Alberto Chaíça: No conforto do lar

Alberto Chaíça: No conforto do lar
Alberto Chaíça: No conforto do lar • Foto: Vítor Chi

A pequena Verónica, com 10 anos, foi a primeira a descortinar o avô a uns bons 200 metros, por detrás de um muro de betão numa empreitada para os lados da Charneca da Caparica. Reconheceu-lhe logo o boné e isso foi suficiente para dizer à avó: "Olha bem, o avô está ali". E o tio Manuel, como Alberto Chaíça gosta de chamar ao seu pai, tem uma história e peras para contar. "Aos 11 anos, fui trabalhar para o campo, ceifava, fazia de tudo, até vir para Almada. Já cá estou há 34 anos a trabalhar sempre na cofragem, mas também andei pelo estrangeiro. Estive duas vezes em França. Fui a pé, a salto, antes do 25 de Abril. Demorei cerca de um mês a lá chegar".

A experiência não foi muito gratificante. Ao fim de seis meses, o pai de Alberto Chaíça veio para casa, ainda tentou uma segunda oportunidade e quatro meses chegaram para tirar as dúvidas. "Afinal, ganhava mais em Portugal que em França."

Mas a história não acaba aqui. Depois do 25 de Abril, o ti

Manuel deixou a mulher com um filho de quatro anos nos braços. Queria ganhar dinheiro para sustento da família. Foi até ao Iraque. Esteve lá seis meses. Recebeu a sua mesada e para dar mais um sossego ao conforto do lar, o ti Manuel ainda se sentiu com forças para fazer uma "jornada" de 90 dias na Argélia. "Depois, com a idade, fiquei por aqui".

Alberto Chaíça estava ao nosso lado a ouvir o seu pai e com uma simples frase completou o cenário. "Pelo que acabou de ver, a minha vida é um pouco a do meu pai. Ele começou a trabalhar com 11 anos, eu com 13 e o meu irmão com 14".

Daqui dá facilmente para entender que Alberto Chaíça nunca teve uma vida acima da média. Há 20 anos que vive em casa dos pais num bairro social, no Monte da Caparica. É o bairro do Fundo do Fomento e, nos pequenos cafés, o maratonista é tido como um "bom rapaz". E é por ser um bom rapaz que Chaíça, que está casado há 10 anos, não prescinde de viver em casa dos pais.

"Aqui estou tranquilo. Sei que posso estar descansado com a educação da minha filha, e a minha mãe ocupa-se da comida e da roupa dos treinos. A minha mulher trabalha muitas horas por dia numa papelaria e chega a casa tarde."

É no conforto do lar que Chaíça está bem. "O que me custa é vê-lo a sofrer nas provas, não vá alguma coisa acontecer-lhe", diz-nos a mãe, Maria Henriqueta, de 59 anos, que à semelhança do marido também trabalhou na sua juventude no campo.

Lavar a loiça

Quando Alberto Chaíça trabalhava na tipografia e depois ainda ia treinar-se e chegava a casa tarde, com o relógio a bater as 22 horas, lá tinha o jantar quentinho à sua espera. "Mas o meu filho é um amor. Veja lá você que ele depois ainda me lavava a loiça..." Hoje, na casa do ti Manuel, a filosofia é a mesma que existe no seu trabalho na cofragem. "Temos aqui um só corpo e a linguagem é só uma".

De tal forma, que nos dias das provas, muitas vezes, Alberto Chaíça socorre-se do pai para lhe fazer companhia. "Tem-me acompanhado muitas vezes ao estrangeiro, de carro para provas em Espanha, e sei que quando preciso de alguma coisa, seja para tratar de passagens de avião, ele até abdica do seu dia de trabalho para me ajudar. Foi por essa razão que, em Paris, depois de cortar a meta em quarto lugar, disse que dedicava essa classificação aos meus pais. Foram eles que nas alturas difíceis da minha vida estiveram e estão sempre ao meu lado."

