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João Pinto e Paulinho Santos: a história de um clássico com bolinha

Relembre a maior de todas as rivalidades entre uma águia e um dragão

• Foto: Simão Filho

Benfica-FC Porto: 235 confrontos de eterno despique, nervos à flor da pele, emoções ao rubro, rivalidades-mil, nenhuma como esta. A história que une – e separa e volta a unir – João Vieira Pinto e Paulinho Santos não tem par. Dentes partidos, narizes quebrados, olhos negros. Um ódio-fetiche, violento, irracional. Um clássico dentro do clássico. Com bolinha.


Amor à primeira vista
João Vieira Pinto e Paulinho Santos já se tinham defrontado três vezes, com trocas de mimos pelo meio, mas nada que se pareça com o que aconteceu a 24 de agosto de 1994. Aí, o caldo entorna de vez. Benfica e FC Porto empatam na Luz, na 1.ª mão da Supertaça.

O que falta em golos, sobra em expulsões. Cinco-vermelhos-cinco, o último para João Pinto, que espera pelo minuto 89 para retribuir um carinho de Paulinho. De nariz partido pelo próprio portista, responde na mesma moeda: isso mesmo, parte-lhe o nariz (!).

João Pinto é operado, dias depois, a uma fratura do nariz com desvio do cepto nasal. O Benfica lamenta "umas porradas valentes de Paulinho Santos" no ‘Menino d'ouro’ e ainda uma ferida na tíbia, ou melhor, um "autêntico buraco na perna do Tavares", provocado por "uma pancada que furou a caneleira de carbono" do médio, segundo comunicaram as águias.

O FC Porto não faz por menos: "André, José Carlos e Kostadinov saíram do jogo com traumatismos violentos", acusam os dragões, sustentados no fair-play de Bobby Robson. "João Pinto? É fantástico! Sacou sete cartões nos últimos jogos e por isso é que tem de ser bem marcado durante o jogo… Mas o que ele fez não se faz! O Paulinho tem o nariz fracturado e dois dentes partidos!", denuncia o lendário inglês.

"Não sou maluquinho!"
Marcado pela agressão de Paulinho Santos, João Vieira Pinto não contém a fúria. Explica-se aos jornalistas, pede desculpa pelo seu comportamento, mas lembra que quem não se sente não é filho de boa gente...

"As pessoas viram o que se passou… Eu não sou maluquinho para dar uma cotovelada em alguém sem mais nem menos! O fiscal viu a agressão do Paulinho, minutos antes, e nada assinalou. Pior: antes disso, já eu tinha sido alvo de duas agressões. Os ânimos exaltaram-se; alguém tinha de ‘explodir’… Lamento, estou arrependido, mas já não posso voltar atrás", argumentou o então avançado do Benfica, de 'olho à Belenenses', nariz partido… e cotovelo a ferver. 



‘Bom dia colega’… de quarto
A rivalidade extravasa as quatro linhas e ameaça a estabilidade no seio da Seleção. António Oliveira não faz por menos e toma uma decisão… bizarra, mas eficaz.

A 6 de outubro de 1994, em plena qualificação para o Euro’2006, convoca os dois jogadores e… junta-os no mesmo quarto.

Paulinho Santos aceita com bonomia, os colegas gozam o prato e João Pinto vai aos arames perante o que entende como uma falta de respeito.

António Oliveira não recua. Pior: ameaça o benfiquista. Ou aceita ou é dispensado. É 'pegar ou largar'. João Pinto acata a ordem e Paulinho hasteia a bandeira branca. Por pouco tempo... 


Tudo para a rua!
Passam-se nove clássicos e os episódios pelo meio não passam de mimos quando comparados com o que aí vinha… A 3 de janeiro de 1998, a rivalidade atinge proporções surreais com contornos… anedóticos. O FC Porto bate o Benfica com dois golos de Artur, na 15.ª jornada de 1997/98. Há mosquitos por cordas, um desaguisado de todo tamanho. Paulinho Santos e João Vieira Pinto no olho do furacão, pois então.

Os dragões ganham 1-0. Nuno Gomes vai à linha cruzar, Rui Correia amarra a bola, João Pinto agarra-se à cara, Paulinho encolhe os ombros. Ali há gato… O capitão do Benfica queixa-se de uma cotovelada, mas ninguém lhe dá razão. Siga. Minutos depois, vendo António Costa envolto num molho de jogadores, JVP apanha o rival distraído e prega-lhe uma chapada.

Os portistas agitam-se, o árbitro apercebe-se da confusão, mas não vai além da repreensão. Costa vira as costas e Paulinho não espera dois segundos para aplicar nova cotovelada no rival. Quando este lhe responde com um pontapé, já vai com o maxilar pendurado… Vermelho! Pela primeira e única (!) vez em 21 jogos entre si, vão os dois para a rua.

"Alguém viu?!"
No final desse clássico, Paulinho diz-se vítima de uma campanha. "Alguém viu? Mostrem as imagens, carago! Mostrem!" O médio do FC Porto, tinha razão: não era possível vislumbrar qualquer agressão sua através da transmissão da RTP.

Esqueceu-se foi que a televisão estatal já não era a única presente nos grandes jogos… Paulinho foi ‘tramado’ pela TVI, que apanhara todo o filme. Aliás, à hora a que este desafiava tudo e todos a mostrarem imagens, já estas entravam casa adentro dos portugueses pela janelinha do cantinho direito das televisões, comprovando a agressão que protagonizara.

A federação visa Paulinho com base nestas imagens. O castigo é tão exemplar quanto inédito: suspensão total de todas as provas internas enquanto o colega de profissão não estivesse apto a competir. Contas feitas, três meses fora para cada um.


O intruso argentino
Passam-se mais dois clássicos entre águias e dragões até que João Pinto vira leão. Jogam quatro vezes entre si desde então, sem registo de incidentes… entre ambos. Nesses tempos, já Paulinho elegera novo ódio de estimação: Beto Acosta. Ficam célebres dois confrontos entre ambos.

No Jamor, na final de 2000, Paulinho agride Acosta, que responde segundos depois, com uma cotovelada discreta mas ruinosa para o portista, que acaba no hospital com o maxilar perfurado e o Euro’2000 arruinado.

Meses depois, no primeiro confronto entre João Pinto e Paulhinho num Sporting-FC Porto, o portista é expulso por agredir… Acosta. Estava servida a vingança, num golpe de karaté que não apanhou o árbitro José Pratas por centímetros…

‘Adeus… amigo!’
As feridas vão sarando, o ódio desvanece, a amizade surge. Em junho de 2003, as Antas vestem de gala para saudar José Mourinho e a conquista do campeonato, três épocas depois do último.

O jogo não começa sem um tributo a Paulinho. O guerreiro das Caxinas pendura as botas e só não faz ali o último jogo por culpa de uma lesão contraída uma semana antes.

Antes do apito inicial, o momento por que ninguém esperava. João Pinto, que faria dupla atacante com Cristiano Ronaldo na consagração do FC Porto, é chamado ao centro do relvado. "Venham de lá esses ossos". Desta vez... sem os partir. Até então arqui-inimigos, João Vieira Pinto e Paulinho Santos trocam camisolas e selam as pazes com um abraço daqueles. 


Por António Adão Farias
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