Arbitrariedade da FIFA põe em causa a transparência das eleições para a presidência do CAF

Em causa as candidaturas do sul-africano Patrice Motsepe e do mauritano Ahmed Ould Yahya

Constant Omari, Fatima Samoura, Gianni Infantino e Ahmed Ould Yahya durante a inauguração do Estádio Sheikha Boydia, na Mauritania, em janeiro de 2019.

A intervenção da FIFA foi essencial para que dois líderes próximos do presidente Infantino, o sul-africano Patrice Motsepe e o mauritano Ahmed Ould Yahya, recebessem o sinal verde para serem oficialmente candidatos à presidência da Confederação Africana do Futebol (CAF) nas eleições que se realizam no dia 12 de março, em Rabat, Marrocos. As respetivas candidaturas avançaram apesar do comité local encarregue de validar todos os candidatos (o costa-marfinense Jacques Anouma e o senegalês Augustin Senghor também concorrem ao ato eleitoral) ter questionado a integridade das listas sul-africana e mauritana.

O Comité de Revisão da FIFA substituiu o Comité da CAF a pedido do seu presidente interino, o congolês Constant Omari, isto um dia depois do referido organismo ter colocado Yahya e Motsepe em ‘quarentena’, acabando, depois, por validar as suas candidaturas fora do prazo estabelecido pelo regulamento eleitoral.

O líder mauritano foi um dos presidentes africanos que participou numa viagem de lazer em peregrinação a Meca, em 2018, viagem essa que foi financiada com fundos do CAF. Esta situação originou o afastamento do ex-presidente da CAF, Ahmad Ahmad, que teve também de enfrentar uma suspensão de cinco anos para cargos relacionados com o futebol. O malgaxe ofereceu o ‘presente’ aos amigos e usou o dinheiro do CAF para pagar a maior parte da viagem. Yahya, no entanto, não enfrentou qualquer tipo de condenação por ter aceite o ‘brinde’.

Ahmad Ahmad e Constant Omari a bordo de um jato privado encabeçando una delegação de funcionários da CAF e convidados VIP (entre eles, Samuel Eto'o)
Por sua vez, o bilionário sul-africano Motsepe convidou recentemente os 54 presidentes das associações filiadas à CAF a participarem nas comemorações dos 50 anos do seu clube, Mamelodi Sundowns, na cidade de Pretória, pouco antes das eleições presidenciais em Rabat. De acordo com os regulamentos eleitorais da FIFA, este tipo de convites enquadram-se na categoria de incentivos ou presentes e constituem uma violação do código de ética.

O Comité de Revisão da FIFA, ao invés, decidiu remover o presidente em exercício, Omari, de modo a renovar a sua posição no Conselho Executivo do órgão suíço. O braço direito do ex-presidente Ahmad continua a ser investigado pelo Comité de Ética da FIFA devido ao seu interventivo papel, juntamente com o malgaxe, na inexplicável decisão da CAF de assumir a dívida de 20 milhões de dólares que a agência desportiva do Benin, LC2 GROUP, teve com a multinacional francesa Lagardere Sports, esta última responsável pela exploração dos direitos de comercialização e televisão do futebol africano.

Omari assumiu o comando da CAF, temporariamente, no final de novembro, após Ahmad ter sido suspenso das suas funções pela FIFA. Omari, então primeiro vice-presidente, foi nomeado como sucessor de Ahmad, isto apesar da sua imagem também estar ‘beliscada’ devido ao seu envolvimento em vários casos criminais.

A FIFA, paradoxalmente, ‘saltou’ o protocolo de não comentar, explicar ou confirmar as investigações que o Comité de Ética está a realizar, por ser um órgão independente. De facto, ao revelar que tais investigações estão relacionadas com um caso de suposta corrupção financeira, a FIFA excecionalmente colocou de lado a máxima de que os investigados são inocentes até que a Justiça os considere culpados. Fê-lo, sem ir mais longe, com o ex-presidente Ahmad durante os mais de dois anos em que foi objeto de investigação.

 A queda inesperada (ou pelo menos tardia) de Omari não é o primeiro caso em que a FIFA usou os seus processos éticos para fins políticos durante a era Infantino, embora seja certamente o mais significativo. Anteriormente, a FIFA também puniu o ex-presidente liberiano Musa Bility com 10 anos de suspensão e uma multa de 500 mil dólares por peculato e por beneficiar financeiramente da sua posição no Comité Executivo da CAF, apenas dois dias depois de Bility anunciar publicamente que apelaria ao Tribunal de Arbitragem do Desporto (TAS) sobre a decisão da FIFA de intervir na administração da CAF por um período de seis meses.

O ex-presidente da CAF, Ahmad Ahmad (a partir da esquerda), junto a Idriss Akki, diretor geral da Lagardère, e Hany Abou Rida, presidente da Federação egípcia, durante a peregrinação a Meca, em 2019.
Também foi surpreendente a exclusão do presidente da Federação da Argélia, Khaireddine Zetchi, da candidatura ao Conselho da FIFA, por ter omitido as sanções que tanto a Liga de Futebol Profissional daquele país como a CAF lhe impuseram há alguns anos. O então presidente do clube argelino Paradou AC foi suspenso durante três meses, em 2016, devido a declarações consideradas ofensivas contra o ex-presidente da LFP, Mahfoud Kerbadj, e à arbitragem argelina. Dois anos depois, a CAF sancionou-o pelas críticas ao deposto presidente Ahmad.

Tudo parece indicar que Omari, um líder experiente e polémico com muito peso nas altas esferas do futebol africano e sobre quem recaem acusações tão graves - como ter pago com fundos da CAF o funeral de sua falecida esposa, ou as despesas de viagem e hospedagem de numerosos convidados VIP em Kinshasa (República Democrática do Congo) para assistir ao casamento da filha – estava isento de seguir as orientações que de Zurique, como aconteceu com Ahmad, para manter alinhadas as 54 federações que compõem a maior Confederação de futebol e, portanto, as mais decisivas na escolha do xerife da FIFA.

Resta saber ainda qual é a posição que adota a FIFA com o resto do núcleo duro do ex-presidente Ahmad (o egípcio Hani Abou Rida, o marroquino Fouzí Lakjaa e o tunisino Wadi Al Jari), levando em consideração que os três foram investigados pelo Comité de Ética durante três anos devido ao seu envolvimento direto em casos de corrupção, violação de conduta e abuso de poder, muitos deles detalhados (casos 'Lagardère', 'LC2' e 'Tactical Steel', entre outros) no relatório que a consultoria britânica PricewaterhouseCoopers (PwC) fez no final de 2019, auditoria essa que foi pedida pela FIFA para analisar de forma independente as contas e a administração da CAF.

Enquanto isso, o Tribunal Arbitral do Desporto (CAS) atirou mais lenha para a fogueira do futebol africano ao suspender provisoriamente a execução da sanção imposta pela FIFA contra Ahmad. Em decisão polémica, o órgão sediado em Lausanne admitiu o recurso interposto pelo ex-presidente da CAF, dando-lhe a oportunidade de se candidatar à reeleição à frente do futebol africano caso a sentença final, marcada para 2 de março, seja favorável aos seus interesses, estando assim exonerado das acusações que lhe são imputadas.

O Comité de Ética da FIFA determinou que o malgaxe violou o seu dever de lealdade, deu presentes e outros benefícios, administrou mal fundos e abusou da sua função de presidente do órgão dirigente do futebol africano. Ficou obrigado a pagar uma multa de 185 mil euros.

Autor: David Fernandez

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