Mundial'1966: A obra-prima dos Magriços

Há 50 anos, Portugal bateu a Coreia do Norte (5-3). Aos 23 minutos, perdia por 0-3

• Foto: Vítor Chi

Em novembro último, quando entraram em Goodison Park, em visita integrada numa reportagem de Record que comemorou o meio século da epopeia do Mundial de 1966, José Augusto, António Simões, Hilário da Conceição e Vicente Lucas não conseguiram esconder a emoção. O novelo de algumas das mais belas memórias de cada um foi desfiado aos poucos: lá estava a baliza onde Eusébio começou a reviravolta frente à Coreia do Norte, a mesma onde o pequeno Simões marcou de cabeça ao gigante Manga, então guarda-redes brasileiro; lá estava a outra, onde o mesmo Eusébio assinou um golo sensacional ao Brasil e José Augusto selou a vitória sobre os coreanos com um golpe de cabeça à boca da baliza, que havia de repetir vezes sem conta 50 anos depois, para surpresa de quem o viu aos saltos sem aparente sentido; e lá estava todo um relvado onde Vicente meteu rei Pelé no bolso sem lhe tocar e Hilário confirmou o talento e o momento de forma que haviam de coroá-lo melhor defesa-esquerdo do Mundial.

Só vitórias

Foi a 23 de julho de 1966 que Portugal fez um dos mais extraordinários jogos da sua história, transformada na verdadeira obra-prima dos Magriços. Para trás ficara uma fase de grupos sem falhas, na qual bateram Hungria (potência nos anos 60, em embate no qual os deuses da fortuna bafejaram as cores nacionais), por 3-1; Bulgária (o único duelo sem discussão), por 3-0; e Brasil (bicampeão mundial na altura), por 3-1. Para os jogadores portugueses a embalagem foi suficientemente expressiva para não darem hipóteses a seguir. Depois de dois jogos em Old Trafford, os Magriços assentaram arraiais em Liverpool. O que fizeram frente ao Brasil e, quatro dias depois, à Coreia do Norte, transformaram o recinto do Everton num dos palcos mais importantes de sempre do futebol nacional. Os 4 golos de Eusébio transformaram-no num mito eterno para os adeptos ingleses, consolidando a ideia de que iria ocupar o trono de rei do futebol, então pertença de Pelé.

Cabina de Goodison Park

António Simões foi o primeiro a entrar na atual cabina dos visitantes de Goodison Park. Havia alguma curiosidade para perceber até que ponto o santuário onde a equipa portuguesa preparou a grande batalha estava reconhecível. O antigo extremo-esquerdo chegou e deu a sentença ao cabo de poucos segundos: "Este foi o balneário onde nos equipámos. Falta só uma grande banheira que estava aqui no meio." Os responsáveis do Everton, que vinham atrás, não escutaram as palavras mas repetiram a diferença fundamental. O espaço serviu para recordar um dos momentos mais eloquentes do momento que havia de tornar-se eterno: a palestra de Otto Glória ao intervalo.

A eloquência de Otto

Todos reconhecem as palavras, os gestos, a fúria e a convicção traduzidas no retrato feito por Simões e José Augusto. O selecionador entrou, tirou a gravata, desabotoou a camisa e deu início a um dos discursos mais marcantes da vida de quem o ouviu. Eusébio ia para dizer alguma coisa mas Otto mandou-o calar. "Agora é a minha vez", disse o treinador, antes de dar início a um discurso inflamado, veemente e descontrolado em determinados instantes. "Chegou a insultar os jogadores", enquadra Hilário, perante a concordância de Vicente, que viveu naquelas horas raras e extraordinárias manifestações de reconhecimento, respeito e admiração.

Minutos volvidos, criado o clima de altíssima tensão entre os jogadores, Otto virou costas, abotoou a camisa e pegou no casaco. Com a convicção de quem sentia que o jogo estava ganho, limitou-se a fazer voz grossa e a soltar a derradeira sentença da tarde: "Agora vão lá para dentro e ganhem a merda de jogo." Prova de que estavam em sintonia, Portugal acabaria por transformar o 2-3 ao intervalo no 5-3 final. E assim foi. Faz hoje 50 anos.

Por Rui Dias
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