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No passado domingo, 29 de março, ao celebrar 54 anos de vida, Rui Costa, o homem que hoje ocupa a cadeira da presidência do Sport Lisboa e Benfica, carrega consigo muito mais do que a responsabilidade de um cargo executivo; transporta o peso de uma vida inteira de devoção ao clube. Uma ligação que não começou no relvado, mas na secretaria, quando em 1976, com apenas 4 anos de idade, se tornou sócio do clube pelas mãos do pai, iniciando um vínculo que nem a distância física de doze anos na elite italiana conseguiu quebrar.
Falar de Rui Costa é falar de uma linhagem em vias de extinção: a do prodígio que cresceu a respirar a mística nos corredores da Luz, do jogador que se fez o maior embaixador do nosso brio no estrangeiro e, finalmente, do líder que regressou a casa para fechar o ciclo.
É a história do "Maestro" que, antes de encantar a Europa, já era o herói da "Geração de Ouro", ao marcar o golo decisivo que sagrou Portugal Campeão do Mundo de Sub-20 em 1991, perante um Estádio da Luz em delírio. É a história de um homem que nunca permitiu que se apagasse o brilho no olhar de quem se sente, acima de tudo, um de nós.
Tudo começou no pó, longe dos holofotes e dos contratos milionários. Em 1981, o miúdo que deu os seus primeiros passos no Damaia Clube, pisava os campos de treino da Luz para prestar provas. Tinha apenas nove anos e uma bola que parecia obedecer-lhe por instinto. Rui Costa foi reconhecido como parte da família benfiquista, iniciando uma caminhada que o levaria das escolas de formação ao topo do futebol mundial, sempre com o vermelho e branco como norte magnético da sua existência.
A ascensão foi meteórica. Na década de 90, Rui Costa tornou-se o centro do universo encarnado. Ver Rui Costa jogar era um exercício de estética. Ele não corria, deslizava. O seu passe não era apenas uma transmissão de bola; era um convite ao golo, uma linha reta traçada com a precisão de um arquiteto num caos de pernas adversárias. Ergueu a Taça de Portugal em 1993 e o título nacional em 1993/94, confirmações de que estávamos perante um fora de série.
Quando a asfixia financeira bateu à porta da Luz, Rui Costa tornou-se o balão de oxigénio do clube. A sua transferência para a Fiorentina, em 1994, foi um imperativo de sobrevivência; ele aceitou o exílio para que o clube pudesse respirar. Em Itália, elevou o nome de Portugal, tornando-se o ídolo eterno de Florença e, mais tarde, o senhor de San Siro em Milão, provando que o génio não tem fronteiras, mesmo quando o coração permanece ancorado no cais de partida.
Ao mesmo tempo, tornava-se um pilar da nossa Seleção. Com a quina ao peito, somou 94 jogos e 26 golos, numa caminhada épica que culminou com o estatuto de vice-campeão europeu em 2004, despedindo-se da equipa das quinas no palco que sempre foi seu: a Luz.
O regresso em 2006 não foi apenas o fechar de um ciclo de doze anos de saudade; foi o momento em que o Maestro assumiu, por direito e mérito, a braçadeira de capitão do Sport Lisboa e Benfica. Ver Rui Costa liderar a equipa em campo, com a mística entranhada em cada gesto, era a garantia de que os valores do clube estavam em boas mãos. Ele não era apenas o capitão que escolhia o campo no início do jogo; era o guia de uma nova geração, o homem que explicava aos mais novos o que significava honrar aquela camisola. Aquela braçadeira, que ele envergou com uma elegância ímpar até à sua despedida emocional em 2008, foi o ensaio final para o destino que o esperava. O capitão que unia o balneário e a bancada preparava-se, ali mesmo, para se tornar o Presidente que hoje une a nação benfiquista.
O jogador retirava-se, mas o homem estava apenas a começar uma nova missão. A transição para a estrutura diretiva foi feita com o mesmo rigor com que executava um passe de quarenta metros. Como Diretor Desportivo e Administrador da SAD, aprendeu os meandros da gestão, os labirintos do mercado e a dureza das decisões que não dependem apenas da bola entrar ou não.
Como Presidente eleito em 2021 e reconfirmado pelos sócios em 2025, Rui Costa enfrenta um dos maiores desafios da sua vida. Sentar-se naquela cadeira exige a têmpera de quem guarda o legado de Cosme Damião. Nesta função, a batuta depende de uma orquestra complexa — entre treinadores, atletas e estrutura — onde a visão estratégica se cruza com a incerteza do jogo. Mais do que gerir, o desafio reside na arte de saber rodear-se das competências certas, garantindo que quem o acompanha partilha da mesma sintonia e da mesma ambição que norteia o clube.
Olhando para trás, percebemos que nada foi obra do acaso. São 54 anos de uma vida ligada umbilicalmente ao Benfica, onde o jogador que inspirou gerações deu lugar ao líder que hoje conduz o nosso destino. Mas a dimensão deste clube — eclético, gigante e movido por milhares de variáveis — não admite complacência. No Benfica, a vitória não é um objetivo, é o único hábito tolerável; um espírito onde as desculpas não encontram morada. Nesta missão hercúlea, o Maestro não pode tocar sozinho: cabe a todos nós acreditar e blindar Rui Costa no caminho que ele melhor conhece: o de ganhar, ganhar e ganhar.
Parabéns ao campeão Rui Costa!
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