O fascínio da selecção e de correr a maratona

Ao princípio, quando Alberto Chaíça era gaiato e andava envolvido nas provas do Troféu de Almada, a ambição só passava por ser um atleta de nível razoável. "Gostava de vestir um dia a camisola da selecção nacional". Cumprido esse desejo, formulou um outro: ser um maratonista capaz de chegar a um Campeonato de Mundo ou a uns Jogos Olímpicos.

"A minha sedução sempre foi pela maratona. Gosto de correr e, se virem os meus tempos, eles são melhores à medida que a distância vai aumentando. Sempre fui tentado a correr a maratona. Foi uma espécie de sedução e, para mim, não é o bicho--de-sete-cabeças que por aí se diz. Afinal, se há tanta gente a correr, é por alguma razão". Num ápice e em menos de um ano, o anónimo Chaíça passou a ser uma referência do atletismo nacional. "Não gostaria de terminar a minha carreira sem ir a uns Jogos Olímpicos". E apesar de o estado de euforia ser ainda bem visível, Chaíça sente que "cada coisa deve ser feita no seu devido lugar”.

Aos 13 anos a trabalhar na gráfica

O dono de uma tipografia em Almada é de Aljustrel e era quase vizinho do ti Manuel. Calhou em conversa a hipótese de Alberto Chaíça ir trabalhar um dia para lá. Foi aos 13 anos e por lá ficou quase dez. "Não falhou um dia, sempre de pé aqui a trabalhar", disse-nos António Camacho, que lhe ensinou os primeiros passos na profissão.

"Ele adorava o atletismo e ao princípio o meu filho até deu umas corridas com ele. Depois, quando ele passou a ser atleta, começou por aparecer mais tarde, mas compensava as horas saindo mais tarde. Era tipógrafo, ajudava na encadernação de livros e até fazia algumas entregas de material quando era preciso. Não me posso queixar", afirma, com algum orgulho, António Camacho. Chaíça tem boas recordações desse tempo e na tipografia há recortes de jornais alusivos à sua presença no Mundial.

"Da próxima vez que vieres cá, vê lá se trazes uma medalha...", disseram-lhe os colegas à despedida.

Quem é Américo Brito - Treinador, polícia e juiz

Quando Rui Silva foi campeão do Mundo de pista coberta, em Lisboa, há dois anos, o homem que deu o tiro de partida – o chamado "starter" na linguagem atlética – dessa prova foi Américo Brito, que fez uma viagem relâmpago a Paris para ver a prova do seu pupilo, Alberto Chaíça. Mas quem é, afinal, o seu treinador? Aos 30 anos, quando ainda tinha algum fulgor, Américo Brito chegou várias vezes a ganhar a Alberto Chaíça. Foi dos melhores oitocentistas do Benfica e mais tarde enveredou por uma carreira nas provas de estrada, iniciando ao mesmo tempo uma experiência como treinador.

Começou no Fogueteiro, e depois foi para a Sociedade União Caparica. E foi aí que ele e Alberto Chaíça, primeiro como colegas de treino e de equipa, iniciaram uma ligação que teve agora o reflexo de um quarto lugar na maratona do Mundial.

Chaíça chegou a entregar várias vezes o testemunho àquele que hoje é o seu treinador, mas para que Américo Brito se tornasse, efectivamente, seu técnico foi preciso, antes, esclarecer uma série de coisas. "O meu antigo treinador não tinha tempo e queria treinar-me com o Américo. Ao princípio ele disse que ia pensar e tive de pedir à minha mulher para interceder junto da mulher dele, a Ermelinda, que também fazia atletismo no SUC."

Uma reunião em casa de Américo Brito oficializou o princípio da ligação e o técnico dá a conhecer que o seu atleta "é cumpridor dos treinos, às vezes até demais. Sempre me apercebi que ele queria fazer uma maratona e eu é que o tenho travado. Se não fosse isso, ele já teria nas pernas cinco ou seis maratonas", confessa Américo Brito, que é juiz nacional de atletismo ao fim-de-semana. O seu emprego é na PSP, onde trabalha no serviço das contra-ordenações.

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