Paulo Duarte: «Quero continuar com uma seleção»

Em dois anos tornou-se um treinador respeitado no Burkina Faso, cuja seleção qualificou para a CAN, que hoje começa a disputar-se em Angola. Aos 40 anos, depois de ter começado a carreira na U. Leiria e de uma experiência no Le Mans, Paulo Duarte não tem dúvidas quanto ao futuro imediato.


RECORD - Estar na CAN é um sonho?

PAULO DUARTE - Sim, a nível pessoal é um sonho e para a classe dos treinadores portugueses um feito especial. É a primeira vez que vamos estar dois treinadores portugueses, eu e o Manuel José, e até podíamos estar três, com o Humberto Coelho. A nível de equipa, o Burkina Faso participa pela quarta vez, depois de já ter sido país organizador. É, sem dúvida, prestigiante para o país e para mim.

R - A estreia é precisamente amanhã, frente à Costa do Marfim. Que objectivos tem?

PD - Essencialmente para coroar estes dois anos de trabalho árduo, que foram excelentes, pois em 12 jogos ganhamos 10. Queremos dar continuidade a esse trabalho, sabendo que o grupo é dificílimo, é o "grupo da morte", porque apanhamos, infelizmente, duas das três melhores seleções de África que, para mim, são o Gana, Costa do Marfim e Egipto e vamos defrontar as duas primeiras, que depois até vão fazer o Mundial. Mas essa dificuldade é real e resta-me acreditar que no futebol tudo é possível. E se antes do sorteio, a meta era chegar aos quartos-de-final, hoje essa meta continua, sabendo que se a atingirmos será um feito incrível. Era como se fosse um título, pois seria sinal que uma das duas seleções que estarão depois no Mundial tinha sido eliminada por nós.

R - Chegar aos quartos-de-final é um objectivo realista, como diz, mas também porque acredita nos seus jogadores, na motivação extra que terão ao defrontar esses adversários referidos?

PD - Sem dúvida. Esse será, certamente, um dos pontos a nosso favor. As dificuldades poderão dar uma força extra para que a nossa equipa, que eu próprio considero de média qualidade no continente africano que conseguiu coisas fantásticas em dois anos. Temos um lote com três ou quatro jogadores de qualidade média/alta e os restantes de qualidade normal, mas que conseguiu tornar-se num grupo forte, unido e coeso. Hoje em dia, com essa humildade e pela qualidade que temos demonstrado nestes dois anos, somos uma equipa capaz de ganhar a qualquer adversário. Hoje sentimos que as outras equipas nos respeitam.

R - Nesses quase dois anos de trabalho, sente que os jogadores foram evoluindo e ganhando confiança no seu treinador?

PD - Muito. Era uma equipa indisciplinada, tacticamente e mesmo disciplinarmente, que normalmente contratava um treinador três semanas antes para preparar os jogos. Era um país onde era o ministro que convocava os jogadores e não o treinador. Foi difícil sentir aquilo que tinha. Toda a informação que me foi dada não existia, estava errada, desde os telefones dos jogadores aos próprios clubes onde eles jogavam. Tive de fazer uma pesquisa intensiva e quando assinei contrato pedi DVD's para conhecer a equipa, os jogadores, mas isso não existia, pelo que o trabalho foi redobrado. Cheguei a perguntar, como podia fazer a escolha dos jogadores se não os conhecia nem havia dados sobre eles. Passei, então, a ir vê-los jogar nos clubes.

R - Foi também um trabalho em que se foi impondo, fazendo ver aos jogadores que valia a pena confiar em si, pois não era mais um "biscateiro" - passe o termo - que estava ali a comandá-los?

PD - Penso que a minha vitória foi essa. Desde o primeiro dia o discurso foi esse: comigo, quem faz a equipa sou eu, comigo há regras e disciplina, comigo quem quiser caminhar em conjunto caminha, senão ou muda ou sei. Saíram 3, caminharam 25. Mesmo na auto-estima o trabalho foi grande, pois isso não existia. Da mesma forma na vertente táctica, pois a qualidade existe mas não havia disciplina. O futebol africano evoluiu muito nos últimos 5 anos, porque se é verdade que muitos jogadores saíram para a Europa, não é menos verdade que muitos deles são titulares nos clubes e jogam com regularidade.

R - Quando realizou o primeiro jogo e conseguiu a primeira vitória, acreditava que era possível apurar o Burkina Faso para a CAN e mesmo para o Mundial?

PD - Penso que a primeira vitória foi o suporte de toda a mudança que referi. Foi contra a Tunísia, na casa do adversário, o que era, à partida, impensável de conseguir, pois há 10 anos que a Tunísia não perdia em casa. Essa vitória catapultou a equipa em redor da disciplina e os jogadores sentiram que aquele era o caminho correcto, da igualdade de oportunidades e não mais a reserva dos amigos do ministro ou dos directores da federação.

