, nestes seis meses, fiz muitas análises. Do bom e do mau. Mudar é um bom sintoma!

«Avaliar a equipa com adversários de 'peso'»

– Pontapé de saída da pré-época. Estágio em Alcochete. Só pelas margens do Tejo?

– O estágio será em Alcochete. Apresentamo-nos entre 4 e 5 de Julho para as habituais inspecções médicas. Podíamos começar a 1 de Julho, mas tínhamos muitos jogadores nas selecções e eu já tive uma experiência de que não gostei, que foi começar com uns jogadores e só depois vieram os outros. Por isso optei por fazer as inspecções primeiro e, depois, a 7 entra toda a gente em estágio. Os que fizeram as inspecções e os que estiveram ao serviço das respectivas selecções.

Depois faremos um pequeno estágio fora do País. Não é que não haja excelentes condições em Alcochete, mas é preciso cumprir o plano de tratamento dos relvados e não teremos campo para fazer uns jogos particulares que nos permitam avaliar a evolução da equipa, o assimilar dos novos métodos e de como a equipa está a conseguir transpor do treino para o jogo os nossos conceitos. E isso só se consegue com equipas de “peso”. Não me chega só o teste com o Manchester. Será um miniestágio mas fá-lo-emos fora de Portugal. Serão três jogos muito úteis, naturalmente para todos nós.

«Mandar no jogo em ataque planeado»

– Vai implementar o 4x3x3 no Sporting, sistema de eleição nas equipas treinadas por Fernando Santos, ou adaptar-se às características dos jogadores?

– Um treinador tem sempre um sistema que acha que é o melhor. O 4x3x3 é na realidade um bom sistema, aquele que julgo ser o mais indicado para uma equipa como a do Sporting, que joga sempre para vencer. A questão, no entanto, é esta: se fôssemos construir qualquer coisa de raiz, se tivesse de fazer um plantel novo, diria claramente: vamos jogar em 4x3x3, com um sistema alternativo, obviamente, porque hoje em dia é preciso ter mais do que um sistema. Mas as coisas neste momento no Sporting não estão nesse pé. Vamos, primeiro, terminar a concepção do plantel. Quando tivermos um desenho final, então se eu achar que essa é a solução certa, a de jogarmos em 4x3x3, tudo bem; se entender que essa é uma possibilidade, mas, olhando para o plantel final, verificar que só tenho um jogador para fazer uma determinada posição, obviamente que não posso arriscar, sob pena de esse jogador se lesionar ou ficar castigado e isso obrigar-me a mudar tudo outra vez. E isso eu não quero. Agora, o modelo de jogo, esse vai ser o mesmo que eu costumo utilizar nas equipas que treino.

– E qual será então o modelo de jogo do Sporting?

– Quero um Sporting mandão. Uma equipa que quer ganhar todas as partidas tem de mandar no jogo. Ora, se vai mandar tem de jogar em ataque planeado. Não pode actuar em contra-ataque. Em contra-ataque jogam as equipas que na realidade dizem que quem manda no jogo são os adversários, que dizem ‘eu vou tentar criar alguma coisa para responder ao poderio do adversário.’ Não quero isso para o Sporting. Quero uma equipa de ataque planeado e que vai procurar em termos defensivos jogar sempre o mais longe possível da sua baliza.

– Em pressão alta?

– Pressão alta é a transição de uma equipa para o ataque, é recuperar a bola no momento em que a perde. No fundo, é não deixar que o adversário jogue. No pontapé de baliza do adversário, por exemplo, ou na bola do guarda-redes, em vez de a equipa baixar para a linha de meio-campo e esperar que o adversário venha com a bola jogar, o que eu pretendo é que a minha equipa bloqueie o mais perto da área contrária.

A equipa do Sporting vai jogar assim, de certeza absoluta. Se vai conseguir fazer bem ou mal, isso é que vamos ver. Mas uma coisa garanto: vamos trabalhar muito esse aspecto nos treinos.

«Paragem deu para autocrítica»

– O regresso da Grécia coincidiu com a fase da escolha do novo seleccionador nacional. Um regresso a pensar nessa possibilidade ?

– Não. O que aconteceu foi que não estava no Panathinaikos como entendo se deva estar, de alma e coração. Por isso disse ao presidente que queria sair e a única coisa que me tinham de pagar era o devido até ao dia da saída. Nada mais. Aceitaram e colocaram-me a condição de não treinar na Grécia nesse ano. Normal. Regressei a Portugal. Mas não vim movido por esse objectivo embora qualquer treinador sinta orgulho em treinar a selecção do seu país. Não sou daqueles que dizem que não tinham orgulho nisso. Neste caso, encarei a situação do novo seleccionador com toda a naturalidade, dizendo sempre que o processo de escolha cabia à FPF.

Mais tarde vim a perceber que havia um colega meu que tinha um compromisso, pelo menos verbal, com a Selecção Nacional Fiquei um pouco constrangido porque não gostava de ter concorrido para que um amigo meu – que respeito muito como treinador e como pessoa – não fosse treinador da selecção nacional. Foi pena porque o Manuel José tinha todas as condições para ser o seleccionador nacional. Da mesma forma que Scolari tem.

– Cansou-se de estar fora dos relvados ?

– Não. As coisas acontecem porque têm que acontecer. Claro que não podemos ficar sentados à espera que tudo chegue... Estar parado já me tinha acontecido há uns anos atrás – na única vez em que fui despedido, no Estoril Praia, e isso sim, traumatizou-me um bocado – e aproveitei para parar três dias, fazer um retiro, colocar a nú toda a minha vida, analisar o que tinha feito e o que queria fazer daí para a frente. Mudou o rumo da minha vida. O encontro com Deus foi uma descoberta fantástica. Era um homem igual mas com um "antes" e um "depois" . Agora, este momento, também foi, de alguma maneira, marcante em termos de futebol , porque começamos a cimentar hábitos de trabalho e achamos que só aquilo é que é que está bem . Ora, esta paragem deu para fazer uma auto-análise que se vai reflectir no futuro rectificando coisas que não terei feito bem. Foi uma paragem útil, feita com serenidade, com autocrítica. O futebol não é só perceber de táctica, é um pouco como o professor que não basta saber muito da matéria e dá-la. Há que saber transmitir as coisas... Foram seis meses bem passados.

«Com Rosário e Velic nem preciso falar»

– Trazer Rosário e Velic foi ponto de honra?

– Rolão, Fidalgo Antunes e Silvano De Lucia podiam perfeitamente trabalhar comigo. Não é uma questão de competência técnica. O que expliquei à SAD é que este é um ano novo e que quando se muda deve-se mudar completamente. Se no primeiro dia de treino, em Alvalade, o Fernando Santos adoecer e não puder ir treinar, tenho a certeza do que vai sair no treino, ou no jogo. Se tenho pessoas da minha confiança a quem nem preciso falar para saberem o que eu quero, em todos os aspectos, julgo que isso é importante.

«João Aroso tem outras bases»

– Optei também por trazer um colaborador na área física [João Aroso], com outras bases. Não é melhor, mas pode fazer mais coisas. Conheci-o do ISMAI [Instituto Superior da Maia], num colóquio, esteve ligado ao dr. José Gomes Pereira, ao prof. Natal, a José Soares que foi colaborador comigo no FC Porto durante dois anos.

– Roger Spry chegou a ser hipótese?

– Não me parece que tenha sido falado. É um excelente profissional, tenho por ele a maior das estimas pessoais e profissionais, mas estamos agora num contexto diferente.

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