No final da semana passada o clube do qual me orgulho de ser seu sócio e membro dos órgãos sociais ficou mais pobre. O Juiz Conselheiro Dr. José Matos Fernandes deixou o nosso convívio.
Conheci este notável sócio do Futebol Clube do Porto há mais de vinte e cinco anos, quando eu era presidente da Câmara Municipal de Castelo de Paiva e num dos momentos mais trágicos da história da nação portuguesa, a queda da Ponte Hintze Ribeiro, a 4 de Março de 2001.
A Resolução do Conselho de Ministros nº 29-A/2001, de 9 de Março aprovou um plano de ação para a viabilização de acordos extrajudiciais respeitantes à determinação e pagamento pelo Estado de indemnizações por perdas e danos, morais e materiais, aos herdeiros das vitimas da trágica queda da ponte que ligava as margens do Rio Douro, entre o lugar de Entre-os-Rios, concelho de Penafiel e o concelho de Castelo de Paiva.
E no âmbito dessa Resolução, o Provedor de Justiça fixou o critério a utilizar no cálculo dessas indemnizações, e determinando-se a constituição de uma Comissão à qual competiria determinar o montante das indemnizações a pagar em cada caso concreto. A presidir a essa Comissão e como representante do Governo na mesma, foi designado, o juiz conselheiro Dr. José Matos Fernandes, por Despacho do Primeiro-Ministro, António Guterres, de 20 de Março de 2001.
A primeira reunião dessa comissão foi em Castelo de Paiva e é aí que conheço o juiz conselheiro. Uma pessoa de trato fácil e com uma personalidade ímpar. Essa comissão não cobrou um cêntimo pelo seu trabalho e por isso recebeu um louvor do Governo da época.
Posteriormente, reencontrei-o nos órgãos sociais dos quais fiz parte na presidência do Presidente Jorge Nuno Pinto da Costa. Com ele convivi e estive muitas vezes, e era um privilégio poder falar com ele, não só sobre o nosso clube mas sobre a matéria que nos aproximou.
Um dia, a seu pedido, fui até ao seu encontro perto da sua casa na cidade do Porto, para lhe entregar, uma cópia do dossier referente ao processo das indemnizações (que não possuía), desafiando-me o Juiz Conselheiro para que eu fizesse, para memória futura, uma publicação sobre esta matéria.
Mas o maior exemplo para nós portistas deste nosso ex-presidente da Assembleia Geral e que jamais esquecerei, porque foi uma verdadeira demonstração da sua verticalidade. Foi o facto de ele ter preferido renunciar a todos os cargos que tinha no F. C. Porto, a ter de pedir autorização a quem quer que seja, nomeadamente ao poder centralista de Lisboa, para os exercer, como constava da legislação, que impunha normas sem qualquer sentido, a homens sérios e fazia com que pessoas menos sérias pudessem ocupar cargos importantes. Como alguém disse um dia “Um homem de bem não pede aval sobre o seu carácter”.
O juiz Conselheiro Dr. José Matos Fernandes ficará para sempre como um exemplo para mim e para todos os portistas.
Quando vulgarmente se diz que ninguém é insubstituível, um homem como este portista que agora nos deixou, não se substituem, são únicos.
Paz à sua alma.
