Bruno Baltazar após experiência em Nottingham: «Sinto-me um treinador mais rico»

Técnico português faz balanço e traça objetivos para a carreira

• Foto: Fernando Ferreira

Bruno Baltazar fez uma retrospetiva da ainda curta carreira a Record depois de findada a experiência enquanto treinador-adjunto no Nottingham Forest, começada em 2019. O técnico português, de 42 anos, já foi campeão no Chipre e tem agora como objetivo trabalhar na Primeira Liga portuguesa e também numa das cinco melhores ligas europeias.

RECORD – Que balanço faz da experiência em Inglaterra?

BRUNO BALTAZAR – Foi uma experiência fantástica. Era um objetivo de carreira e continua a sê-lo: trabalhar em Inglaterra. Foi uma decisão muito ponderada porque já era treinador principal e voltei a ser treinador-adjunto, algo que não fazia parte dos meus planos. Tive, depois do Estoril, algumas propostas de Portugal e no estrangeiro para voltar a ser treinador principal. Tive de ponderar e tomar uma decisão, indo para um campeonato fascinante e para um clube grande, histórico em Inglaterra e a nível mundial. Dei um passo atrás em termos de cargo mas será útil para o futuro, para dar depois dois à frente. Tive uma experiência num campeonato forte como o Championship.

R – Sente que evoluiu neste tempo passado em Inglaterra?

BB – Completamente. Conhecendo agora o contexto inglês, estou muito mais rico enquanto treinador. Fiquei com essa convicção e certeza. Não estou nada arrependido pela decisão tomada. Não estou nada arrependido. Foi rico para a minha carreira e para o meu futuro.

R – Sente que é o melhor futebol para se estar?

BB – É sem dúvida o mais fascinante. Se calhar não são os jogos mais bem jogados em termos técnico-táticos. Mas, por toda a envolvência, sem dúvida que é o melhor país para se trabalhar. Próximo disto só na Alemanha e Espanha, mas Inglaterra está no topo. Valorizo o facto de ter estado no Nottingham Forest, um clube rico em termos de currículo. É um dos poucos clubes ingleses com títulos europeus. Tem muito peso no futebol mundial.

R – Consegue perceber o que correu mal já esta temporada no Forest?

BB  - Em 2019/20 fizemos uma época completa. Há vários anos que um treinador não começava e terminava a época. A época acabou de forma dramática mas não deixa de ser a melhor da última década. O Forest havia oscilado sempre do meio da tabela para baixo, lutando para não descer. A época passada estivemos até ao último instante a lutar por uma zona de playoff. Infelizmente, na última jornada e por um golo, não conseguimos esse objetivo. Não deixou de ser uma época positiva. Fica um sentimento agridoce por não ter conseguimos. Esta época, com a Covid-19 e na transição de uma época para a outra, houve algumas mudanças. Não começámos da melhor forma e não conseguimos os resultados pretendidos. Foi tomada a decisão de trocar a equipa técnica. Ninguém pode apagar a época fantástica que fizemos em 2019/20. Teve um grande impacto em Inglaterra e entre os nossos adeptos, que são muito exigentes.

R – O futuro passa pelo estrangeiro ou por Portugal?

BB – Na semana que antecedeu o último jogo em Nottingham, recebi uma proposta extremamente interessante em termos financeiros de um clube da Arábia Saudita. Os timings no futebol não são quando escolhemos. Respeito o Forest porque fui muito bem tratado. Nunca na vida quereria forçar uma saída num momento delicado como aquela semana. Tive de rejeitar a proposta. Ainda estava contratualmente ligado ao Forest. As coisas não aconteceram. Estou livre. Estou aberto a propostas no aspeto financeiro mas sobretudo no aspeto desportivo que é muito importante para mim. Tenho feito a minha carreira de forma sustentada, sem medo de dar passos atrás para dar depois à frente. Portugal será sempre o meu país e o meu objetivo. Li uma peça há pouco tempo que mostra que são 10 os treinadores portugueses que já venceram ligas europeias, que não a portuguesa. Estou nessa lista restrita entre Mourinho, Vítor Pereira, Paulo Fonseca e Marco Silva. Eu e Paulo Sousa somos os únicos que ainda não treinaram em Portugal. Estive para trabalhar em clubes da 1ª Liga mas acabou por não acontecer. Sei que vai acontecer. Agora, é um objetivo trabalhar em Portugal. Quero dar um passo seguro e abraçar um projeto sólido, onde possam reconhecer o meu trabalho.

R – Para quem não o conhece, quais são as suas ideias de jogo?

BB – Tenho o meu modelo de jogo bem formulado que terá de ser adaptável aos contextos em que trabalhamos. A minha ideia de jogo tem dado alguns resultados com a subida de divisão no Sintrense, a chegada inédita à fase de playoff com o Casa Pia, o título no APOEL, o apuramento para a fase de qualificação com o AEL Limassol… Tudo isto foram elementos que me enriqueceram enquanto treinador, podendo trabalhar a minha ideia e o meu modelo de jogo. Gosto de equipas ofensivas e agressivas, organizadas no processo defensivo e também sem bola. Gosto de equipas que tenham bola e qualidade de jogo. De uma forma romântica, claro que sinto a importância do resultado e sei que as equipas têm de ser pragmáticas. Tem de haver uma adaptação constante tendo em conta os adversários e contextos.

R – Tem referências como treinador?

BB - Tenho algumas, não idolatro treinadores pela forma de trabalhar ou jogar. Tiro o bom e mau de todos, foi assim durante a minha carreira de jogador mas também em relação ao que vejo. Tive a oportunidade de viajar e viver contextos diferentes. As minhas referências são treinadores que tiveram carreiras semelhantes à minha, começando por baixo. Falo de Leonardo Jardim, Paulo Fonseca, Marco Silva ou Rui Vitória. São treinadores que subiram a pulso e foram construindo a carreira, passo a passo. Passaram por vários patamares no futebol português. Eu comecei na terceira divisão. Subi, estive na II Divisão B, no Campeonato de Portugal quase subi à 2ª Liga. Treinei na 2ª Liga. Já fui campeão num campeonato europeu [Chipre]. Tenho mais de 10 jogos em competições europeias. Não posso deixar de falar em José Mourinho porque foi o impulsionador, ele mudou a nossa forma de pensar e o que é o treino. Foi ele o grande responsável.

R – O objetivo de carreira é treinar numa das melhores cinco ligas europeias?

BB – Sim. É onde gostaria de trabalhar. Foi esse um dos objetivos de ir para Inglaterra e para o Forest. Esta passagem no meu currículo só me irá enriquecer por ter conhecimento de causa do contexto inglês. É muito complicado entrar em qualquer destes campeonatos mas também há outras ligas como a belga ou a holandesa que podem servir de porta para estas ligas mais competitivas. As coisas têm acontecido e corrido de uma forma positiva nesta fase de aprendizagem e experiência. Falo quatro línguas e adapto-me facilmente como me adaptei. Trabalhei no mundo árabe e já tive uma experiência no início de carreira nas Filipinas. Adapto-me e tenho a intenção de enriquecer-me como treinador e também na parte humana. As duas coisas são indissociáveis.

Por Flávio Miguel Silva
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