Alternate Text

Próximo jogo:

By:

Logo ESC Online

Sporting

Sporting

20:00

07 abril

Arsenal

Arsenal

Sporting Campeão: A grande entrevista de Augusto Inácio

Sporting Campeão: A grande entrevista de Augusto Inácio
Sporting Campeão: A grande entrevista de Augusto Inácio

- Sentimento e sentimentos...

- Sentimento de dever cumprido, satisfação dos adeptos do Sporting, valorização da carreira, alegria da família, felicidade de toda a administração, das pessoas que trabalharam comigo; sentimentos de orgulho, de satisfação e, entre aspas, de vaidade.

- Um início de caminhada que não fazia prever este "final feliz".

- Às vezes há inícios de caminhada que são bons e, depois, a felicidade final acaba por não chegar. Se o início desta "maratona" não teve a acompanhá-la a felicidade, a estrelinha, no fundo tudo isso acabou por surgir, por mérito, por trabalho, por entrega de tudo e de todos. E então, com toda a naturalidade, o final acabou por ser feliz.

Acima de tudo assumimos com pragmatismo o facto de ir fazendo as coisas jornada a jornada, Domingo a Domingo, jogo a jogo, com o objectivo, evidente, de fazermos a melhor classificação possível, mas sem dizermos que "vamos ser campeões". Se reparou, só depois de uma determinada altura é que fomos afirmando que "tínhamos possibilidade de lutar para o título". A partir daí começou a ser um objectivo, embora, repito, no princípio o importante fosse tentar fazer o melhor, ultrapassar os obstáculos à medida que estes iam surgindo.

- A partir de que altura é que sentiu ser possível esse "salto"?

- Houve uma fase em que senti que estávamos com a "estrelinha", curiosamente o primeiro jogo da nova administração, frente ao Campomaiorense. Na primeira parte jogámos razoavelmente mas, na segunda o Campomaiorense falhou três ou quatro oportunidades de golo e, a sete minutos do fim, o Vidigal fez o golo. E eu disse: "a estrelinha mora aqui, vamos guardá-la porque nos pode trazer coisas boas e possamos vir a lutar pelo título. Depois, na Madeira - e após o FC Porto ter empatado em Faro - voltei a sentir que se ganhássemos esse jogo daríamos um passo gigante para chegarmos a campeões. Ganhámos e seguia-se o jogo com o Benfica, com uma particularidade importante: se vencêssemos, seríamos desde logo campeões mas, se perdêssemos, continuaríamos a depender apenas de nós. Foi essa a força que tivemos para atingirmos o título.

"TRABALHO"

Vai-se dizendo por aí, em jeito de reforçativo à vida deste campeão de hábitos e modos diferentes, que a "escola" de Augusto Inácio tem muito a ver com o êxito. Terá? Qual o segredo, então, da "escola"?

"Trabalho, muito trabalho, acima de tudo trabalho! Métodos diferentes? Não sei. Sei, sim, que fomos um grupo de trabalho onde imperou a disciplina e, por isso, estou muito orgulhoso de todos os jogadores. O Sporting era uma equipa que "via" cartões amarelos e duplos amarelos com muita facilidade, havia uma instabilidade profissional muito grande e depois do jogo em Alverca, em que o Pedro Barbosa é expulso, houve que definir regras, bem aceites pelo grupo, em que os jogadores se responsabilizavam pelos seus comportamentos, com mais consciência e profissionalismo, mas tudo falado com frontalidade, no balneário, em linguagem claramente entendível. Felizmente acabou o campeonato e não tivemos mais nenhuma expulsão. Quero dizer com isto que a equipa cresceu em termos disciplinares como, aos poucos e poucos, foi crescendo, em termos competitivos. Não escondo que, em minha opinião, o Sporting era uma equipa pouco competitiva!"

- Gerir o plantel, unir o balneário, foi a condição "sine qua non" para atingir a plataforma do êxito?

