António Oliveira: «Tenho direito a ser visto apenas como treinador»

António Oliveira volta a conceder uma entrevista a “Record”. Para trás ficam dez anos de desencontros e conflitos que ainda hoje se arrastam em tribunal, fruto de uma relação difícil e originária de um período que felizmente para todos começa a pertencer à pré-história do futebol português.

Regressado ao cargo de seleccionador, o profissional de futebol António Oliveira, 50 anos de idade, quase avô (“já mais para lá do que para cá”, como repete à margem da conversa para enfatizar a evolução), proclama a vontade de enterrar o passado e encetar um novo ciclo de uma relação outrora crispada com alguns órgãos de comunicação social, nomeadamente “Record” (pelas críticas à primeira nomeação para seleccionador e pelo “caso da cassete”) e SIC (o “caso Paula”).

A convicção desta nova atitude, que parece sincera, só poderá ser julgada com mais tempo, por actos e não apenas palavras. Para já ficam as intenções, as explicações, o reencontro num diálogo vivo, obviamente retrospectivo, que pretende dar resposta à curiosidade do leitor.

António Oliveira, honra lhe seja feita, não vetou nenhuma pergunta. Prometeu e cumpriu responder a todas. E agora, colocada a conversa em dia, ficará mais fácil voltar a falar apenas de futebol

António Oliveira: «Tenho direito a ser visto apenas como treinador»
António Oliveira: «Tenho direito a ser visto apenas como treinador»

- O senhor é um homem polémico no futebol português e muito disso se deve ao êxito comercial que as empresas de que é sócio, com o seu irmão Joaquim, tiveram e têm na exploração em Portugal do fenómeno futebolístico. Os meios mais críticos continuam a achar, por isso, que volta ao cargo de seleccionador por via dessas relações estreitas entre o jogo e os negócios da bola. Como se relaciona com essa permanente desconfiança?

- Vamos lá a ver se consigo dar uma resposta concreta... A minha vida profissional foi sempre o futebol: 17 anos de jogador, 15 de treinador. E se porventura contribuí para o aparecimento de diversas empresas, a verdade é que nunca ninguém me viu exercer um acto de gestão, executivo, ao serviço de qualquer delas. As críticas têm tido sempre a ver com especulações, rumores, nada de concreto. E tudo porque sou accionista de uma empresa de sucesso no meio desportivo, como sou de outras, de outros sectores, do BCP, de...

- Estamos a falar do sector desportivo, do futebol, e o BCP não tem que ver com o cargo de seleccionador. Não haveria aí nenhuma incompatibilidade...

- Deixe-me terminar.

- Termine.

- No fundo, posso resumir-lhe isto muito facilmente sem entrar em detalhes: não tenho rigorosamente nada que ver com a Olivedesportos, a sua estratégia, as decisões. Nada! Sou apenas um accionista. E maior ou menor isso não interessa.

- Não vê qualquer incompatibilidade?

- Nenhuma! A minha vida sempre foi o futebol.

- As pessoas não podem desconfiar dessas ligações futebol-negócios?

- Podem, mas são injustas e não se baseiam em qualquer dado concreto, já lhe disse. Eu sou profissional de futebol. Sempre fui e vou continuar a ser. Os negócios são com o meu irmão e com outras pessoas, noutras empresas. Como cidadão, posso ser accionista de uma, duas, dez. Sou um homem livre.

- Bem, mas a minha pergunta tinha que ver com a forma como convive com essa realidade, isto é, com a desconfiança permanente de alguns sectores. Bem? Mal? Hoje convive melhor do que no passado?

- Convivo com a serenidade de quem tem a consciência tranquila. Repito-lhe: não tenho qualquer cargo em qualquer empresa. Sou um accionista, não sou gestor. Compreendo a especulação porque a cabeça das pessoas é livre...

- E não acha normal que as pessoas apontem incompatibilidades em factos que para si são naturais?

- Perfeitamente. Mas repito-lhe que estou de consciência tranquila. Só aceitaria essa incompatibilidade se fosse um executivo, se estivesse dentro das empresas ou exercesse algum acto de gestão. Só a verificação de alguns desses pressupostos me poderia colocar em dificuldades face a essas críticas. De resto, assim como acho normal que as pessoas desconfiem e critiquem, deixe-me dizer-lhe que também não acho normal que não me concedam o direito de fazer aquilo de que gosto desde miúdo: trabalhar no futebol. Não sou administrador nem gestor, repito. Fui jogador e sou treinador. O futebol é a minha actividade única! Acredite nisso.

- Mas não é aquela em que ganha mais dinheiro...

- Como profissional só ganho no futebol. Aliás, não conheço nenhuma actividade em que se ganhe tanto quanto no futebol. A tendência é essa e tivemos exemplos muito recentes disso. De resto, só sou accionista de empresas porque ganhei bem no futebol e soube aplicar esse dinheiro. Quanto ao resto, e sem entrar em quantificações, deixe-me que lhe pergunte: conhece alguém que seja accionista de uma qualquer empresa e não espere ganhar dinheiro?

- ...

- A si, que é director do Record, também não há quem o possa proibir de ser accionista de uma ou mais empresas e de ter, eventualmente, outras actividades.

- Já percebi o ponto de vista que defende. Não vê as incompatibilidades que alguns analistas entendem que existe. Coloco-lhe, por isso, uma última questão sobre este tema para seguirmos em frente: não se sente, pelo menos, incomodado com a dúvida sistemática sobre um relacionamento directo entre a carreira no futebol e a actividade das empresas de que é accionista, nomeadamente a Olivedesportos?

