Roberto Martínez: «Mundial'2026? Deixem-nos sonhar.... Por que não?»

Selecionador nacional concedeu uma entrevista ao 'The Guardian' onde falou sobre quase tudo: o talento em Portugal, Cristiano Ronaldo e, claro está, o Campeonato do Mundo que se avizinha

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Roberto Martínez, selecionador de Portugal
Roberto Martínez, selecionador de Portugal • Foto: FPF

Portugal prepara-se para disputar o primeiro de dois particulares nesta pausa FIFA de modo a preparar o Campeonato do Mundo que se disputará no verão. Roberto Martínez, , na reabertura do mítico Estádio Azteca, concedeu hoje uma longa entrevista ao 'The Guardian'.

O selecionador nacional abordou vários temas: a primeira convocatória ao serviço da seleção belga, a juventude que existe no núcleo da Seleção Nacional portuguesa, o "ídolo" de vários jogadores Cristiano Ronaldo e ainda o Mundial de futebol que se avizinha, sobre o qual se 'atreve' a sonhar. "Por que não?", questiona.

"Portugal é uma escola de futebol. Dez milhões de pessoas e, no entanto, preenchem os melhores balneários do mundo. É também um país de navegação. Prontos para partir, aprender línguas: abertos, virados para a Europa. Há uma vontade de sair para completar o seu desenvolvimento, o que os ajuda a ser ultra-competitivos mas respeitadores, enquanto a estrutura permite que, dos 15 aos 23 anos, haja oito jogadores por posição a seguir a mesma metodologia de elite. Pedro Neto, Vitinha, João Neves e Renato Veiga chegaram todos ao onze desde que chegámos: esse nível de desenvolvimento é exemplar", começou por elogiar Roberto Martínez, que se estreou na liderança dos 'AA' de Portugal a 23 de março de 2023, com uma goleada sobre o Liechtenstein por 4-0.

A diferença entre a primeira convocatória ao serviço da Bélgica e o que fez de diferente quando assumiu Portugal

"Quando anunciei a minha primeira convocatória na Bélgica, tive uma sensação muito, muito estranha de estar a ler muitos nomes de jogadores que não conhecia; por isso, quando cheguei a Portugal, fui visitar todos: 32 jogadores. Perguntei por que razão estavam na Seleção Nacional. Como chegamos ao futebol? Quem são os nossos heróis? O meu foi o meu pai, seguindo os Mundiais de 78 e 82. Há sempre alguma figura ali que explica por que gostam de chutar uma bola. Perguntei quem eram os ídolos deles", disse, assumindo que muitos dos jogadores não hesitaram ao responder 'Cristiano Ronaldo'. "É tão, tão especial, único, ter um jogador que deu 21 anos à Seleção Nacional", refere Roberto Martínez, prosseguindo com um exemplo claro da longevidade do capitão: "Carlos Forbs nasceu em 2004, quando Cristiano Ronaldo já estava na Seleção. Quando os jogadores que cresceram a vê-lo observam o que ele dá todos os dias, eles seguem-no."

Carlos Forbs nasceu em 2004, quando Cristiano Ronaldo já estava na Seleção. Quando os jogadores que cresceram a vê-lo observam o que ele dá todos os dias, eles seguem-no
Roberto Martínez

Selecionador de Portugal

Cristiano Ronaldo é tema de conversa... até no elevador

A vontade de Cristiano Ronaldo em querer estar sempre ao serviço da Seleção Nacional foi o que mais impressionou Roberto Martínez na primeira conversa que teve com o capitão de Portugal. "Quando o visitei, quis saber como ele se sentia. Jogadores com mais de 30 anos começam a pensar que talvez a pausa internacional seja um momento para respirar, regenerar. Mas a atitude do Cristiano Ronaldo é sempre: 'Estou aqui para a Seleção, para o que for preciso'", recordou, intrometendo-se no "debate": "Temos de aceitar que existe um debate porque só há um Ronaldo, um ícone histórico que mudou o futebol. Se entramos num elevador, a conversa é sobre o tempo ou sobre o Ronaldo. Todos têm uma opinião, mas baseia-se numa perceção do Ronaldo, num período dele. O maior erro que as pessoas cometem é não analisar o Ronaldo de hoje. Depois do Europeu foi: 'Portugal não ganhou porque o Cristiano está a jogar'. Ganhamos a Liga das Nações e é: 'O que fará Portugal quando o Ronaldo se reformar?'"

