O Labirinto de Mourinho: Entre a Valorização de Ativos e a Crítica Pública

Um jogo de cavalheiros

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Miguel Saraiva
Miguel Saraiva

O Sport Lisboa e Benfica atravessa um momento crucial onde a palavra de ordem deveria ser "consistência". 

No entanto, as recentes declarações de José Mourinho após o embate com o Casa Pia revelam uma dicotomia preocupante que merece reflexão. Como pode um dos maiores ativos desportivos do clube — o treinador — valorizar os seus jogadores ao dar-lhes a titularidade e, 90 minutos depois, desvalorizá-los publicamente perante os microfones?

Nesta fase de reconstrução, após esta época “muito aquém das expectativas”, o objetivo central deve ser estancar o ritmo frenético de entradas e saídas, paradigma das últimas épocas e introduzir as pérolas da nossa academia.

É factual que ninguém está acima da crítica, mas existe uma regra de ouro na liderança, "os louros são públicos, as críticas são privadas". Ao expor o plantel desta forma, o treinador arrisca-se a condicionar emocionalmente aqueles que tem o dever de liderar.

Embora Mourinho não tenha construído este plantel de raiz, o tempo de casa já é suficiente para que o seu impacto fosse mais visível. Existem opções válidas no banco e no campo, falta, talvez, uma autocrítica mais honesta por parte do "Mister", assumindo a sua quota-parte na ausência de qualidade de jogo, que teima em não acompanhar o brilhantismo da maioria das suas conferências de imprensa.

Resta uma questão que intriga qualquer adepto; por que razão a equipa transcende-se em palcos europeus contra colossos como o Real ou o Atlético de Madrid, mas exibe uma apatia incompreensível em jogos do campeonato onde é claramente superior? Esta irregularidade é o sintoma de uma equipa que ainda não encontrou a sua alma doméstica; urge fazer esta análise, e se a razão é a identificada pelo treinador e verbalizada nos microfones da conferência de imprensa pós jogo com o Casa Pia desta semana, então que se trate com mestria e discrição do assunto. Pois ele é visível para qualquer adepto, não é necessário ser o treinador à porta aberta a dizê-lo.  

Mais do que um treinador, o Benfica precisa de um arquiteto que saiba quando proteger a obra. Dar continuidade a Mourinho é apostar na maturação de um projeto que não pode viver de impulsos. Esperamos que a sua reconhecida competência em moldar equipas vencedoras se reflita, finalmente, na criação de um coletivo agressivo e identitário. A verdadeira inovação na sua liderança passará pela capacidade de converter a crítica de hoje em proteção absoluta amanhã, quando as “vitórias sobre vitórias” chegarem, os jogadores que hoje são apontados devem ser os heróis celebrados. É este o ajuste de sintonia necessário para transformar o labirinto atual num caminho de glória. O talento das nossas futuras pérolas só brilhará se for blindado por uma estrutura sólida. Que venha o Mourinho das vitórias, pois sabemos que o topo não se alcança com a exposição das fraquezas, mas com a organização férrea de quem sabe que o Benfica é, acima de tudo, uma fortaleza que se ergue de dentro para fora...

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