- Rigorosamente nada, acredite. A minha vida é futebol. Nunca, sequer, fiz um interregno na minha carreira para ser empresário.

- Nunca foi tentado a isso?

- Não! Acredite! Tenho uma enorme paixão pelo futebol. Como acredito que o João Marcelino tenha pelo jornalismo. Olhe, eu, a si, conheci-o há 20 anos, como repórter. Entretanto, vi-o subir a pulso e chegar a um lugar de destaque. Com certeza neste percurso teve outras propostas, até de outras actividades - e, no entanto, seguiu em frente no jornalismo. Porquê? Com certeza porque tem a mesma paixão pela sua profissão que eu tenho pelo futebol. E eu vou ter esta paixão até morrer. Esta é minha posição, muito clara.

- Já agora...

- [Oliveira não se deixa interromper] Já agora, deixe-me dizer-lhe ainda outra coisa. Foi por gostar muito de futebol, e por sentir que se especulava demasiado sobre a minha carreira e o meu currículo, que, a determinada altura, entendi dever sair da selecção e ir buscar títulos a outro lado...

- Está a justificar a aceitação do convite do FC Porto...

- Não estou a justificar, estou a dar-lhe a minha visão das situações. Os meus projectos não apontavam naquela altura para abandonar a selecção nacional ao fim de dois anos. Pensava numa carreira mais longa e que desse a Portugal uma outra constância de participação nas grandes provas. Mas tive

de mudar de posição face às críticas...

- E está a dizer-me que foi para o FC Porto arranjar currículo quando há quem diga o contrário: que foi à selecção buscar currículo para poder ser treinador do FC Porto...

- As pessoas podem dizer o que quiserem...

- Além do mais, nunca me pareceu uma pessoa demasiadamente influenciável.

- Ah, isso não sou! Onde meto a cabeça meto o corpo...

- E quanto à falta de currículo, porque não pensou nisso antes de aceitar o convite? Foi preciso chegar aos quartos-de-final do Euro-96 para reparar que lhe faltavam vitórias e títulos?

- As coisas tinham acontecido com naturalidade. Já tinha sido treinador de equipas de “top” em Portugal. Achava sinceramente que tinha direito a aspirar à selecção. E qual era o treinador que, tendo a oportunidade de chegar a seleccionador principal, recusava um convite desses? Eu não fui capaz, confesso.

- Como explica que, agora, exceptuando uma ou outra voz, o regresso à selecção tenha sido mais pacífico?

- Se calhar, por causa de ter saído em 1996 à procura dos títulos que hoje tenho...

- Há quatro anos...

- [Interrompendo] Há quatro anos, e vamos seguir o princípio que então vocês defenderam, ou seja, que na selecção devem estar sempre os melhores...

- [Agora é a vez do entrevistador interromper] ... Defendemos há quatro anos e voltámos a defender há dois, quando Humberto Coelho foi nomeado. Convém lembrar isso...

- ... Eu sei, e ia chamar a atenção para o facto. Mas o que queria dizer é o seguinte: se nessa altura vocês podiam ter alguma razão para criticar e contestar, hoje, pelo currículo, não têm. Isso agora não é óbice.

- Pela parte do Record não é com certeza, porque defendemos princípios iguais para todos. Por isso, criticámos, também, na altura a nomeação de Humberto Coelho. Entendemos, então como agora, que a selecção deve ser um cume de carreira. Mas deixe-me colocar-lhe, agora, outra questão. Há quatro anos as posições extremaram-se entre si e o Record e, com certeza, não nos concederia uma entrevista como esta, não é verdade?

- Não, não é! Dava. Vamos lá a ver se continuamos a entrevista e, ao mesmo tempo, nos entendemos: sempre procurei ser, ao serviço da selecção, uma pessoa completamente isenta e nunca beneficiar alguém em prejuízo de outro.

- Há quatro anos acedia, então, a esta entrevista?

- Completamente. Sempre soube distinguir as coisas. Uma coisa é o António Oliveira seleccionador e outra é o António Oliveira fora do futebol. Enquanto seleccionador falava com todos. Com o Record também. Agora, não me podiam tirar o direito de, fora dos locais normais, aceder a um convite e não aceder a outro.

- Era disso que lhe estava a falar. Nunca nos queixámos de ser discriminados em conferências de Imprensa ou em declarações de circunstância. O que lhe estava a dizer é que, há quatro anos, o seleccionador António Oliveira nos concedia uma entrevista de fundo. É o que me acaba de confirmar, de resto.

- Pronto. Se calhar diria que não era conveniente... Mas no espaço da selecção tratava todos por igual e nunca fugi às minhas responsabilidades. Quanto a essa entrevista de fundo...

ela também nunca me foi solicitada...

- Por aí me apanha: sinceramente, não me recordo se pedimos ou não.

- Eu não me lembro que me tenha sido solicitada uma entrevista de fundo.

- Deixemos o “caso Record” e falemos do “caso SIC, outra das provas de que está a mudar a sua relação com a Imprensa mais crítica. Há, reconhece, uma evolução?

- Há.

- Recusava-se a falar para a SIC e, agora, acedeu a fazer um “directo” com a mais importante estação de televisão portuguesa apenas alguns minutos depois de ter sido anunciado no cargo. Porquê?

- Porque resolvi o meu problema com a SIC em sede própria. Digo-lhe mais: se não tivesse esse problema resolvido não teria aceitado o cargo de seleccionador nacional.

- Aceitou porque ganhou a acção?