- Não tenho duvidas nenhumas disso. Uma das coisas que aprendi foi que se o balneário não for forte, se os jogadores não forem amigos uns dos outros independentemente de jogarem ou não, está encontrado o meio caminho para o insucesso. Logo, havia que unir o grupo, que gerar correntes de amizade, de ideal comum para encontrar a via do sucesso. Unidas essas vontades, essas forças, mesmo tendo em conta os doze idiomas que se falam naquela cabina, em trinta jogadores, foi bonito de ver, em Vidal Pinheiro, os que jogaram e não jogaram, os que treinaram no Domingo de manhã e foram de seguida para o Porto assistir ao jogo, comungar a vitória num grupo coeso, unido. Isto traduz, fielmente, aquilo que foi o balneário do Sporting durante esta época!

- Renasceu a mística?

- A mística só se consegue tê-la quando se ganha. E uma das coisas que achei que o Sporting tinha é que ganhava três ou quatro jogos e pensava que já tinha ganho o campeonato. Acho que o Sporting deve ter e reforçar a consciência do que representa ganhar e nunca apadrinhar ou cultivar o estilo de "se perder ou empatar não faz mal a ninguém". Essa mentalidade nunca poderá existir numa equipa que quer ir longe, como é o nosso caso. Hoje, já se nota que um empate é algo que não é bem aceite naquela cabina e, uma derrota, então, faz-se um silêncio sepulcral.

No entanto, esta vitória no campeonato não quer dizer que esteja tudo bem. As vitórias, muitas vezes, atrofiam as ideias e julgo que o Sporting terá de crescer ainda muito mais, terá de ser muito mais forte em todos os níveis, em todos os sectores, se quiser lutar sempre pelo primeiro lugar.

"NÃO FUI CÉPTICO COM OS REFORÇOS"

Os reforços de Dezembro, acabaram por trazer mais-valias que se revelariam importantes no "sprint" final do campeonato. Mas Augusto Inácio, inicialmente, pareceu não estar em sintonia com essas vindas.

Sim ou não?

"Não é verdade! Nunca fiquei céptico. No entanto, a grande aquisição que o Sporting fez, independentemente de qualquer jogador que fosse contratado - e não o digo para ser simpático já que quem me conhece sabe muito bem que sou uma pessoa frontal - foi a vinda do dr. Luís Duque. É um homem de visão larga, de grande dinâmica, que soube construir uma excelente equipa à sua volta, a começar pelo Departamento de Futebol, com Manolo Vidal e José Manuel Torcato - excelentes. Da nova Administração tive sempre um grande apoio- desde o dr. Ribeiro Teles ao dr. Horta e Costa - sem deixar de citar a cooperação contínua do dr. José Roquete.

Julgo que o dr. Luís Duque teve artes de criar uma excelente equipa para que a equipa técnica pudesse, por sua vez, desenvolver o seu trabalho de forma tranquila, explanar as suas ideias, sem qualquer tipo de pressão. Isso, parecendo que não, deu ao grupo uma grande tranquilidade, uma perfeita comunhão de objectivos. Além disso, todos estiveram sempre junto dos jogadores nos bons e nos momentos menos bons - também não foram assim tantos -, qualquer problema era resolvido, a bem dizer, no imediato, porque estavam sempre juntos. O jogador gosta deste acompanhamento, deste carinho, e tudo isto foi dado por esta administração.

Já agora aproveito para deixar um agradecimento ao senhor Materazzi por tudo o que tem dito na Comunicação Social sobre o Sporting e sobre mim. Esta vitória, de certeza, que lhe agradou porque, apesar de ter cá estado pouco tempo, tem demonstrado que ficou com o Sporting no coração.

- Sabor de festejar o título no Porto?

- Aquilo que mais gostava era de ter festejado o título no jogo com o Benfica. Em nossa casa, ante toda aquela gente que nunca se cansou de nos apoiar e, depois, manteve a fé e a chama na conquista do campeonato. Olhe, aquilo que vinha dizendo durante tanto tempo, acabou por se concretizar: era o campeonato do sofrimento. Foi mesmo. Sofreu-se até à derradeira jornada.

- Que falhou no jogo com o Benfica? Foi a pressão?

