Quando o cavalheirismo fica à porta em Stamford Bridge

Quando o cavalheirismo fica à porta em Stamford Bridge
Quando o cavalheirismo fica à porta em Stamford Bridge • Foto: ARSENAL

A 22 de março, nove dias depois depois de ter chamado "especialista em fracassos" a Arsène Wenger, José Mourinho levou o Chelsea ao mais retumbante triunfo da história do clube sobre o arqui-rival londrino Arsenal. Foi em Stamford Bridge, com o resultado fechado em 6-0, selando a invencibilidade do treinador português frente ao homólogo francês.

O confronto direto entre blues e gunners até parece uma maldição para Wenger, pois o Arsenal venceu o Chelsea logo no primeiro encontro depois de Mourinho ter sido substituído por Avram Grant - a 16 de dezembro de 2007, em casa, por 1-0 - e perdeu de imediato mal o português voltou aos comandos da equipa de Stamford Bridge - 2-0 para os blues fora-de-casa, a 29 de outubro de 2013, para a Supertaça.

A história deste relacionamento é escrita através dos êxitos de Mourinho e também das trocas azedas - e por vezes muito duras - de palavras entre homens de personalidades distintas, que no domingo, de novo em Stamford Bridge, se voltam a encontrar, num jogo da Premier League.

Nesse encontro a 22 de março, a história dos embates entre estes clubes rivais londrinos foi reescrita, com o Chelsea a superar os 5-0 da Taça da Liga em 1998 e os 4-1 de 2009, na Premier League, estabelecendo um novo máximo, com Mourinho também a registar um recorde pessoal: este foi mesmo o melhor resultado alcançado pelo português no comando da equipa inglesa.

Só por uma vez o Chelsea de Mourinho tinha atingido a meia dúzia de golos num só encontro. Aconteceu em 2007 para a Taça de Inglaterra, frente ao desconhecido Macclesfield Town. E com uma diferença para o Arsenal: o modesto adversário conseguiu marcar um golo.

O período pré-"especialista em fracassos", ponto alto da primeira tirada anti-Wenger de Mourinho no regresso à Premier League e ao Chelsea, que levou o francês a responder com contundência, foi muito rico.

Ao longo do tempo, Wenger foi ganhando entusiasmo nas respostas a Mourinho, talvez porque em campo a sua equipa nunca foi capaz de derrotar a de Mourinho, registando cinco empates e seis derrotas nos 11 embates. E o bate-boca tornou-se num clássico em Inglaterra, com o condão de fugir ao tradicional cavalheirismo britânico, e ultrapassou mesmo as fronteiras do reino.

Não se conhece o motivo que esteve na origem da animosidade entre os dois técnicos - disfarçada pelo ocasional aperto de mão da praxe antes e depois dos jogos. Sabe-se apenas que vários temas já serviram como arma de arremesso, chegando mesmo a tocar o lado pessoal.

Os duelos entre blues e gunners tinham ficado por empates (2-2, a 12 de dezembro de 2004; e 0-0, a 20 de abril de 2005) na primeira temporada de Mourinho em Stamford Bridge, quando a calendarização de 2005/06 deixou Mourinho insatisfeito, pois, quando olhou para o vizinho da capital inglesa, o português percebeu uma vantagem do francês.

"Alguns clubes são tratados como diabos e outros como anjos. Não me parece que seja tão feio que tenha de ser visto como diabo, enquanto Wenger, por ser tão bonito, esteja a ser tratado como anjo", disse o técnico português.

No cinco meses seguintes a esta afirmação de Mourinho, o Chelsea defrontou o Arsenal em três ocasiões, começando com  um 2-1, para a Supertaça de Inglaterra (7 de agosto de 2005), seguindo-se um frugal, mas satisfatório, 1-0 em Stamford Bridge para a Premier League (21 de agosto).

Wenger decidiu responder após os desaires, revelando mau perder: "Vivemos num Mundo onde apenas há vencedores e vencidos, mas quando se elogiam equipas que recusam tomar a iniciativa do jogo, o futebol fica em risco."

Não perdeu pela demora, com Mourinho a arriscar mal-entendidos numa comparação: "Wenger é como um 'voyeur'. Ele gosta de observar outras pessoas. Há tipos que gostam de ter telescópios em casa para verem o que acontece em casa de outras famílias. Ele fala, fala, fala sobre o Chelsea..."

Como seria de esperar, Wenger acusou o toque: "Acho que ele ultrapassou todos os limites, mostrou-se desligado da realidade e faltou-me ao respeito. Por vezes, quando alguém estúpido tem sucesso, esse sucesso torna-o ainda mais estúpido e não mais inteligente."

Surpreendentemente, Mourinho limitou-se aos factos na resposta: "Temos uma compilação de citações do senhor Wenger sobre o Chelsea nos últimos 12 meses - não são cinco páginas, são 120!"

Isto foi antes do Chelsea ter ido a casa do Arsenal vencer por 2-0, a 18 de dezembro de 2006, entregando um presente de natal envenenado ao francês...

Mas Wenger prosseguiu nas diretas e indiretas, salientando o superior poderio financeiro do Chelsea de Roman Abramovich, face ao seu Arsenal. "Entreguem a dois treinadores a mesma verba e digam-lhes: façam a gestão desse dinheiro durante cinco anos. Depois desse período veremos qual dos dois fez mais e melhor", disse o técnico dos gunners, já depois de Mourinho ter somado um empate (1-1, para a liga, a 10 de dezembro de 2006) e uma vitória (2-1, para a Taça da Liga, a 25 de fevereiro de 2007).

A 6 de maio de 2007. Arsenal e Chelsea empataram 1-1, na último duelo em Inglaterra até final de outubro de 2013. MOurinho saíu dos blues em setembro desse ano, nas a distância de Londres para Milão, primeiro, e, depois para Madrid, onde Mourinho trabalhou ao serviço de Inter e Real, não impediu que o bate-boca continuasse.

"Em Inglaterra as estatísticas contam imenso. Por exemplo, o Wenger tem apenas 50 por cento de encontros ganhos na Premier League", disse Mourinho em abril de 2008, quando estava no Inter Milão.

Mais à frente, já em Madrid, o técnico português respondeu ao francês, que o acusara de aconselhar alguns dos seus jogadores a forçarem propositadamente cartões amarelos para falharem um jogo que já não tinha importância para a qualificação do Real para os oitavos-de-final da Champions.

"Wenger devia preocupar-se em descobrir como é que foi possível perder com o Sp. Braga, uma equipa que está na Liga dos Campeões pela primeira vez na sua história", disparou Mourinho.

Para o jogo de domingo, Wenger já recuperou a tese do clube rico/clube pobre, evitando o confronto direto: "Mourinho teve sempre grandes equipas, as este não é um jogo entre dois treinadores, mas sim entre dois clubes."

"Nós vamos a Stamford Bridge para vencer. O facto do Chelsea ter uma vantagem de seis pontos ainda nos dá mais vontade de vencer", prometeu o treinador francês.

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