- Aceitei porque resolvi o problema esclarecendo a minha razão. E, nessa altura, passei a estar em condições de poder falar com todos como julgo que é obrigação de um homem que ocupe este posto.

- Provou não ter tido conhecimento daquilo que ficou conhecido como o “caso Paula”. É isso?

- Exactamente.

- ...

- E sem isso não aceitaria a selecção como não aceitei outras oportunidades que me apareceram. Primeiro, tinha de lavar a minha honra. Repare: tenho 50 anos. Sou tio-avô de quatro e quase avô. As pessoas crescem e chega-se a uma altura em que não há paciência nem necessidade de mentir. As coisas e as pessoas são como são. Eu respeito os outros e peço que me respeitem também.

- Tem, portanto, agora uma posição diferente de alguns jogadores. Lembro-lhe que Sá Pinto, recém-regressado a Alvalade, continua a discriminar a SIC. E como ele haverá mais. Como se posicionará perante isto?

- São questões melindrosas que teremos de gerir com cuidado.

- Vai falar com eles sobre essa questão?

- Não será necessário. Mas há uma coisa que julgo fundamental: é preciso respeitar a posição individual de cada um. O que quero, e julgo que é uma das minhas funções, é fazer uma análise rápida de todos os casos - e não só desse - e constituir-me no garante da defesa dos interesses da selecção. Nada pode prejudicar a selecção. Vou continuar a defender essa posição.

- O efeito...

- [Interrompendo] Desculpe, só mais este ponto: porventura estaremos numa posição simetricamente inversa de há quatro anos. Na altura era eu, o treinador, que tinha algumas divergências com certos órgãos de comunicação. Isso era problema meu, não dos jogadores. O bom senso faz hoje tanta falta quanto na altura.

- Acha que eles vão compreender a sua posição?

- Tenho a certeza. Da mesma forma que eu compreendo a posição deles.

- O efeito perverso dessa acção com que lavou a honra foi ter provado também que o caso existiu. Isso não poderá dificultar agora o relacionamento com os jogadores?

- Vou ser-lhe muito sincero: continuo a não ter conhecimento de nada e a acreditar que não houve nada.

- Depois dessa prova ter sido feita e transitado em julgado, no mesmo julgamento em que se provou que o senhor não teve conhecimento dos factos, é preciso mesmo ter fé...

- [Sem acusar qualquer reacção] Continuo a não querer saber se aconteceu ou não aconteceu. Não é problema meu. Mas se você me provar...

- Eu não provo nada, nem quero. O tribunal é que o deu como provado no decorrer da acção que o senhor colocou à SIC, a Emídio Rangel e Jorge Schnitzer. Toda a gente o sabe e por isso podemos passar à frente.

- Deixe-me dizer-lhe só mais isto: todos nós temos família, estas coisas são muito melindrosas.

- Claro que são e por isso lhe proponho passar à frente em direcção ao futuro. Promete aos portugueses que gostam de futebol e da sua selecção que, no futuro, estará mais atento a tudo aquilo que se passar no espaço comum da selecção, dentro ou fora do campo?

- [Sorrindo finalmente] É uma das minhas obrigações; mas não sou polícia. Tenho habilitações mas falta-me a vocação.

- ...

- [De novo sério] Como ficou bem patente no recente Europeu, esta juventude cresceu bastante, atingiu a maturidade, estabilizou, ganhou uma boa situação económica. Todos triunfaram nos respectivos clubes e constituíram família. Também não há lugar a que não se perceba que tudo teve o seu contexto e que passou. Assim como os jogadores, e todos os elementos da selecção, a começar por mim, devem entender que são referências nacionais e comportar-se publicamente como tal. Temos deveres e responsabilidades a que não nos podemos furtar.

- ...

- Agora não me peçam, repito, que seja polícia. Nada me garante que amanhã não me apareça um jogador que queira dar dois tiros no seleccionador... Só prometo, da minha parte, rigor - nas grandes linhas, nos regulamentos, na disciplina; serei inflexível. Repare também em outra coisa: eu conheço estes jogadores desde os 20 anos. Com esta, é a quarta vez que os dirijo na selecção. Estou muito identificado com o carácter e a personalidade de quase todos, para não dizer de todos. São pessoas adultas, responsáveis, e que têm um interesse enorme em defender com honra, com orgulho, a selecção nacional. Eles sabem que ainda há poucos meses tiveram o mérito de galvanizar o País e que, a partir de agora, cada vez mais, têm todas as atenções postas neles, dentro e fora do campo. É uma responsabilidade acrescida. Jogar bem não basta.

- Passemos a outro capítulo. Como treinador do FC Porto, arranjou zonas de crispação com os outros dois grandes clubes portugueses, Sporting e Benfica. Com o Sporting isso foi rapidamente ultrapassado. O senhor parece ter uma vela acesa em Alvalade num clube pelo qual foi jogador campeão nacional e, por isso, ainda há pouco tempo esteve na entrega das faixas aos actuais campeões [além de ter realizado terça-feira, precisamente, a primeira visita oficial enquanto seleccionador]. Pergunto-lhe: e o Benfica?

- O Benfica é quase a mesma situação, embora sem o mesmo estado de graça, reconheço. Sabe, tenho imensos amigos do Benfica...

- ... Mas também a Olivedesportos tem uma acção contra o Benfica, não é verdade?

- [Sempre com calma] Por favor, desligue-me das empresas. Não tenho nada que ver com isso, como não tenho nada a ver com as acções de outras empresas de que sou accionista. O Benfica terá da minha parte o mesmo tratamento que qualquer outro clube, nomeadamente os que já referiu.

