«O meu principal desafio na Coreia do Sul»

José Morais, treinador do Jeonbuk, partilha as histórias da sua carreira com os leitores de Record

José Morais escreve o segundo artigo de opinião no Record, onde partilha a sua etapa no Jeonbuk, campeão da Coreia do Sul. Isto numa altura em que o treinador português vive uma fase positiva: foi eleito o treinador do mês de abril na K-League e qualificou-se para a fase seguinte da Liga dos Campeões da Ásia.

O Jeonbuk tem como objetivo ganhar projeção internacional. Para isso, temos de manter o domínio na Coreia e encontrar soluções que nos permitam jogar lá fora como jogamos dentro de casa: com um jogo ambicioso que busca o resultado pela elevada qualidade, intensidade e objetividade na tomada de decisões, quer no plano técnico, quer táctico. Trabalhamos para que os jogadores apresentem uma cultura de vitória em qualquer jogo e competição que o clube esteja envolvido. Expandir. Conquistar.

Esta semana acabou a fase de grupos da Liga dos Campeões da Ásia e o primeiro objetivo foi alcançado: passámos à fase seguinte em primeiro lugar no grupo. Uma demonstração de qualidade que atesta o trabalho desenvolvido desde o início do ano. Fomos superiores aos eternos rivais japoneses do Urawa Reds e, também importante, eliminamos da competição um dos favoritos: o Beijing Guoan, que é o líder do campeonato chinês com vitórias em todos os jogos que disputou internamente. A próxima fase já é a eliminar e vamos voltar a encontrar um adversário chinês e muito bem orientado por um treinador também português, o Vítor Pereira. Uma boa eliminatória para os adeptos de futebol acompanharem.

Domesticamente, estamos a discutir a liderança do campeonato e fazer uma gestão de plantel que nos permite utilizar e dar minutos a praticamente todos os jogadores. Há uma notória evolução dos jogadores quer na vertente do conhecimento tático do jogo, quer na atitude competitiva. O jogador coreano tem uma condição física e técnica muito interessante, uma grande dedicação ao treino e mostra uma elevada disciplina no trabalho, o que lhe permite adaptar-se às exigências do jogo europeu com naturalidade. O sucesso dos coreanos nos exigentes campeonatos de Inglaterra e Alemanha são prova disso mesmo, apesar de ainda não serem em número significativamente abundante.
 
Para conquistarem a Europa, têm de se tornar ainda mais completos. Os aspetos em que o jogador coreano pode melhorar prendem-se sobretudo com o conhecimento táctico e na racionalização dos diferentes momentos do jogo para que adote comportamentos mais equilibrados na gestão da posse da bola e, por consequência, na gestão do esforço físico. Dessa forma, será mais fácil exercer um maior domínio sobre os adversários, criar oportunidades para marcar e evitar sofrer, equilibrando a equipa a cada momento.

Há parâmetros culturais que são intrínsecos aos jogadores e que prevalecem quando os factores emotivos são mais evidentes, como nas alturas de decisão (as partes finais dos jogos) ou logo após um golo, tanto marcado como sofrido. Em momentos emotivos agem muitas vezes como se tivessem ouvido uma sirene, que apela à honra, começando a correr sem parar para pensar estrategicamente. O jogo, por muito trabalhado que tenha sido, passa a ser "bola cá - bola lá" em que a honra de lutar pelo resultado se sobrepõe aos aspectos táticos do jogo.

A minha própria adaptação ao futebol coreano tem passado muito por entender estes aspetos culturais e buscar através do compromisso um usar equilibrado do valor cultural vigente que demonstra ser essa defesa da honra. Para o jogador coreano, o jogo assemelha-se muitas vezes a uma batalha onde é melhor morrer no campo a lutar pelo golo do que sobreviver sem a glória da vitória.

Em Portugal os aspetos táticos do jogo começam a trabalhar-se desde muito cedo, fazendo com que os jogadores portugueses atinjam uma maturidade competitiva de topo ainda durante os últimos estágios da sua formação. E é também por isso que o jogador português chega a qualquer campeonato do planeta e se dá bem naturalmente, está preparado. Onde quer que chegue, está pronto para conquistar.

E é exactamente esse o meu principal desafio na Coreia do Sul.

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