Nos bastidores dos jogos da NBA em Paris: como Wembanyama deu dimensão inédita ao evento

Record esteve na capital francesa e presenciou o impacto do jogador dos San Antonio Spurs, que levou a liga norte-americana a registos e entusiasmo sem par na Europa

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• Foto: Reuters

São 11h30 em Paris, dia de semana. Longe dos olhares do público, nos corredores do Accor Arena a expectativa é enorme entre um batalhão de jornalistas de proporções gigantescas, até para a realidade de uma das competições mais populares do Mundo, a NBA. Aguardam para entrar no recinto para assistirem ao treino dos San Antonio Spurs. É véspera do primeiro de dois jogos da fase regular na Europa, como já é tradição. Mas este é diferente. Não porque Spurs ou Indiana Pacers, as duas equipas que mediram forças na capital francesa, sejam popularíssimas. Mas porque o mais recente fenómeno do basquetebol mundial está presente. E está em casa.

Todos querem ver Victor Wembanyama. Mais concretamente, 624 jornalistas de 24 países diferentes. Durante o 'pratice', junto à linha lateral e de fundo as câmaras estão todas apontadas ao gigante francês de 2,24 metros. Minutos depois, perante uma sala de imprensa cheia, o poste francês respondeu com tranquilidade às perguntas durante uma conferência de quase 12 minutos. Era o primeiro lampejo do que seriam estes jogos overseas e o staff desde logo percebeu a dimensão do trabalho que teria.

O primeiro jogo da fase regular em solo europeu aconteceu em 2011 mas bem antes já tinham decorrido duelos entre equipas da NBA no Velho Continente, mais concretamente em 1993, para a pré-época. E recuando ainda mais no tempo, em 1990, a partida inaugural entre formações da NBA para a fase regular ocorreu em Tóquio. O ano passado, Chicago Bulls e Detroit Pistons cumpriram a já longa tradição de jogar fora de casa algumas partidas 'a doer'. Mas estes NBA Global Games, assim apelidados a partir de 2013, foram mesmo diferentes. No dia do primeiro jogo, a cerca de quatro horas da primeira bola ao ar, na sala de imprensa já se pedia para não haver cadeiras ocupadas com casacos ou computadores. Todos os lugares eram necessários. "Isto vai ficar preenchido!", avisava um membro do staff, prevendo um vulcão em erupção, mas de entusiasmo.

Recordes de audiência

Mas até que ponto um jovem rapaz de 21 anos, natural dos arredores de Paris, poderia trazer assim tanto um adicional de loucura a um jogo da NBA? "A seguir às finais e ao All Star, este é o encontro que mais entusiasmo está a despertar a nível de imprensa escrita. O jogo em campo propriamente dito é igual mas o público é mais entusiasta e a presença de Wembanyama traz um frenesim extra", disse-nos um dos veteranos jornalistas norte-americanos que acompanhava o evento. Querem dados palpáveis sobre este tal frenesim? Os conteúdos com Wembanyama nesta semana em Paris tornaram-no no segundo jogador com mais visualizações (mais de 817 milhões) nas redes sociais esta temporada, além de ser o quinto em camisolas vendidas em 2024/25.

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É consensual. Estas partidas fora dos EUA têm cada vez mais impacto e o facto de a NBA trazer alguns pesos-pesados diretamente de Nova Iorque para ajudar à sublime organização do evento mostra o carinho que este merece. Os dados comprovam a magnitude do evento na passada semana: os bilhetes para ambas as partidas foram vendidos em apenas 24 horas, com adeptos provenientes de 53 (!) países diferentes, um número inédito na história de qualquer evento da NBA.

E por falar em público, tudo o que metia Wemby era susceptível de tornar o barulho do pavilhão ensurdecedor. Quando entrou em campo; sempre que aparecia no ecrã gigante; quando fez o primeiro cesto; quando desarmava os 'tiros' dos adversários; e naquele terceiro quarto incrível do primeiro jogo, quando construiu quase sozinho uma vantagem decisiva de 20 pontos. Tudo com Gonçalo Ramos, internacional português do PSG, a ver na primeira fila ao lado do banco dos Spurs e no final a ter direito à camisola de Chris Paul.

