O futebol de amanhã descoberto hoje: como Granero aplica a Inteligência Artificial

Empresa de ex-jogador do Real Madrid prevê cenários a clubes e atletas

Gostaria de saber o que lhe vai acontecer amanhã, no próximo mês ou daqui a um ano? No desporto, mais concretamente no futebol, já é possível prever o futuro com uma elevada percentagem de acerto através da Inteligência Artificial (IA). Esteban Granero, ex-jogador do Real Madrid e atualmente no Marbella, da 2ª Divisão B espanhola, percebeu que a ciência podia ser uma forma de antecipar cenários e ajudar a tomar decisões. Aos 32 anos, é o fundador e diretor da empresa Olocip.

"Quando estava a jogar na Real Sociedad, há cerca de cinco/seis anos, via as deficiências que havia no meu clube, e nos outros, no tratamento da muita informação que recolhíamos. Investiguei e fui falar com catedráticos da Universidade Politécnica de Madrid e descobrimos que se podiam fazer análises sem serem apenas descritivas. Ou seja, mais do que recolher informação e ver o que já aconteceu, podíamos saber, através da Inteligência Artificial e dos dados, o que vai acontecer ou saber o que posso fazer para que aconteça o que eu quero que aconteça", contou o médio espanhol a Record.

De imediato, a pergunta obrigatória: como fazem as previsões? "O processo é semelhante ao que qualquer pessoa pode fazer, a diferença é que as pessoas têm uma capacidade milhões de vezes inferior às máquinas. E as máquinas, trabalhando de mão dada com as pessoas, conseguem esses resultados. A nossa empresa é composta em 90% por cientistas, catedráticos e personalidades importantes na Inteligência Artificial. Não são miúdos a brincar com estatísticas. Quando é feito um modelo preditivo, não o lançam se não o calibrarem. Se for uma análise de quantos golos vai marcar um jogador, a média de erro da previsão é de um golo a cada 14 jogos", explicou.

Granero

Este exemplo dado por Granero a Record é apenas uma das muitas utilizações da IA no futebol. "Fornecemos um serviço integral: preparação de jogos, scouting e direção desportiva e também no âmbito médico, porque usamos os dados físicos e médicos dos jogadores para prevenir as lesões antes que ocorram ou otimizar recuperações. E também trabalhamos em termos de negócios, marketing e ‘fan engagement’. Tudo o que seja suscetível de ser transformado em informação, podemos filtrar os dados e fazer previsões para que os clubes tomem melhores decisões", enumerou o jogador espanhol.

No que diz respeito a contratações, a Olocip consegue dizer com uma elevada eficácia, segundo o fundador, qual o jogador a escolher. "Imagine-se dois futebolistas que marcaram dez golos na época passada. E um clube quer contratar um deles. Primeiro: os golos dependem do contexto. Um pode marcá-los pelo Bayern, o outro na 2ª Divisão belga. E se queres contratá-lo para o Sporting de Braga, não quer dizer que vai marcar dez golos. Tem de adaptar-se a um novo campeonato, treinador, colegas de equipa, estilo de futebol… É um cálculo que a cabeça humana não consegue fazer e que a IA faz com precisão. O rendimento do jogador na época passada e anteriores, em termos de golos, assistências, fintas, remates, passes, etc., com que colegas, treinador, para que equipa vai e com que treinador e jogadores. Com essas informações, e depois de vermos como se adaptaram milhares de contratações às respetivas equipas, o modelo aprende a prever como se adaptará o jogador a um novo contexto. É um modelo multivariante em que a partir de X perguntas se consegue Y respostas. Há milhares de variáveis diferentes com essa informação", atirou. Esta é uma forma de resumir tudo isto. "Não é uma bola de cristal que diz se Mbappé vai marcar 15 golos no Real Madrid, mas pode dizer se tem 95% de probabilidade de marcar entre 14 e 16 golos. É matemática", reforçou.

E por falar em golos, pedimos um exemplo prático com Cristiano Ronaldo. "Fizemos um estudo para prever o seu rendimento no primeiro ano na Juventus em termos de golos e assistências. Acertámos. Se quiserem um prognóstico a cinco anos, também é possível. Só que no segundo ano acumula-se a margem de erro do primeiro e assim sucessivamente. A incerteza aumenta", defendeu.

Os clubes são os principais clientes, mas há outros públicos-alvo. "Fizemos relatórios para vários jogadores de uma forma gratuita e porque nos pediram. É natural que um jogador queira saber em que campeonato pode render mais, ou se está indeciso entre dois clubes e quer saber em qual se vai valorizar. Temos também uma ferramenta, chamada ‘La Pizarra’, para preparar os jogos em que o treinador pode ver qual o comportamento do adversário no relvado: onde vai receber a bola, onde poderá criar mais perigo… Os treinadores e analistas utilizam-no", atirou.

"A Inteligência Artificial vai ser o futuro do futebol porque permite… prever o futuro?", perguntámos a Granero. "Isto já é o presente, porque está a ser utilizado por clubes. No futuro, quem não usar esta tecnologia vai estar em desvantagem em relação aos outros", respondeu.

"Utilizo para saber se tenho o risco de lesionar-me"

Crente na eficácia da Inteligência Artificial, Esteban Granero fez questão de testá-la… em si mesmo. "Sim, tive essa curiosidade, principalmente em termos de lesões. Utilizo para saber se tenho risco de lesionar-me, porquê e o que posso fazer para evitá-las. Em termos de rendimento futuro, testei quando estava no Espanyol. Medi os golos e assistências que o programa previu e ficou-me a faltar apenas uma assistência. O número de golos foi o que estava previsto", garantiu a Record.

"Benfica está a trabalhar nesta direção"

A identidade dos clubes que apostam nesta tecnologia é sigilosa, mas Granero adiantou que não colabora com clubes portugueses. Pelo menos para já. "Começámos a comercialização só há um ano. Sabemos que o Benfica é o clube que está a trabalhar mais nesta direção com um laboratório de analítica. Pode ser que depois desta reportagem tenhamos a oportunidade de conversar com um clube português", desejou o espanhol, apostado em tornar esta tecnologia acessível para tudo e todos: "Temos um produto que não tem concorrência, mas queremos ir pouco a pouco. Oferecemos serviços muito económicos, não é muito caro. Queremos democratizar esta tecnologia, porque é uma ferramenta muito importante."

Por David Novo
Deixe o seu comentário

Últimas Notícias

Notícias
SUBSCREVA A NEWSLETTER RECORD GERAL
e receba as notícias em primeira mão

Ultimas de Internacional

Notícias

Notícias Mais Vistas

Copyright © 2019. Todos os direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Cofina Media S.A. Consulte a Política de Privacidade Cofina.