- Falou-se tanto na pressão. Não houve pressão em Vidal Pinheiro? Disse-se que "os jogadores do Sporting não estavam habituados a lidar com a pressão" mas o que é certo é que, ao fim e ao cabo, soubemos lidar tanto com ela como qualquer rival. Simplesmente fomos mais felizes e ganhámos. Não, não se bata nessa tecla. Se sofrêssemos do "mal" de não saber lidar com a pressão, de certeza que não tínhamos ido ganhar o jogo com o Salgueiros, não teríamos feito a segunda parte que realizámos. Com o Benfica fizemos 25/30 minutos extraordinários, poderíamos ter marcado um golo e não marcámos e, depois, mais tranquilo e mais fresco o nosso adversário soube construir o resultado à custa de um sistema não habitual na equipa. Não vale a pena negar que o Benfica jogou de uma maneira completamente diferente da que costuma jogar mas que surtiu efeito. Tenho uma enorme simpatia pelo treinador do Benfica, um grande respeito por este clube, mas julgo que foi das equipas mais defensivas que encontrei em Alvalade. Porém, o resultado é que marca e enalteceu-se a vitória como "a vitória do outro mundo".

- Foi uma vitória importante.

- Como todas. Mas essa terá sido, em minha opinião, a vitória do brio profissional dos jogadores do Benfica já que nunca poderiam ser postos em causa da forma como alguns adeptos do Sporting o fizeram! Se fosse ao contrário, o treinador do Sporting também não gostava e, por isso, disse que alguns adeptos do Sporting faltaram ao respeito à dignidade profissional dos jogadores do Benfica. Óbvio que não gostei da vitória do Benfica mas entendi, compreendi, toda a festa dos seus jogadores. E acho que foi justa.

- E o seu discurso? A partir da determinada altura sentiu-se que o seu discurso apontava para "muitas cautelas". Um discurso de apaziguamento: "não ganhámos nada", "todos os jogos são finais".

- Um discurso realista, e não de apaziguamento ou de cautelas, também fui acusado, na conferência de Imprensa do jogo com o Benfica, que "estava a ser demasiado calculista". Mas eu sabia que se não ganhássemos o jogo com o Benfica e o FC Porto vencesse o Estrela da Amadora, aí é que punha o cutelo sobre as nossas cabeças, no jogo com o Salgueiros e isso poderia marcar a diferença. Olhe, como penso que a certa altura do encontro de Vidal Pinheiro, marcou. Simplesmente, não sei o que aconteceu, mas penso que o último lance do primeiro tempo em que o Acosta intervém, deu-lhes mais raiva, mexeu com o ego de cada um. Os jogadores sentiram, naquele momento, que houve uma certa injustiça e quando iam para o balneário todos eles falavam entre si, exaltados. Deixei passar uns momentos e disse-lhes: "Já falaram tudo? Agora ouçam: joguem tranquilos, como se estivessem a treinar e se levarem essa mentalidade lá para dentro, vamos ganhar o jogo. Se continuarem como fizeram entre os 10 e os 35 m, vamos perder o jogo."

Entenderam a mensagem e disseram "‘mister’, vamos para cima deles!" E pronto, depois de uma ligeira alteração táctica, o rendimento foi outro e a produtividade aliou-se à exibição.

"JOGADORES ESTAVAM RECEOSOS"

As cartas anónimas, a letrinha de criança do ensino básico, não davam credibilidade ao conteúdo. Segundo Augusto Inácio mostrou, chegaram a Alvalade. Como chegaram a outros sítios. Mas, uma ameaça sem ponto de crédito, sem valor para ser considerada ameaça.

Deu-lhe importância ou quis, simplesmente, responder a outras cenas semelhantes?

"É evidente que cada coisa tem o valor que tem, tem a importância que lhe quisermos der. Não duvido disso. No entanto, por muito ingénuas que fossem, ninguém tem duvidas que procuraram desestabilizar todo o grupo de trabalho, de lançar confusão, de toldar os espíritos exactamente numa altura em que estes tinham de estar o mais serenos possíveis. Sabia - e sei - que quem quer fazer não ameaça, não "avisa", não manda cartas; mas...não somos iguais, não temos todos as mesmas reacções e havia que dizer que não tínhamos medo, não nos deixaríamos abater por tais missivas. E o publico deveria ter conhecimento dessas "jogadas", sem credibilidade, é verdade, mas reais, que havia uma tentativa para que não estivéssemos concentrados para este jogo importante."