Nada mal para um rapaz que tinha a pressão de toda uma cidade e um país e que nos dias anteriores tinha passado mais tempo em ações publicitárias ou outros eventos do que propriamente a preparar-se para o jogo. Do desfile da Louis Vitton, do qual é embaixador, à inauguração de dois campos em Chesnay, passando pela visita à Torre Eiffel e o reencontro com Philippe da Silva no pavilhão do Nanterre, onde fez parte da formação - pode recordar aqui as declarações do treinador português a Record sobre o tema -, Victor esteve em todo o lado. Até levou os colegas a jantar fora e a provar as iguarias parisienses.

Viagem desde os EUA para ver os Spurs

Voltando ao público, Matt e Sarah foram alguns dos quase 16 mil adeptos presentes no Accor Arena no primeiro duelo. Provenientes de Kansas City, são 'die hard fans' dos Spurs. Ele com uma camisola vintage do franchise, ainda com os tons rosa, e uma t-shirt de Manu Ginobili, o seu jogador favorito, por baixo; ela com o equipamento de Wembanyama. Vieram a Paris para um "dois em um": verem a cidade e ainda a sua equipa, que já costumam acompanhar nos EUA, mesmo estando a cinco horas de carro de viagem. "Estou a gostar da evolução esta temporada", confidencia-nos Matt à entrada para a NBA House, inaugurada na véspera com a presença de Tony Parker, glória do basquetebol francês.

Expansão para a Europa?

Esta foi só mais uma das iniciativas da Liga por aqueles dias, de forma a promover a competição. Nas ruas, viam-se cartazes sobre o evento, sempre com Wemby em primeiro plano. É que desengane-se quem pensa que a NBA está satisfeita com o que tem nos EUA. Até porque como as audiências têm registado um decréscimo no próprio pais, a organização tem-se extendido a nível de popularidade para outros mercados. A Europa é um dos exemplos e, nesse sentido, são cada vez mais as conversas sobre uma eventual expansão da liga dentro (Las Vegas?) mas também além-fronteiras, passando a integrar equipas do Velho Continente.

Esse tema esteve bem presente na conferência de Adam Silver antes do primeiro encontro destes NBA Paris Games. O comissário da NBA nunca abriu diretamente o jogo sobre os moldes em que uma eventual expansão poderia ser feita mas admitiu conversas com clubes e stakeholders.

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"Estamos a ver muito atentamente se existe uma oportunidade de profissionalizar o jogo para um outro nível aqui, para criar um mercado mais vasto (...) Não existem ainda entendimentos, não estamos prontos para fazer qualquer anúncio e continuaremos a ver se é possível seguir em frente", disse perante um mar de jornalistas enquanto Spurs e Pacers aqueciam para o primeiro jogo. Mas este tema era por demais importante e ninguém arredou pé. "Enquanto a Europa continua a desenvolver alguns dos melhores jogadores do Mundo - alguns deles recentemente coroados MVP's na NBA -, pensamos que o potencial comercial não tem acompanhado o crescimento do jogo", acrescentou.

Enquanto parceiro de longa data da FIBA, a NBA sabe que qualquer avanço deverá ter sempre o braço amigo da organização que rege o basquetebol mundial. Mas por outro lado a disputa histórica entre FIBA e Euroliga é longa e para entrar em peso na Europa, a NBA sabe que teria de contar com equipas da maior prova de clubes. 

Ainda no que toca ao peso dos europeus na atual NBA, e numa lógica de trazer de novo alguma competitividade ao All Star Game, Adam Silver foi questionado sobre se um EUA vs Resto do Mundo poderia ser uma solução, algo ao qual o Comissário não fechou a porta mas fazendo uma ressalva: "Se formos escolher metade dos 24 jogadores para o All Star de um universo de 30% (de estrangeiros) e a outra metade de um universo de 70% (de americanos), poderá não ser justo para os atletas."

Sempre em andamento

Finalizada a conferência de Adam Silver, foi hora do espetáculo principal. Mas a animação não acaba nem começa no período do jogo. No dia seguinte à partida inaugural, o Jogo das Celebridades gerou um fascínio difícil de prever - com prolongamento e o público a vibrar com os 'jogadores' da casa -, seguindo-se um concerto e espetáculo de luzes e cores.

Os anos passam e a NBA mostra por que se mantém no topo das preferências. O truque? Inquietação permanente e vontade de inovar. E uma organização virada para a promoção da figura maior, os jogadores, ao invés de os esconderem a sete chaves.

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