- Acha que os benfiquistas podem acreditar que o senhor vai tratar o clube e relacionar-se com os respectivos responsáveis sem estar condicionado por essas questões que se conhecem?

- [Com veemência] Que não tenham qualquer dúvida! Se eu não me sentisse capaz de fazer a destrinça das coisas, de separar o trigo do joio, não tinha aceite o cargo.

- Mas trata-se de um clube com o qual, à partida, há um conflito de interesses devido a...

- [António Oliveira não espera pela pergunta e interrompe de novo] Não, não! Separe as coisas. Ponto final. Não quero saber se há litígios [do Benfica] com o meu irmão [Joaquim Oliveira] e algumas das empresas que ele dirige, a Olivedesportos ou outras. Eu sou seleccionador nacional. De todo o futebol e de todos os clubes. Se não me sentisse em condições de exercer o cargo dessa maneira não teria aceite, repito-lhe de novo. Aliás, vocês estão sempre a considerar-me um homem rico e, portanto, são capazes de acreditar que não teria nenhuma necessidade de vir trabalhar para a Federação...

- Faço-lhe a pergunta, então, de outra forma. Acredita que, do lado do Benfica, haverá essa capacidade de olhar para si sem ver um dos accionistas - ia a dizer um dos dois sócios - da Olivedesportos?

- Essa é uma questão que terá de colocar ao Benfica. Eu acho que é possível e desejo isso, até porque, como lhe disse, tenho imensos amigos dentro do Benfica.

- Já agora...

- [De novo a interrupção, porque Oliveira quer voltar atrás] Já agora, porque há pouco falou na crispação que ficou dos tempos em que fui treinador do FC Porto, quero dizer-lhe o seguinte: quem anda no futebol percebe perfeitamente que, no dia a dia, é preciso defender com garra as cores que representamos, sejam elas quais forem; e as pessoas sabem, também, que é preciso ter a inteligência e a sensibilidade de poder separar aquilo que é conjuntural.

- Isso quer dizer que...?

- Quer dizer que, em determinada altura, enquanto treinador do FC Porto, e para defender a minha equipa, posso ter dito coisas de que as pessoas de outros clubes não gostaram. Assim como responsáveis de outros clubes podem ter dito coisas que desagradaram aos adeptos portistas. O futebol faz-se disso. Agora uma coisa é verdade e que fique registado: a instituição Benfica tem de estar acima das pessoas e eu nunca faltei ao respeito ao Benfica. Nem ao Benfica nem a qualquer outro clube. As instituições estão acima de nós - foi assim que fui educado.

- ...

- O problema do futebol é todos preferirem ganhar a perder ou empatar. E o resultado é a única coisa concreta, que fica. Tudo o resto passa.

- E para conseguir um resultado vale tudo?

- Não, não vale. Eu defendo princípios. Em toda a minha vida fui coerente com as coisas que fiz. Vou continuar assim. Não me preocupo com aquilo que de mim se escreve ou sobre mim se especula. Vocês são livres de dar as vossas opiniões e escreverem os vossos artigos; eu também sou livre de examinar a minha consciência e chegar à conclusão: “São injustos!, podes seguir em frente e de cabeça levantada.” Quando um dia fizer alguma coisa de que me possa envergonhar, desisto do futebol. Acredite nisso. Vocês acusam-me de coisas que em 99,9%, para não dizer 100%, não tem nada a ver comigo. Não tiveram nada a ver comigo!

- António Oliveira, poderíamos voltar ao passado mas eu prefiro, se não se importa, conduzir a entrevista em direcção ao futuro. O passado está mais ou menos esclarecido, o futebol português evoluiu em relação àquilo que era há dez anos, e, por isso, regresso à selecção. Pergunto-lhe: quando, onde e por quem foi convidado para regressar agora ao cargo de seleccionador?

- No sábado antes de tomar posse, nas instalações da FPF, pelo dr. Gilberto Madaíl.

- O que falou com ele depois?

- Discutimos três ou quatro questões de princípio que eram fundamentais para poder aceitar o cargo, como desejava. Considero uma honra poder voltar à selecção. Não escondo isso.

- Que questões de princípios eram essas?

- Por exemplo, ter uma conversa como esta que estou a ter consigo: esclarecer alguns pontos do passado; e, em relação ao projecto que me foi apresentado, discutir dois ou três aspectos que poderiam fragilizar a figura do seleccionador nacional.

- Pode ser mais específico?

- Questões que tinham que ver com os meus colaboradores, os técnicos das selecções nacionais.

- Rui Caçador é técnico da FPF. José Romão foi escolha sua?

- É minha, concertada com o presidente, como deve calcular.

- José Romão é um homem com um perfil completamente diferente de Joaquim Teixeira. Até aqui há uma nítida evolução em relação ao passado, não acha?

- São pessoas completamente diferentes. O José Romão é um técnico credenciado, com provas dadas e uma cultura desportiva e intelectual acima da média. Conheço-o há mais de 20 anos e sei que é um homem interessado em tudo aquilo que se relaciona com o fenómeno desportivo, nomeadamente o futebol. E, fundamentalmente, tem conhecimentos profundos numa área fundamental: a metodologia de treino. Tem toda a minha confiança pela competência. É um dos melhores técnicos portugueses e, para além disso, uma pessoa elegante, sempre séria na abordagem dos assuntos.

- Como explica, então, que estivesse desempregado?

