Mundial 91: O «foguete» de Rui Costa

O TREINADOR da Austrália prometera muitas dificuldades, mas a maior parte dos 112 mil espectadores presentes na Luz, na noite de 26 de Junho de 1991, não acreditava muito nisso. Momentos antes da meia-final do Mundial de Juniores, entre Portugal e Austrália, todos acreditavam num triunfo mais ou menos fácil. Um optimismo justificado pela ausência de tradição futebolística dos australianos, mais apaixonados por râguebi e pelo seu futebol local (semelhante ao norte-americano, mas sem capacetes...).

Mas foi um jogo terrível, de nervos, até pelo encaixe táctico quase perfeito. Ainda assim, aproveitando algum “encolhimento” australiano (confirmou-se a ideia de que os jovens jogadores se iriam impressionar com o ambiente), Portugal conseguiu pressionar, embora os laterais Abel Xavier e Paulo Torres não tivessem grande liberdade. Mas Rui Costa e Figo, a meio campo, esforçavam-se por produzir jogadas de ataque, com João Vieira Pinto a municiar a dupla Gil-Toni. Só que o perigo rareava e foi preciso um notável remate de fora da grande área, assinado por Rui Costa, para a Luz entrar em “erupção”. Um autêntico “foguete” a dar início à festa...

No segundo tempo, Portugal “adormeceu”, permitiu o avanço australiano e optou por controlar o jogo “à distância”, o que lhe poderia ter custado caro, a dois minutos do final: valeu a excelente defesa de Brassard, ao remate de Trajanovski.

Classe brasileira

No mesmo dia, mas em Guimarães e um pouco mais cedo (18.30, enquanto Portugal jogou às 21.30), Brasil e União Soviética decidiram o outro finalista. Antes do encontro, o seleccionador Ernesto Paulo disse que os brasileiros iriam jogar “à Tyson”, numa alusão ao pugilista norte-americano. A ideia era pressionar logo de início e foi mesmo isso que sucedeu: aos 20 minutos, já o Brasil vencia por 2-0. Golos de Marquinhos (15) e Castro (18), com os soviéticos atónitos e sem reacção. E Élber (32) estabeleceu o resultado final (3-2).

Peixe recorda...

“Saudades e nostalgia há sempre, até porque esse Mundial foi um dos momentos altos da minha carreira, talvez mesmo o mais alto. Por isso, lembro-me sempre do aniversário desse Campeonato do Mundo, que foi o culminar de um magnífico trajecto que fizemos desde os 14 anos. Nessa altura, conseguimos mostrar que tínhamos bons jogadores e bons orientadores técnicos. Carlos Queiroz e restantes elementos da equipa técnica souberam gerir e motivar os jogadores, no dia-a-dia de um estágio longo. O segredo estava nessa concentração de miúdos de 19 anos, essa foi a pedra principal do sucesso... Esse título mundial de Sub-20 foi uma rampa de lançamento, em especial para mim, que fui eleito melhor futebolista da competição. Isso abriu-me as portas da equipa sénior do Sporting e, a partir daí, prosseguiu a minha carreira, também com algumas lesões, infelizmente. Mas as partes positivas ultrapassaram as negativas.”

Estrelas em ascensão

BRASSARD

Fernando José Alves Brassard, filho do também guarda-redes António Brassard (fez parte da Académica, nos anos 60), foi fundamental na conquista do título. Formado no Benfica, estava emprestado ao Louletano, mas os encarnados, na época seguinte, colocaram-no logo na I Divisão, no Marítimo. Seguiu-se o Gil Vicente, no qual foi titular indiscutível, prosseguindo no Vitória de Guimarães e, de novo, no Gil. Em 1995/96 e 1996/97, foi integrado nos seniores do Benfica, mas cansou-se de ser suplente e rumou ao Varzim. Há três épocas que actuava no Vitória de Setúbal, mas decidiu abandonar, aos 29 anos, após lesão.

PATRICK ANDERSSON

Formado no Malmö, um dos principais clubes suecos, o médio Patrick Andersson estreou-se nos seniores em 1989, ano em que completou 18 anos. Em Portugal, jogou os três encontros completos, mas como a Suécia foi afastada na primeira fase não se evidenciou. Em 1992/93, ingressou no Blackburn Rovers (Inglaterra), mas, um ano depois, já estava no Borussia Moenchengladbach, no qual se manteve nas cinco épocas seguintes. Tempo suficiente para se afirmar e assinar pelo Bayern, em 1999/2000. Esta época, marcou o golo que deu o título alemão ao Bayern, já no derradeiro minuto.

Figo agradado com exibição apesar do sofrimento

No final do jogo, Figo estava satisfeito com a exibição e explicou: “Já sabíamos que seria assim. A Austrália é difícil, e nós fizemos um jogo inteligente, numa meia-final. Soubemos dar tempo ao tempo e o golo veio merecidamente.”

Rui Costa feliz com golo notável

O autor do tento decisivo, Rui Costa, estava eufórico, o que foi até bem visível pela forma “louca” como festejou: “Foi um momento de inspiração, um golo que eu já merecia há muito tempo. Driblei o adversário, olhei, vi uma abertura entre os defesas, tentei, arrisquei e saiu-me bem!”

João Vieira Pinto com problemas de audição

Não era uma questão de saúde, mas sim de barulho intenso, a que afligia João Vieira Pinto. Quando lhe perguntaram pelo apoio do público, respondeu: “Claro que nos anima (...), mas também temos dificuldade em comunicar dentro do campo, porque não se houve nada.”

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