R - Antes de partir para o Burkina Faso, a sua experiência, como treinador, havia sido apenas na U. Leiria. Foi a aposta certa, ter saído de Portugal?

PD - Estou satisfeito com o que consegui, mas no futebol nunca sabemos se o projeto que abraçamos é ou não a aposta certa. A incógnita na carreira de um treinador está sempre presente. Estamos dependentes do nosso trabalho, mas também de 25 jogadores, da sorte, do adversário, dos árbitros. O Burkina Faso foi, sem dúvida, a forma mais rápida de chegar longe nesta minha jovem carreira, que me abriu muitas portas, que me deu uma experiência de vida fantástica e que fez de mim um treinador respeitadíssimo em África.

R - Quando começou, como foi chegar a um país estranho?

PD - Foi difícil. Foi um choque chegar a África e estar num ambiente em que as condições de vida, o conforto e a qualidade eram nulos, em comparação com aquilo a que estava habituado, em que tudo parece velho, sujo, desorganizado. Foi difícil, também pela ausência da família, mas tive a felicidade de estar um mês junto com o grupo que foi crucial para todos. Aproveitamos as férias para fazer 4 jogos em 24 dias e conhecermo-nos melhor. Permitiu-me adaptar-me a África e o convívio e apoio dos jogadores foi importante. E, claro, os resultados, porque o que era uma dificuldade inicial transformou-se apenas numa experiência nova.

R - A conjugação do trabalho de seleção com o de clube foi complicado? A preparação semanal no Le Mans para o campeonato francês, tinha de ser, forçosamente, diferente da que tinha com a seleção do Burkina Faso. Como foi essa experiência?

PD - Essa situação aconteceu porque quando a oportunidade de treinar o Le Mans foi ao fim de ano e meio de trabalho na seleção e as coisas já estavam a funcionar plenamente, sobre rodas. O trabalho fundamental na seleção estava feito e tinha tudo controlado. Aceitei o Le Mans porque foi uma oportunidade única, depois de já ter rejeitado outros quatro convites, da Líbia, da Roménia, e então não podia recusar, pois era um clube francês que podia catapultar a minha carreira.

R - Quando pendurou as chuteiras de jogador e começou como treinador, era quase o homem de Leiria (11 anos como jogador e 2 como treinador). E de repente um salto imenso. Partiu sem medo?

PD - Sim. Posso dizer que sou uma pessoa que veio de um estrato social baixo e que facilmente me adaptei às dificuldades da vida e por isso sabia que facilmente me adaptaria a diferentes situações que pudessem surgir. O futebol é universal, mas nunca pensei um dia trabalhar em África e tão cedo numa seleção. Mas aceitei e não estou de forma alguma arrependido.

R - E depois da CAN?

PD - Estabeleci uma prioridade com a família que se prende com o trabalho num clube. No Le Mans a experiência, a nível familiar, foi penosa. Saí não só porque me foi exigido que ficasse apenas no clube a abandonasse a seleção do Burkina Faso - o que não iria fazer - mas também pelo que isso estava a custar à família. Na seleção estava ausente 20 dias mas depois passava outros 10 ou 15 em casa com a família. Estipulei que se puder, quero conciliar a vida profissional com a familiar e vou dar prioridade ao trabalho com uma seleção. Não sei se vou continuar no Burkina Faso. Sinto-me bem, sou respeitado, mas gostaria de avançar para outros horizontes.

R - Fala-se de clubes na Bélgica, por exemplo?

PD - Sim, tenho o Lokeren, no final da época. Tenho outro clube da Tunísia, mas lá está, gostaria de abraçar outro projeto de uma seleção, em África se puder ser, para depois ir disputar o Mundial.

«Num clube tudo é mais rápido»


R - Não deixa de ser curiosa essa paixão de trabalho numa seleção, quando cada vez mais os treinadores se queixam da falta de tempo e tantos outros condicionalismos impostos pelos regulamentos internacionais. A adrenalina do dia-a-dia não o atrai?

PD - Há tudo isso, sem dúvida, e um dos motivos porque fui para o Le Mans foi por causa dessa adrenalina, da competição semanal. A pressão é diferente, o dia-a-dia é diferente. No clube tudo é mais rápido, numa seleção há que aproveitar mais o tempo, apostar mais da proximidade pessoal. Obriga a um maior empenho no relacionamento humano e na vertente táctica. A maior parte das vezes estamos juntos apenas 72 horas e não podemos desperdiçar tempo.

R - O facto dos jogadores estarem em representação do país acaba por ajudar a ultrapassar esses hiatos de trabalho?

PD - Sim, a partir do momento em que eles ganham a vontade e o orgulho de representarem o seu país. Antes, quando cheguei, não havia esse espírito, mas hoje é diferente. Hoje, eles vão à seleção com orgulho de representar o país, pois sabem que o trabalho é amigo da vitória. Para eles, dizem-me, dos momentos mais felizes do ano são aqueles em que estão na seleção.