- Ele não estava desempregado. Estava como eu, inactivo. Mas já agora aproveito: em Portugal tem de se acabar com essa ideia, até ajudada a criar por vocês [jornalistas], que a selecção é para os desempregados ou para os baratinhos. A selecção não pode continuar a viver à sombra desse estigma. A opinião pública não pode ser formada a partir desse conceito.

- Já agora: o senhor é um seleccionador barato ou caro?

- Vou ser completamente honesto consigo: não faço a menor ideia! [Sorrindo abertamente] Vai ter de perguntar ao presidente e à Direcção da FPF porque é uma questão que ainda não discutimos. Nem estou preocupado com isso!

- É o que vale ser rico...

- [Oliveira ignora a ironia] Este é um processo que eu interrompi e, não o escondo, aguardava a possibilidade de regressar, embora com honestidade não esperasse que fosse agora. Depois da brilhante carreira da selecção no último Europeu era impensável, se calhar para si como para todos nós, que o Humberto Coelho se retirasse ou demitisse...

- Para mim não era impensável, nem foi nenhuma surpresa. Mas adiante.

- ... Para mim foi. Mas é evidente que depois que o Humberto Coelho saiu todos os treinadores se calhar pensaram, com toda a legitimidade, como eu, “agora é a oportunidade”, “eu tenho condições para”. É normal e humano. Mas não fiz nada para ser convidado. Recebi o telefonema do presidente da FPF quando estava no Algarve. Vim logo para cima nesse mesmo sábado.

- Como apareceu o contrato por duas campanhas, não muito habitual. Foi iniciativa da FPF ou exigência sua?

- Proposta do presidente! E faz todo o sentido.

- Vai começar a trabalhar o Mundial-2002 ao mesmo tempo que o Europeu-2004?

- Ora aí está um assunto com o qual é preciso ter muito cuidado! O Euro-2004, para já, trabalha-se nos gabinetes, a nível organizativo e estrutural. Para o seleccionador e equipa técnica este é um tempo de preparar o próximo Mundial. Não podemos dispersar-nos. Há quantos anos é que Portugal não está num Mundial? Fará 16 anos em 2002. É demasiado tempo. Temos de nos concentrar para não perdermos esta nova oportunidade. Acha que uma geração pode ser considerada de ouro, como vocês normalmente a apelidam e com razão, sem ter logrado um único apuramento para a prova mais importante do futebol Mundial? Acha que uma equipa pode ser brilhante e os jogadores sentirem-se realizados se chegarem ao fim da carreira sem esse objectivo conseguido?

- Deixe-me ser eu a fazer as perguntas: pode [ser considerada brilhante se o não vier a conseguir]?

- Não pode.

- Não acha, até por tudo isso que me acaba de dizer, que o normal seria não ter assumido desde já as duas campanhas? Que condições acha que teria para “atacar” o Euro-2004, inclusive depois deste recente brilharete, se por acaso não viesse a conseguir a qualificação para o Mundial de 2002? Falhar a qualificação é um dos resultados possíveis, ou não é?

- Teoricamente, sim. Mas vamos à questão de fundo: começa a ser tempo dos treinadores não estarem apenas dependentes do ter ou não ter sucesso. É uma coisa que tem de acabar de uma vez por todas. Se não, que lógica teria o Van Gaal ter sido contratado por seis anos? E se ele, com a Holanda que está no nosso grupo, não conseguir a qualificação. Acha que o vão mandar embora?

- No futebol é normal que os responsáveis respondam pelos insucessos tanto quanto pelos sucessos. Sempre me pareceu ser essa a sua filosofia de trabalho.

- Não é normal não se ter tempo para desenvolver um projecto, seja num clube ou na selecção. E na selecção, se quer saber, temos um projecto e uma estrutura de pessoas para o levar a cargo. Eu acho que o projecto tem de ser mais importante que as pessoas e não depender delas, mas também entendo que em determinados momentos há pessoas que têm de dar a cara. É o que estou disposto a fazer. Quem lhe garante que mesmo que se verificasse o cenário que colocou, de insucesso na qualificação, não poderíamos ser campeões da Europa logo a seguir? São coisas distintas. Perder uma etapa - e não estou a pensar perdê-la, se quer saber - não significa logo que os jogadores não prestam e o treinador deixou de ser bestial para ser besta. Tem de se acabar com isso.

- O senhor é que dizia que esta geração não poderia ser considerada brilhante se voltasse a falhar, pela terceira e com certeza última vez, a presença num Mundial... Mas deixe-me fazer uma pergunta concreta: hoje já defende que o seleccionador nacional deve ser escolhido entre os treinadores com melhor currículo e provas dadas?

- Sempre achei.

- Então porque aceitou o convite há seis anos?

- Já na altura pensava que tinha um bom currículo.

- Não tinha os títulos que tem hoje...

- Porque não tinha passado pelos clubes que dão essa possibilidade [Oliveira foi jogador-treinador no Sporting no princípio da década de 80]. Só por isso. Com Fernando Santos no FC Porto e Inácio no Sporting já há mais dois treinadores que chegaram a campeões. É fácil.

- Que meta para o próximo Mundial? Fazer “o melhor possível”, como lhe pediu publicamente Gilberto Madaíl?

- Ganhar, sempre ganhar! Eu só penso em ganhar. Primeiro vamos apontar à qualificação e depois logo se preparará a fase final. O treinador e os jogadores de Portugal já interiorizaram essa ideia e a ambição de ganhar contra qualquer adversário.

- Hoje, quatro anos depois de ter deixado a selecção, acha que ela cresceu e tem outro “estofo”?