- E foi essa a maneira de demonstrar que o líder tinha força e não temia tais ameaças sem a tal credibilidade mínima?

- Não. A força do líder não se demonstra publicamente. Há outras maneiras de o fazer...

- De dizer que o líder não tinha medo dessas coisas...

- Acima de tudo para que os jogadores ficassem tranquilos e não pensassem mais nisso.

- Sentiu os jogadores preocupados?

- É evidente que, mesmo desvalorizando as coisas, mesmo acreditando que as ameaças não iriam ser tentadas, quanto mais materializadas, nem todos encaram a situação com o mesmo estado de espírito e, aí, é que teria de assentar a acção de quem comanda. Para dizer, claramente, que o grupo não ficaria afectado com tais leviandades...

- Um plantel à medida ou ainda curto para as necessidades?

- Para já foi um plantel que por várias razões e situações, a partir de Dezembro/Janeiro, foi alargado. Mas não se pode ter um plantel tão grande. Trinta jogadores é muito jogador embora tenhamos conseguido conciliar tudo isso. A vontade deles foi importante, o balneário também foi fundamental para não haver grandes desequilíbrios, porque há sempre descontentes, acaba-se uma temporada e há uns mais satisfeitos do que outros, há uns que reclamam - de certeza que irão aparecer alguns, nos jornais, a dizer que "o treinador podia ter-me dado mais oportunidades", vai ser assim e considero isso normal - que se julgam com razão.

- A mesma ideia hoje, face às exigências da Champions League?

- Julgo que o plantel ideal, mesmo tendo em conta as competições europeias, não deve ir além dos 26 jogadores. Se fosse para o campeonato "interno", não mais do que 24.

- E agora?

- Agora vamos almoçar.

- Daqui para a frente, responsabilidades acrescidas.

- A mesma sintonia, o mesmo estilo, a mesma atitude de vida e de trabalho. Amanhã (hoje) há treino às 09.30 horas e assim sucessivamente até ao fim de semana. Já sei o que vai acontecer a esta equipa: são almoços, festinhas, é isto e mais aquilo. Toda a gente vai ser assediada mas ninguém vai aceitar nada disso. Há uma Taça de Portugal que tem que ser ganha se pudermos ganhá-la, mas o importante é que teremos de estar preparados para a vencer. Se começarmos a desconcentrar-nos com espumantes e festas, vamos perdê-la, de certeza, por isso, reunir já as forças - principalmente a nível psicológico porque fisicamente estão todos bem - e preparar para as grandes dificuldades que um grande rival - o FC Porto - nos irá colocar.

"ANÚNCIOS NÃO É COMIGO!"

Sá Pinto - é público - pode ser já considerado o primeiro reforço deste plantel leonino para a época 2000-2001, muito embora os "muros de silêncio" não consintam que se obtenha a confirmação ou o desmentido. Um regresso muito desejado. Para Inácio também?

"Que eu saiba, não assinou nada por ninguém. E como em Portugal - em todo o mundo é assim - só conta o preto no branco, neste momento não temos nenhum reforço. Mas sempre lhe direi que, quando o tivermos, não será o treinador do Sporting a fazer o anúncio."

- Os pilares da glória, dentro do campo?

- Todos os jogadores. Todos. Os que jogam e não. Quem contribuiu decisivamente para sermos campeões, foi o balneário do Sporting. Esta é que é a grande verdade. E o balneário não é composto só pelos que jogam, também fazem parte dele os que não jogam. Só que, importa dizê-lo, estes também foram extremamente importantes. Jogadores que não estão convocados e que vão ao balneário dar o "grito de guerra" unidos à volta uns dos outros, é bem significativo e permite-me dizer que eles também mereceram este campeonato. Foram amigos dentro do balneário, dentro e fora do campo. E essa amizade traduz-se em muitos pontos.

- O Sporting mudou de filosofia. Nota-se, hoje, uma blindagem à volta do grupo de trabalho.