R - Mesmo que haja quem não pense assim.

PD - É normal. O Bancé, por exemplo, que é um avançado de grande capacidade e uma das grandes forças desta equipa, mas que não se dá bem com a disciplina e as regras. Foi várias vezes utilizado, mas temos mais dois grandes avançados, o Dagano, que foi apenas o melhor marcador do Mundo no apuramento para o Mundial, e o Kondé. São três grandes avançados que são vítimas do meu sistema, que é o 4x3x3 e têm de aguardar por oportunidades. O Bancé preferiu dar entrevistas dizendo que não estava satisfeito e a dias de começar o CAN agravou a situação com uma entrevista à televisão local que causou mal-estar entre os próprios companheiros. Eu não tenho problemas com o Bancé, ele é que tem problemas com a disciplina e com o grupo e é o próprio grupo que não o tolera.

R - Curiosamente, também chamou à seleção jogadores da U. Leiria...

PD - Sim, porque têm qualidade. O Ouattara, o Mamadou Tall e o Panandetiguiri foram confirmando nos últimos vezes que merecem estar no grupo.


«Argélia pode ser a surpresa»

R - Qual é a seleção favorita para vencer a CAN?

PD - Para mim são as do costume: Costa do Marfim, Egipto, Camarões (que está mais organizado depois da entrada do Paul Le Guen) e aquela que aposto será a grande surpresa da prova, a Argélia. O caminho para a final também dependerá do emparelhamento na fase de eliminação directa. Angola? Tem o factor casa a pesar em seu favor e também pelo grande treinador que está à frente da equipa, o Manuel José.

R - Depois de quase dois anos a trabalhar em África, acredita, pelo que conhece, que 2010 poderá ser o ano da afirmação do futebol africano, com a CAN e depois do Mundial na África do Sul?

PD - Pode e deve ser. É uma oportunidade única que África deve saber aproveitar. Até no Mundial poderá funcionar o factor casa, neste caso, continente africano. É, também, um desafio aos responsáveis políticos para poderem mostrar que um país como África do Sul pode organizar bem um Mundial.

«Costa do Marfim tem defesa frágil»


R - O seu primeiro adversário na CAN será a Costa do Marfim, que Portugal defrontará depois no Mundial. Que possibilidades tem a Seleção Nacional frente a esta equipa?

PD - Tem todas. Se eu e o Burkina Faso tivemos essa oportunidade de ganhar por larga margem em Ouagadougou, Portugal também a terá. Se é difícil para Portugal, também será muito difícil para a Costa do Marfim. Mas, atenção, é uma equipa fortíssima, com quase todos os jogadores a serem titulares em grandes clubes europeus. É forte e com muitas soluções no ataque, mas mais frágil na defesa e penso que será por aí que Portugal conseguirá fazer a diferença. Peca pelo excesso de confiança, porque também comete muitos erros e defende com pouca gente, porque os avançados quase nunca se prestam ao serviço de ajudar o sector mais recuado.

R - Na sua estreia na CAN, qual seria um bom resultado frente à Costa do Marfim?

PD - Seria sempre uma vitória, claro. Mas tendo em conta o facto de ter perdido os dois jogos na fase de apuramento, um empate já seria um bom resultado. Seria uma espécie de vitória moral, neste caso, que nos daria uma motivação extra para o resto da prova.

R - Já disse que o seu futuro depois da CAN está em aberto mas gostaria de continuar a trabalhar com uma seleção. O que é que o futebol em Portugal não consegue oferecer aos seus homens que os leva a emigrar?

PD - Os treinadores portugueses têm tido sucesso no estrangeiro porque se adapta às dificuldades melhor que ninguém. E depois de tudo quanto vi nestes dois anos, realidades diferentes, métodos de trabalho diferentes, mas continuo a dizer que valorizamos muito pouco o nosso produto futebolístico. Estive em França, num dos melhores campeonatos da Europa, mas vi coisas que não esperava ver, lacunas e processos de jogo inaceitáveis. Por essa experiência posso dizer que não temos nada a aprender com eles e aprendido o suficiente para dizer que temos de valorizar mais os treinadores portugueses, porque com menos meios conseguem quase sempre fazer coisas que outros, melhores apetrechados, não fazem.

«Mourinho é mesmo diferente»


R - O Paulo Duarte foi treinado por José Mourinho, na U. Leiria. Ele é mesmo diferente dos outros treinadores?

PD - Sem dúvida. E digo isto não para me colocar à sombra dele ou tentar aproveitar qualquer ligação. Mourinho só há um e aprendi muito com ele, em termos de organização, planificação, dinâmica de treino e a nível de vestiário. Foi um prazer trabalhar com ele, mas também aprendi muito com o Jorge Jesus, que tacticamente é o mais completo dos treinadores portugueses. Manuel José também foi um treinador que me marcou, porque a liderança que tem, a sua atitude perante a dificuldade, é única.


 

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