E continuou: "Sempre achei que é o corpo que reforma um jogador, mas é a cabeça. A cabeça do Cristiano não tomou essa decisão aos 40, 41 anos. Um jogador de elite não é o talento, é a mentalidade, a resiliência. Ele não é o extremo do Manchester United ou do Real Madrid; é um camisola 9, um jogador de área. Dependemos dele para abrir espaços, marcar golos. Os últimos três anos do Cristiano na Seleção foram conquistados dia após dia: marcou 25 golos em 30 jogos. Eu avalio talento, experiência e a atitude. As decisões nunca são tomadas num escritório, são tomadas no campo. O futebol toma-as por mim."

Cristiano Ronaldo? Dependemos dele para abrir espaços, marcar golos. Os últimos três anos do Cristiano Ronaldo na Seleção foram conquistados dia após dia: marcou 25 golos em 30 jogos
Roberto Martínez

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Fazer a convocatória "é a única parte" que não gosta da profissão

Roberto Martínez assume que deixar um jogador de fora de uma convocatória é uma tarefa difícil. "É a única parte de que não gosto", assume, continuando: "Há jogadores que não fizeram nada para merecer ficar de fora do Mundial, mas tu deixas-os de fora". Como lhes dizes? Honestamente. E vale a pena refletir sobre isso. O habitual é ter uma lista longa - 30, digamos - para o caso de lesões. Depois cortas três ou quatro, um por setor. Mas a experiência de fazer isso foi tão traumática que mudei as coisas. Foi outra coisa que aprendi. Escolherei uma lista de 26 e outros quatro que sabem que estão de reserva [não publicamente]. Dessa forma, se houver novidades, são boas notícias."

O sonho de conquistar o Mundial por Portugal e a numerologia... que dá alento

O talento que atualmente existe no núcleo forte da Seleção Nacional portuguesa dá razões para Roberto Martínez sonhar com a conquista do Mundial. Ainda assim, apesar das expectativas criadas em todos os portugueses, o selecionador nacional sublinha não sentir que existe "ansiedade" para ganhar o torneio.

"Não podes criar um espaço onde se ouça: 'Tens de ganhar'. Ganhar, claro, mas como? Tens de criar um hábito, uma cultura, clareza nas funções dos jogadores. Ganhar a Liga das Nações foi muito importante para nós: a estrutura, os processos, ganhar uma final contra a Espanha, a n.º1 do Mundo, os campeões europeus. Eu não diria que há uma ansiedade em Portugal para ganhar o Mundial; diria que é entusiasmo, esperança. Isso vem com estes jogadores. Estamos a falar de Cristiano Ronaldo. Do capitão do Manchester United [Bruno Fernandes]. Do capitão do FC Porto [Diogo Costa]. Do capitão do Manchester City [Bernardo Silva]. Quatro jogadores importantes nos campeões europeus [Nuno Mendes, João Neves, Vitinha e Gonçalo Ramos]. Isso faz o povo português sentir-se bem e confiante", assume.

"Sabemos que nunca ganhámos o Mundial e isso diz-nos que é difícil. Sabemos que as coisas podem mudar depressa, que o talento sozinho não chega, que pequenos detalhes podem ir contra ti e, claro, é um golpe duro quando não tens sucesso, mas deixem-nos sonhar. Acho que podemos. E essa é a atitude que quero que a nossa equipa tenha. Não sou supersticioso, mas gosto de numerologia. E isto vindo de quem nasceu a 13 de julho", acrescentou, explicando a teoria que o ajuda a dar alento ao sonho: "Em Inglaterra diziam sempre: 'Uau, que azar!', 'Que dia'. Não! Eu gosto. E é maravilhoso pensar no Euro'2016 ou em Eusébio: melhor marcador em 1966, vencedor da Bola de Ouro em 1965, os 60 anos desde o seu Mundial [2026]... É tudo seis. Vamos sonhar. Por que não?"

Mundial'2026? Deixem-nos sonhar. Acho que podemos. E essa é a atitude que quero que a nossa equipa tenha
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Os 15 dias necessários para os jogadores de ambientarem às questões climáticas antes do jogo com a Colômbia

Roberto Martínez revelou ainda que Portugal chegará a Miami, onde fará a preparação para o jogo contra a Colômbia, o último de três jogos no Grupo K, que poderá ser verdadeiramente decisivo para garantir o apuramento para os 16 avos de final do Mundial.

"Vamos instalar-nos em Miami, o que nos dá 15 dias para aclimatação para o terceiro jogo contra a Colômbia. Há algumas questões climáticas que são muito agressivas: humidade, tempestades, interrupções. Por isso, estamos a preparar-nos para isso. Mas entramos num espaço desconhecido. Serão 48 seleções, um torneio tão longo. Um jogador que ganha a Liga dos Campeões vai para um hotel, ganha e está em casa no dia seguinte. Para ganhar com a Seleção, pedimos que estejam 50 dias sem ver a família. Nenhum estudo científico negaria que um ser humano é alterado por isso", assinala.

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