- Sem dúvida. Em todos os aspectos. Os jogadores cresceram e a equipa com eles. Há um sistema adquirido e apreendido por todos. Rotinas que se conhecem de olhos fechados. Só ainda não consegui perceber porque falhámos a qualificação para o França-98.

- Talvez Artur Jorge tenha alguma ideia disso. Diga-me: acha que a equipa portuguesa joga hoje de maneira substancialmente diferente daquela que foi instituída por si entre 1994 e 1996?

- Não, não joga. O sistema é o mesmo. E isso é o reconhecimento de que esse sistema era e é aquele que melhor se coaduna com as características dos melhores futebolistas portugueses.

- Ainda hoje?

- Ainda hoje.

- Humberto Coelho introduziu na fase final, com Nuno Gomes (depois da lesão de Sá Pinto e também devido ao castigo de Pauleta), uma alteração significativa: a do ponta-de-lança que joga fixo na área. Como vai gerir esta situação levando em conta que Nuno Gomes está agora castigado cinco meses e Pauleta, porventura, continuará não sendo titular na equipa campeã de Espanha (o Deportivo da Corunha)?

- O ideal era poder contar com todos e sendo todos eles titulares nos respectivos clubes. Um seleccionador prefere sempre jogadores com ritmo de jogo, como é natural.

- Voltemos à questão da equipa nacional com ponta-de-lança...

- Sempre jogámos com ponta-de-lança. A verdadeira questão é a das características dos jogadores. Antes do Nuno Gomes jogávamos com o Sá Pinto. E, como são jogadores bastante diferentes, a equipa jogava diferente. Só isso. Mas em relação ao Nuno Gomes sempre lhe digo que foi um miúdo que eu lancei, num jogo em Paris, contra a França, já a prepará-lo, porque sabia das qualidades e características dele.

- Não o surpreendeu, portanto, a boa prova dele no Europeu...?

- Mesmo nada.

- Outra das questões relacionadas com esta equipa, de resto visível no derradeiro jogo do Europeu, contra a França, é a da renovação dos “trincos”, “distribuidores” ou médios-centros, como lhe preferir chamar. Paulo Sousa anda muito apoquentado por sucessivos problemas físicos; Paulo Bento já dobrou os trinta anos; Costinha e Vidigal são essencialmente recuperadores de bola. Como vai gerir este quadro? É um problema?

- Não. Como se costuma dizer agora, é um problema bom. O futebol português tem muitos jogadores com qualidade para essa posição. Vai ver que tem.

- Quando vai começar a olhar para o bilhete de identidade e a pensar em 2004?

- Não penso em 2004. Para isso está aí o ministro, o secretário de Estado, o presidente da FPF, e muita outra gente...

- Mas há um momento, quando tudo estiver preparado, que vai ser preciso haver uma equipa para corresponder à expectativa das pessoas. É só para isso que se fazem planos e depois se erguem estádios e outras infra-estruturas. Quando é que...?

- [Oliveira interrompe decidido] Essa renovação da equipa faz-se gradual e normalmente. Já viu a quantidade de jovens futebolistas com valor que têm aparecido? O Nuno Gomes, o Beto, o Vidigal... E os que estão à porta? Há gente que ficou de fora do Europeu e tem valor para ir entrando com o decorrer dos anos, sem sobressaltos. Em 2004, esteja toda a gente descansada, Portugal vai ter uma boa equipa. Não estou nada preocupado.

"HOLANDA É UMA EQUIPA PODEROSA E A REP. IRLANDA ESTÁ EM RENOVAÇÃO"

“A Holanda e a República da Irlanda são os nossos adversários directos na qualificação para o Mundial-2002, mas convém não esquecer que às vezes são outras equipas, teoricamente “outsiders”, que criam os desequilíbrios. O Chipre, por exemplo, ganhou à Espanha na fase de apuramento do último Europeu. A própria Estónia, pelos dados que tenho, evoluiu muito. Só Andorra, obviamente, está a um nível completamente diferente. É evidente, contudo, que o nosso grande opositor é a Holanda, uma das equipas europeias mais poderosas. Tem um processo de jogo simples e eficaz. Toda a gente viu o azar que tiveram na meia-final com a Itália, no Europeu. É uma coisa que só acontece de 100 em 100 anos falhar tantas grandes penalidades num só jogo. Os irlandeses estão num processo de renovação, iniciado após o Mundial de 1994 e são uma equipa perigosa, que pode intrometer-se no apuramento directo. Convém não facilitar.”

"HUMBERTO COELHO FEZ UM EXCELENTE TRABALHO E PORTUGAL TEVE JOGOS INESQUECÍVEIS"

“Portugal e Humberto Coelho fizeram um excelente trabalho. A selecção galvanizou o País, jogou bonito e conseguiu resultados. Sobretudo valorizo as vitórias com a Inglaterra e a Alemanha. Independentemente do que se quiser dizer sobre o actual momento desses dois países, são duas grandes selecções do futebol mundial. E Portugal venceu com clareza a Alemanha, equipa que vulgarizou, e fez uma recuperação espantosa contra a Inglaterra, depois de estar a perder por 2-0. São jogos históricos, daqueles que não se esquecem. Eu não fiquei surpreendido com o rendimento da selecção. Sei muito bem o que podem valer os jogadores. Acompanhei o Campeonato da Europa no terreno, na Holanda e na Bélgica, e também me pude aperceber do respeito que a qualidade da nossa equipa angariou. Não é por acaso que nos designam amiúde de brasileiros da Europa.”

