Indemnização de 30 milhões, Futre e Veiga na praia de fato e a chamada a Helen: histórias nunca contadas da ida de Figo para o Real

Intervenientes de uma das transferências mais polémicas de sempre contaram, num documentário da Netflix, como se processou a saída do Barcelona

• Foto: Reuters
Convencer Luís Figo a mudar-se do Barcelona para o Real Madrid não foi tarefa fácil, como contaram os vários intervenientes no documentário da Netflix ‘O caso Figo: a transferência que mudou o futebol mundial’, que estreou esta quinta-feira. Um processo que ganhou andamento depois de, a 1 de julho de 2000, Florentino Pérez e José Veiga terem assinado um contrato (ainda antes de Pérez ser presidente merengue), contrato esse que o antigo jogador diz desconhecer e que Joan Gaspart considerou "ilegal".

"Que pré-contrato? Quem pode responder a essa pergunta é quem dizem (neste caso o José) que alegadamente assinou o contrato. Se houve contrato assinado, nunca vi. Só disse ao Veiga ‘fala com quem tens de falar e depois logo decidimos’", contou Figo no documentário. O então empresário, por seu turno, garantiu que o jogador estava a par: "Sim, existiu o contrato. Sim, assinei, mas o Figo não, não podia assinar. Chegou o momento de contar a minha versão. O Figo nunca viu esse contrato, era só uma versão e não havia cópia. Antes de assinar, liguei ao Figo, li-lhe o texto que lá estava e perguntei. ‘Luís, posso assinar? Ele diz, ‘pode assinar’. É impossível assinar qualquer documento sem autorização de um jogador."

Contudo, o pré-contrato continha uma alínea que quase forçava à concretização do negócio. "Florentino diz-me que meteu uma cláusula de 3 mil milhões de pesetas (30 M€). ‘Se ele não vier, tem de pagar isso ao Real’", contou José Ramón de la Morena, jornalista da Cadena SER em 2000. O presidente do Real Madrid confirmou: "Nunca tinha assinado nada assim. Era uma cláusula de motivação, nada mais. Figo nunca assinou nada, só eu e Veiga e pode ser entendido como uma cláusula de intenções pois Veiga não tinha autorização em nome de Figo para assinar nada."

Com a transferência em risco de cair, surgiam dúvidas sobre quem pagaria depois esta verba ao Real Madrid. É aí que Paulo Futre decide chamar José Veiga. "Surge uma preocupação no Veiga, era ele quem tinha assinado e alguém tinha de pagar os 5 mil milhões. ‘Zé, só temos uma solução. Alugas um avião privado e vamos para a Sardenha’. Fomos e depois começa o pesadelo", recordou Futre.

De fato e gravata na praia da Sardenha

Veiga e Futre aterram então nesta ilha italiana e o agente anuncia a sua chegada a Figo. "Que fazem estes aqui?", foi a reação do jogador, contada pelo próprio. E as dificuldades para convencer o futebolista a mudar-se para o Real mantinham-se.

"Figo dizia que não podia ir para o Real. Isto o dia todo, primeiro no restaurante e depois na praia. Um dia terrível…", admitiu Futre. "Eles iam para a praia e nós atrás deles de casaco…", acrescentou Veiga. Até que Futre decidiu chegar-se à frente. "Disse ao Figo ‘vamos a Lisboa num avião privado, conheces o Florentino, dizes que não podes jogar lá, etc. Ainda vamos beber um copo à Kapital e depois voltas para a Sardenha’". E assim foi.

Telefonema a Helen Svedin

Em Portugal, um forcing final para concretizar o negócio do século. Na reunião, Florentino Pérez garante, cara a cara, com Luís Figo, que este será o "pilar do projeto". Figo ouviu as partes e tomou uma decisão. "Liguei às 2h ou 3h da manhã à Helen, acordei-a e disse ‘vou para o Real’", lembrou. Só que a mulher do jogador tinha outros planos. "O Luís só dizia ‘yes, yes, yes’. Quando terminou este telefonema, diz que não pode assinar…", atirou Futre. Seria então já com o Sol quase a nascer que Figo assinou o contrato que o ligaria ao Real Madrid.

"Quem tinha tudo a perder era eu. Começou como falta de consideração pelo que tinha dado e trabalhava no Barcelona. Queria era jogar numa equipa que me valorizasse. Isso também me levou a optar pelo Real. A principal razão foi porque me valorizaram e me queriam mesmo. No final acabei por pensar em mim. Se fui egoísta? Talvez. Se fui ganhar mais? Sim. Mas se tivesse ficado no Barcelona teria ficado a ganhar o mesmo", assim explica agora Figo uma das decisões mais polémicas da história do futebol.

A comunicação a Gaspart

Na Catalunha, Joan Gaspart celebrava a recente eleição como presidente do Barcelona quando recebe um telefonema de Figo. "Pergunto-lhe: quando chegas a Barcelona? Ele diz ‘isso depende de ti. Tenho dois bilhetes, Lisboa-Madrid e Lisboa-Barcelona. Tens de me dar uma garantia bancária de 500 milhões de pesetas. E vens buscar-me ao aeroporto e fazes uma declaração como presidente a dizer que eu fico no Barcelona’. Eu disse ‘Luís, à meia-noite não posso dar-te uma garantia bancária. Estás a pedir-me o impossível’. Ao que ele responde ‘então vou para o Real’. E eu, ‘muito bem, pois vai’", vincou Gaspart, numa ameaça negada por Luís Figo.

O primeiro jogo em Camp Nou

Todos se lembram do primeiro Barcelona-Real Madrid que Luís Figo disputou. Num ambiente do mais adverso que alguma vez se viu num campo de futebol, 100 mil adeptos catalães em Camp Nou vaiaram o extremo português pela "traição", com uma cabeça de porco e uma garrafa de whisky a aparecerem no relvado, entre muitos outros objetos arremessados.

Roberto Carlos, na altura companheiro de Figo no Real, confessou que preferia que o encontro tivesse sido cancelado. Pep Guardiola, por seu turno, admitiu que foram cometidos exageros. Quanto a Figo, apenas uma garantia: "Não jogar essa partida? Isso é para cobardes. Isso seria dar pontos a quem me atacava… (…) Se fosse pela transferência, percebia. Mas era um ataque pessoal e familiar. A partir daí fiz uma cruz. Acabou…"
Por Record
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