Sérgio Conceição entre o sonho de jogar pela Académica e as saudades da família

Treinador recordou que muitas vezes chegava a casa a chorar por ter perdido um jogo com os amigos

• Foto: Reuters

Órfão desde os 15 anos, Sérgio Conceição ultrapassou todas as dificuldades que a vida lhe atirou ao caminho e fez delas forças para ser tornar no homem que é hoje e de que se orgulha. Nascido e criado em Ribeira de Frades, uma localidade perto de Taveiro, a menos de 10 km de Coimbra, o agora treinador do Nantes recordou, em entrevista ao 'Ouest France', como foi a sua vida enquanto cresceu.

"Muitas crianças tiveram mais dificuldades do que eu, mas tenho orgulho naquilo que fiz. Para conseguir ir aos treinos, tinha uma viagem de autocarro de seis quilómetros e depois tinha de andar bastante, porque o campo de treinos era perto da Universidade, na alta de Coimbra. Era preciso percorrer todo esse caminho e, quando chegava, já vinha um pouco cansado. Às terças-feiras, nos dias em que os treinos eram mais leves, muitos faltavam, mas eu ia", lembrou.

O que motivava Sérgio a sair de casa e fazer todo este caminho não era o dinheiro. O próprio reconhece que não sabia, na altura, que os jogadores ganhavam tanto dinheiro. Ele apenas sonhava jogar pela Académica, clube por quem já confessou, várias vezes e publicamente, o seu amor.

"Nessa altura, não sabia que os jogadores de futebol ganhavam muito dinheiro. O que motivava era a vontade de as pessoas saberem quem eu era. O meu sonho era jogar pela Académica, era o meu objetivo".

O futebol é uma paixão antiga e Sérgio Conceição recorda os tempos em que ficava na rua a jogar com os amigos até a noite cair ou mesmo quando chegava a casa a chorar... por ter perdido um jogo. Reconhece que nunca foi um jogador muito dotado tecnicamente, mas compensava com a raça por que também ficou conhecido.

"Podíamos jogar à bola na rua durante horas até a noite cair. Com 8 ou 9 anos chegava a casa a chorar por ter perdido um jogo com os meus amigos. Sempre tive vontade de ir além dos meus limites. Não era um jogador muito dotado tecnicamente, fisicamente não tinha 1,90 m, mas compensava com espírito, vontade e ambição. Por vezes chegava a lesionar-me".

O orgulho e a doce 'vingança' de ter um estádio com o seu nome


Ribeira de Frades é a terra que viu nascer Sérgio Conceição e que tem orgulho no que conseguiu. Tanto que deu o seu nome ao estádio municipal de Taveiro, mesmo ali ao lado. Motivo de orgulho e ao mesmo tempo uma pequena vingança do sogro... que não quis que casasse com a sua mulher.

"O estádio de Taveiro tem o meu nome. Pediram-me antes do Euro'2004 para dar o exemplo aos jovens com mais dificuldades, para mostar que é possível atingir os nossos objetivos. É um orgulho para mim, falo muito disso com o meu padrasto", confessou o treinador. "Quando quis casar, a minha mulher tinha 14 anos e eu 17. O pai dela ficou reticente e, na altura, magoou-me. Mas, hoje em dia, ele vê o estádio com o meu nome de casa dele, na alta de Coimbra, todos os dias, de manhã à noite", conta, entre risos.

Mais do que isso, para Conceição o importante é saber que a sua família não atravessa dificuldades.

"Quando volto a Portugal e vou a casa dos meus pais, não falo muito. A minha família não tem dificuldades financeiras. Os meus irmãos e irmãs têm sempre o que comer e gostam de viver com os meus pais. Pago a luz, o telefone e as compras do mês. Por vezes, é a minha mulher que trata disso. Tenho uma profunda confiança na minha mulher. Conheço-a desde os 17 anos e ela tinha 14. Ela é praticamente da minha terra. Casámo-nos quando eu tinha 20 e ela 17".
A família é o seu "ponto fraco", reconhece, e custa-lhe estar longe da mulher e dos filhos, principalmente quando recorda que teve de sair de Portugal muito novo, quando deixou o FC Porto para representar a Lazio.

"Os meus filhos [cinco rapazes] adoram futebol, nasceram no meio do futebol. O de 17 anos joga no Benfica e também está na Selecção Sub-17, é extremo como eu. O mais novo, de 14, também é extremo e joga no Sporting. O mais velho está na universidade, está a tirar gestão desportiva e joga na 3.ª divisão. É duro estar longe da família, não poder acompanhá-los. É o meu ponto fraco. Saí de casa aos 15 anos. Quando saí de Portugal e fui para a Lazio foi uma outra realidade, um outro mundo. A minha mulher perguntou-me: "É Roma? É em Itália, não é?" Ela não sabia onde ficava Roma. Houve uma altura em que me senti triste. O meu primeiro filho, o Sérgio, nasceu enquanto estava na Lazio. De quatro mil euros no FC Porto passei a ganhar 100 mil euros na Lazio".

Por João G. Oliveira
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