"NA ALTURA NÃO ME PARECEU MAS ABEL XAVIER FEZ 'PENALTY'"

“Lá no estádio, numa primeira análise, deu-me a impressão de que Portugal estava a ser vítima de uma grande injustiça [no lance que originou a marcação da grande penalidade e posterior eliminação nas meias-finais do Europeu, com a França]. Visto depois o lance na televisão, no mesmo ângulo em que o viu o árbitro auxiliar, é ‘penalty’. Indiscutivelmente. Abel Xavier meteu a mão porque a bola entraria na baliza. O que não é vulgar, e por isso protestámos, é a decisão vir do auxiliar. Podemos, depois, especular sobre se o lance seria sancionado se, por acaso, tivesse acontecido na outra grande área. Se. Sempre se. A verdade é que já tive oportunidade para conversar com pessoas da FIFA que me garantiram que a decisão seria igualmente rigorosa fosse qual fosse a equipa penalizada. Quero acreditar nisso e não pensar que fomos descriminados por a França ser um País mais poderoso. E, agora, há que olhar em frente.”

"PROFISSIONAIS TÊM DE SABER LIDAR ATÉ COM A INJUSTIÇA"

“Os castigos da UEFA aos nossos jogadores [Abel Xavier, Nuno Gomes e Paulo Bento] parecem-me demasiado rigorosos e, até, algo injustos. Quanto às reacções dos jogadores, devo dizer que a compreendo. É duro cair assim numa altura em que se sonha com tudo. Uma grande penalidade naquelas circunstâncias, a um minuto do fim do prolongamento, é algo bastante duro. Se até o espectador se revolta e reage com emoção, que dizer de um jogador que anda lá dentro, cansado, exausto, sujeito a um desgaste competitivo enorme e com consequências anímicas? Só quem já praticou desporto de alta competição pode saber como uma decisão daquelas afecta um jogador e uma equipa. É um instante doloroso em que se vê ruir todos os sonhos. Por isso digo: compreendo Só não é compreensível a reacção depois do árbitro ter terminado o jogo. Os profissionais têm de saber lidar com tudo, até com a eventualidade da injustiça.”

"TEMOS DE COMEÇAR A SER OS PRIMEIROS"

“Os nossos jogadores não atingiram o máximo. Estão agora a chegar ao apogeu das respectivas carreiras, que, exceptuando os mais precoces, se atinge entre os 26 e os 30 anos. Podem ainda ir mais longe, atingir índices de rendimento superiores. Até por isso temos de continuar a fazer da selecção um espaço de afirmação. Estou cansado de ouvir dizer que somos os melhores. Temos de começar a ser os primeiros.”

"FIGO TEM DIREITO A PENSAR NO FUTURO"

“A passagem de Figo do Barcelona para o Real Madrid é uma coisa natural. Muita gente o criticou por isso, mas sem qualquer razão. Ele é um profissional que dá o melhor e procura as melhores condições. Tem direito a procurar salvaguardar o seu futuro, tal qual o fez quando trocou o Sporting, o clube do coração dele, pelo Barcelona. Na transferência até os direitos do Barcelona foram salvaguardados. Que mais se queria?”

"JARDEL É DOS MELHORES AVANÇADOS DO MUNDO"

“Não sei de Jardel faz falta ao FC Porto. Isso tem de ser perguntado ao treinador do clube. Posso é dizer o que penso dele como futebolista: o Jardel é dos melhores avançados do mundo a jogar na área. É um finalizador nato. Um homem que não treme no momento decisivo. Um ‘assassino’ do golo. Como treinador gostava de o ter em todas as minhas equipas. E acredito que haja mais gente a pensar assim.”

"DISPENSA DE JOÃO PINTO É UMA COISA NORMAL"

“A dispensa de João Vieira Pinto pelo Benfica surpreendeu-me, é certo, mas esse é um direito legítimo da entidade patronal. Se formos analisar a situação do ponto de vista do profissionalismo, da exigência, da legalidade, etc., está tudo certo. É um caso normal em vários países, que só agitou os adeptos portugueses porque não é normal entre nós. Em Itália isso é corriqueiro e feito com regularidade.”

"NUNCA MAIS ENTREI NAS ANTAS"

“Claro que o FC Porto continua a ser o meu clube. Mas também lhe digo que nunca mais entrei no Estádio das Antas a ver um jogo. Entendi, até talvez com exagero, que a minha presença poderia colocar um pouco de pressão em cima de outras pessoas e isso era a última coisa que queria. Se continuo accionista? Continuo, sim. Mas também tenho acções de outras sociedades desportivas. Quais? O Sporting, por exemplo.”

"TELEVISÃO E NOVAS TECNOLOGIAS VÃO REVOLUCIONAR O FUTEBOL"

“A televisão e as novas tecnologias, da Internet aos telemóveis, vão alterar as fontes de receita do futebol. Vão aparecer os grandes clubes vocacionados para a organização do espectáculo de qualidade superior, como nos Estados Unidos. Vamos deixar de ter o torcedor do garrafão, que insulta, agride, se manifesta permanentemente e está disposto a morrer pelo emblema. Será substituído, com vantagens, pelo amante do espectáculo, que aprecia, desfruta e vai à vida dele. Neste campo a revolução é irreversível. Isso começa a ver-se pelas estruturas que os clubes criaram, pelas transformações em sociedades desportivas, pelos melhoramentos dos estádios que, em Portugal, vão ser revolucionados pelo Euro-2004. No fundo, trata-se de transformar o futebol num espectáculo moderno, confortável, elevado. E, nesse futuro, quem tiver mais dinheiro continua a ter mais hipóteses de ganhar”