- Ainda não é. Há muita coisa, ainda, para trabalhar, a nível interno e externo. Mas isso tem de ser fruto de muitas reuniões, de muito diálogo para encontrarmos os melhores caminhos e as melhores estruturas para que o Sporting esteja sempre em pé de igualdade com todos os outros rivais, para podermos lutar pelo título, pelos títulos. Não podemos, a partir de agora, adormecer à sombra das conquistas. Teremos que nos preparar para o futuro e o futuro será sempre lutar pelas vitórias. Com uma obrigação: jogaremos sempre para ganhar e se tivermos de perder, que percamos sempre no derradeiro jogo. De resto, sempre, sempre na luta ombro a ombro.

- Com um André Cruz na arte da "bola parada".

- É verdade mas há uma curiosidade que merece divulgação: treinos de livres, todos os dias, pimba, pimba, chega aos jogos e não marca; na semana do FC Porto, não treinou livres e, no primeiro do jogo, marcou. A seguir, todos os dias a treinar esses lances e no jogo com o Benfica, marcou sete e não conseguiu um golo. Na semana passada disse-lhe: esta semana não há treino de livres. Em Vidal Pinheiro marcou dois golos. E já lhe disse: nunca mais marcas livres num treino.

- E a euforia?

- Uma loucura. Até por isso foi bonito este título. Esta gente merecia uma alegria deste tamanho. Mas, repito, atenção, a Taça está à porta e só temos uma atitude: tentar vencê-la.

SAIR CAMPEÃO E VOLTAR PARA SER CAMPEÃO!

Sair campeão e voltar... para ser campeão. Foi o que sucedeu a Inácio nas suas últimas "estadas" em Alvalade. Em 81/82 sagrou-se campeão, e agora, na altura do regresso, como treinador, quebrou o jejum de 18 anos. Mas quando é que o Inácio-treinador sentiu que podia chegar ao título?

- Houve uma fase em que senti que estávamos com a estrelinha. Foi no Sporting-Campomaiorense. A equipa adversária falhou bastante e nós chegámos ao golo perto do fim, pelo Vidigal. Comentei na altura que talvez pudéssemos lutar pelo título. Depois, quando o FC Porto empatou em Faro e nós ganhámos na Madeira, pensei que só faltavam os jogos com o Benfica e com o Salgueiros e que... mas, enfim, desde que chegámos ao 1º lugar sempre acreditei que o Sporting podia ser campeão. E a vitória na Madeira, é verdade, deu-nos muito mais força.

- Sair como campeão e voltar para ser campeão é algo que não sucede com todos nem todos os dias...

- Era um sonho meu, antigo, que se concretizou. Cheguei a confessá-lo, à minha mulher, mas só agora posso falar nele com inteira propriedade.

«PENSEI MUITO NA FELICIDADE DOS ADEPTOS»

"Não dormi". Foi assim, sem mais, que Inácio começou por comentar o modo como passou as últimas horas, ou seja, desde que soou o apito final de Coroado até à conversa que manteve ontem, com Record, no meio de uma tarde atarefadíssima, com compromissos uns atrás dos outros.

- O que é que lhe veio mais à memória, durante todo esse tempo em que não pregou olho?

- Por estranho que pareça lembrei-me do jogo com o Benfica. Os adeptos do Sporting mereciam que a festa tivesse acontecido nessa altura. Em vez da festa foi a tristeza. Mas no domingo, mal terminou a partida com o Salgueiros, o primeiro pensamento foi para o meu pai. E para a minha família, mulher, filhos, mãe e amigos, para os jogadores, antigos e actuais administradores da SAD, presidente, para todos os sportinguistas.

- Mas podia ter dormido três ou quatro horas...

- Durante esse tempo preferi pensar. E pensei muito na felicidade dos adeptos do Sporting.

- E no seu ego?

- Também, não o vou esconder. É bom para mim, para a minha carreira.

A CONFIANÇA DE ACOSTA E O SEGREDO DE SCHMEICHEL

Inácio não gosta por aí além de falar nos jogadores, ou melhor, nos méritos dos jogadores. Mas abriu uma ou outra excepção.

- Como é que foi possível recuperar Acosta de modo tão eficaz?

