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Roberto Baggio regressa à selecção italiana para a derradeira internacionalização, que premeia um jogador inigualável, daqueles que ombreiam, a curta distância, com mitos como Maradona, Pelé, Cruijff... Homenagem sentida de todo um emocionado país
"Baggio no Euro'2004? Só Deus sabe". Palavra de Trapattoni, que ontem assim comentou o regresso do "Codino" à "squadra azzurra". Quanto ao mago, foi enigmático: "Talvez não seja um adeus... quiçá apenas um 'até breve'..."
Controversa, amiúde marcada por sombras de palpitante drama, mas sempre emocional. Assim, em pinceladas largas, se pode descrever a relação de Roberto Baggio com a "squadra azzurra". Enredo de contornos trágicos "encenado" ao longo de 55 actos, iniciado em 1988. Seria no Mundial'90 que o mundo acordaria para a genialidade do "Codino Divino" ("rabo de cavalo divino"), peça fundamental no percurso italiano no magno certame que aquele país então hospedava.
Apesar de ausente do onze titular "azzurro" nos encontros iniciais, a sua entrada no embate ante a Checoslováquia levou ao folhear de uma nova e mágica página na História do futebol mundial, e ao reconhecimento, enfim, do puro génio de um jogador destinado a marcar o passado, presente e futuro da modalidade.
Trágica. Insistindo no termo, reforça-se o teor agridoce da relação entre a estrela e a equipa que mais amou. Presente em três Mundiais consecutivos (90, 94 e 98), Baggio tem na garganta atravessada a dor sufocante do afastamento, nas três edições nas quais participou, pela "lotaria" das grandes penalidades, a mais marcante das quais na final do Mundial'94, ante o Brasil.
A imagem que correu Mundo, de Baggio prostrado no relvado, amaldiçoando os "deuses" do futebol que o haviam "traído" no momento da verdade, na penalidade falhada, demonstrava, de forma inigualavelmente eloquente, o sofrimento do génio, mas, ao mesmo tempo, a maturação do mito.
Melhor marcador na "squadra azzurra" de entre os jogadores ainda em actividade, Roberto Baggio realizou o seu derradeiro encontro internacional a 31 de Março de 1999, então numa partida de qualificação rumo ao Euro'2000. De então para cá, e à medida que os anos se foram acumulando, deu-se o natural afastamento do conjunto nacional, intrepretado como natural, abrindo espaços às jovens gerações.
Mas Baggio, o veterano, não abandonou os relvados, como seria de esperar, algum tempo após a dobragem do "cabo" dos 30 anos. Manteve-se em actividade, e o fulgor técnico e genialidade inata permitiram-lhe manter-se como figura de referência do "calcio", com o edifício do futebol italiano a reconhecer o seu inigualável valor, dando início, em finais de 2001, quando contava 34 anos, a um movimento popular que "exigia" a Trapattoni a sua convocação para a fase final do Mundial'2002.
Novo drama, contudo, pairava já sobre o mágico do Brescia. A 31 de Janeiro de 2002, Baggio sofre gravíssima lesão, com uma rotura do ligamento cruzado anterior e lesão do menisco do joelho direito. A menos de cinco meses do certame oriental, todos dão por perdida a derradeira oportunidade para vislumbrar "Il Codino" de "azzurro" trajado. O mágico a todos surpreende.
No que alguns consideraram um "milagre clínico", Baggio regressa aos relvados 77 dias depois (um recorde), mas tal facto não é suficiente para convencer Trapattoni a arriscar (no "calcio", os italianos são ariscos a tomar riscos...) a sua convocação, e acaba por assistir em casa ao cinzento percurso dos compatriotas na prova.
2004. Acto final. O pano vai descer sobre a carreira de Baggio. Após atingir a marca de 200 golos na Série A, o virtuoso anuncia o final de carreira no término da temporada. A Itália volta a clamar por uma derradeira homenagem ao mito. "Il Trap" acede. Vai ter direito à 56.ª e última internacionalização, ante a Espanha. De novo nuvens cinzentas de tragédia pairaram: no encontro de domingo, a saída ao intervalo, por problemas físicos, fazia adivinhar nova reviravolta dramática.
Os "deuses" foram graciosos. O mundo agradece a oportunidade final para assistir ao regresso do mito à equipa que mais o apaixonou.
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