"SPORTING HONROU-ME COM UM CONVITE MAS A ALTURA NÃO ERA OPORTUNA"

“Sim, não nego: é verdade que fui convidado, em determinada altura, a meio da temporada, para treinador do Sporting. Honrou-me muito, mas, naquela altura, não era oportuno aceitar, não tinha disponibilidade, por diversas razões. Não se tratou de acreditar ou não no projecto, tratou-se de equacionar situações pessoais, de acabar outras coisas que tinha em mãos. E também não foi por me sentir preso a essa declaração [“em Portugal, só o FC Porto ou a selecção”, disse António Oliveira um dia], que proferi em determinado contexto e num tempo completamente diferente. Hoje reconheço que, como profissional, não me posso agarrar a esses conceitos. Um profissional tem de assumir sempre a camisola do projecto que abraça, do clube que representa. E sempre com a mesma seriedade e dignidade com que trabalharia no clube da sua simpatia. Por isso, se calhar, não deveria ter dito essa frase.”

"SELECÇÃO DEVE SER O ROSTO MODERNO DE UMA FPF LOCOMOTIVA DE FUTEBOL"

“Vim encontrar no departamento técnico um profissionalismo melhorado em relação há quatro anos, o que me apraz registar. Isso significa que todos os técnicos que, entretanto, passaram por esta casa [Artur Jorge e Humberto Coelho] acrescentaram algo. E, sobretudo, que se tem trabalhado bem na área tutelada pelo secretário-técnico, Carlos Godinho, um homem que colabora com o seleccionador há cerca de dez anos. Isso é importante. As instituições têm de avançar no tempo, independentemente das pessoas que as servem. Congratulo-me com isso e procurarei, pela minha parte, prosseguir o trabalho que aqui deixei consubstanciado em documentos. Acho que a selecção deve ser um rosto cada vez mais moderno e organizado de uma FPF que tem de se assumir de uma vez por todas como a locomotiva do futebol nacional. Isso é o normal em qualquer país da Europa. Também tem de ser assim em Portugal.”

"CASO-PAULA MEXEU COM A FAMÍLIA MAS NÃO SOU PESSOA DE RANCORES"

“O chamado ‘caso Paula’ é óbvio que mexeu muito comigo e com a minha família. Eu tenho mulher, tenho filhos na faculdade e em colégios. Ponha-se alguns segundos no meu lugar. Veja o que é ser acusado de uma coisa com a qual não se teve nada a ver, que se terá passado num dia de folga e que continuo a acreditar que não existiu, porque não vi, não sei, nem quero saber! O que quis saber, isso sim, é da minha honra e da dignidade da minha família. Por isso coloquei a acção à SIC. Tudo se resolveu em sede própria e agora, por mim, o caso está encerrado. Não sou pessoa para ficar a olhar para o passado. O que vou fazer aos sete mil contos de indemnização? Isso não me interessa, não faço ideia. O importante nunca foi o dinheiro; foi, isso sim, a possibilidade de voltar a andar na rua de cabeça levantada. Mas, olhe, já que me fala nisso, sou capaz de o gastar em dois projectos bonitos que tenho e dos quais hei-de falar”

"RELAÇÕES ÓPTIMAS COM PINTO DA COSTA MAS PRECISAVA DE TEMPO PARA A FAMÍLIA"

“As minhas relações com o presidente do FC Porto, Pinto da Costa, continuam óptimas, embora eu saiba que se especulou sobre isso depois da minha saída das Antas. As pessoas não quiseram acreditar na explicação simples que dei: tinha um problema familiar delicado a resolver, que envolvia um dos meus filhos. Precisava de tempo e a minha família está acima de tudo. Hoje voltava a fazer a mesma coisa. Aliás, a decisão precipitada de ir para Espanha, para o Bétis, teve a ver com esse mesmo problema. Até iria para a China!!! Estive só 23 dias em Sevilha? Olhe, se calhar até estive tempo demais. Percebi que o presidente [Manuel Luiz Lopera, um dirigente polémico em Espanha e também de más relações com os jornalistas] não queria um treinador. Queria apenas um empregado para fazer o que ele decidia. E para isso o António Oliveira não serve. Não sou “capacho” de quem quer que seja”

"COMECEI A GOSTAR DE ARTE EM COIMBRA COM VÍTOR CAMPOS E MANUEL ANTÓNIO"

“A minha apetência para coleccionar arte tem sido muito especulada, de diversas formas e em vários órgãos de comunicação social. É claro que gosto de arte. Tenho, até, uma filha que pinta. Comecei, aliás, a gostar de arte muito cedo, em Coimbra, com o Vítor Campos e o Manuel António [dois antigos e brilhantes jogadores da Associação Académica de Coimbra, um dos quais, Manuel António, chegou a jogar no FC Porto, tendo ambos chegado a internacionais]. É uma coisa muito pessoal, em que me revejo, e que não persigo por investimento e à qual não gosto de dar relevo público. É uma coisa pessoal, não para ser exibida. Quanto ao resto, tomara ter dinheiro para ter mais algumas coisas de que gosto e que vou encontrando de vez em quando. Não nego que gosto de pintura, escultura, que me relaciono com artistas. Faço-o porque eles têm também a amabilidade de debelar a minha ignorância”

Deixe o seu comentário
Newsletters RecordReceba gratuitamente no seu email a Newsletter Geral ver exemplo
Ultimas de Competições de Seleções
Notícias
Notícias Mais Vistas