- No meu primeiro jogo, contra o Viking, após dois dias de treino, lancei o Acosta a vinte minutos do final. Depois, disse-lhe: 'Prepara-te, porque vais ser titular domingo, contra o Boavista. Tiveste uma grande atitude em 20' e gostei'. O Acosta sorriu de orelha a orelha e foi assim que ganhei a sua confiança. Sem mais.

- É difícil trabalhar com o Schmeichel?

- É facílimo lidar com ele. Depois do Europeu, ou quando ele entender, direi algo mais, revelarei um segredo. Agora ainda não posso explicar tudo. Mas ele é um grande leão, humilde, brincalhão e bom colega.

«O BENFICA É UM GRANDE ADORMECIDO»

O Sporting deixou para trás, nesta edição 99/2000 do campeonato, o pentacampeão FC Porto e o Benfica. A análise do técnico leonino é de grande respeito.

- Temos de ser justos. O FC Porto é um grande clube, uma enorme instituição. O Sporting teve a vantagem de não passar pelo desgaste sofrido pelos portistas, que rubricaram uma excelente prova na Liga dos Campeões, e aproveitou para somar pontos, beneficiando dos deslizes do FC Porto. Mas isto não quer dizer que a turma das Antas é frágil. Para a próxima época vai continuar muito forte.

- O Benfica ficou muito cedo fora da corrida...

- O melhor para o Sporting seria os dois terem ficado afastados logo de início. Mas em termos competitivos foi um campeonato formidável e só gostava de ver, também, o Boavista e o V. Guimarães envolvidos nesta disputa.

- Também é dos que pensa que o Benfica pode, doravante, passar um mau bocado?

- Gostava que o Benfica estivesse 18 anos sem ganhar, como sucedeu ao Sporting, mas acho que não vai ser assim. O Benfica é um gigante adormecido e pode fazer estragos a qualquer momento. Quando engrenar vai ser complicado para todos.

«TEMOS DE SER MAIS MALANDROS»

Em Alvalade viveram-se duas semanas de intensa ansiedade. O título estava ali, mesmo à mão, mas para lá chegar... Inácio explica:

- O mais difícil foi antes do jogo com o Benfica. Achei os jogadores confiantes e a euforia dos adeptos feriu o orgulho dos elementos do Benfica. Perdemos e senti as pessoas mais comedidas, a levantar a questão: 'E se não ganharmos ao Salgueiros?'.

- Os seus jogadores reagiram do mesmo modo?

- A semana de trabalho correu extraordinariamente bem e senti os jogadores com motivação e alegria. No treino de sábado passado foi fantástico e a certa altura gritei 'pára!' e disse aos jogadores: 'Se jogarem assim com o Salgueiros vamos ganhar.' Creio que foi um dos melhores treinos de sempre.

- Para além do trabalho de campo houve outras preocupações, inclusive um certo receio de algumas manobras...

- O Sporting não está habituado a ganhar e penso que somos inocentes de mais. Acho que temos de aprender mais coisas. Temos de ser mais vivos, mais espertos e, desculpem a expressão, mais malandros.

O TRUQUE DOS LIVRES DE ANDRÉ CRUZ

Os livres de André Cruz ficam para a história. Perante o FC Porto e depois com o Salgueiros a perícia do brasileiro ficou bem patente. Até então amontoavam-se algumas críticas, do tipo "este nunca mais marca um golo de livre". A propósito do tema, Augusto Inácio desvenda o truque:

"O André Cruz prepara os livres durante a semana e nos treinos marca com grande frequência. Na semana antes do jogo com o FC Porto resolvemos interromper esse treino específico e foi o que se viu - marcou golo. Depois, nas vésperas de recebermos o Benfica, intensificou-se esse tipo de preparação e no jogo... nada. Então, decidi não treinar mais livres na semana passada. O certo é que o André chegou a Vidal Pinheiro e marcou por duas vezes".

HÉLIO NASCIMENTO e COSTA SANTOS

Deixe o seu comentário
Newsletters RecordReceba gratuitamente no seu email a Newsletter Sporting ver exemplo
Ultimas de Sporting Notícias
Notícias Mais Vistas