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RICARDO TAVARES, enviado especial
Guadalajara -- António Brás admitiu, quarta-feira, nesta cidade, abandonar o ciclismo no final da temporada, argumentando o director desportivo do Benfica que lhe falta capacidade para fazer mais.
Em Teruel, na véspera, António Brás acabou o dia com cara de poucos amigos, como aqui relatámos. Escusou-se a tecer qualquer comentário.
Primeiro, tinha de falar aos corredores, como prevíamos. "Puxou-lhes as orelhas" e a equipa reagiu, mas, para não variar, sem sucesso. No entanto, o "treinador" encarnado acabou por dar os parabéns aos seus pupilos, que "adoptaram outra postura. Não conseguiram entrar na fuga, mas esfarraparam-se", afirmou.
O facto de os benfiquistas terem dado tudo o que tinham é, contudo, manifestamente, insuficiente para as ambições de Brás. O director desportivo do Benfica sabe, porém, que as limitações da equipa não lhe dão grande espaço de manobra. Por isso, se exceptuarmos o caso de Melchor Mauri no contra-relógio, tem a consciência que o melhor que se pode arranjar é um lugar numa fuga e, com um pouco de boa vontade, a vitória numa etapa. Até aqui nem uma nem outra coisa foram alcançadas e, a partir de agora, como já assinalámos ontem, o quadro é, ainda, mais negro. Brás, contudo, não gosta de perder e, daí, o desabafo. Sinceramente, parece que o tinteiro tem, ainda, muita tinta...
Brás leu a cartilha aos ciclistas, estes reagiram, mas não conseguiram dirigir-se para a "linha" certa para apanharem o "comboio da fuga". Quintino Rodrigues, Joona Laukka e Oscar Uriarte, com orelhas tesas, meteram-se na luta, mas em vão. Nas várias tentativas, nenhum dos três logrou entrar na fuga certa, ou seja, depois da contagem de montanha de segunda categoria. A corrida, de resto, só teve história nos primeiros 90 quilómetros. Até então houve ciclismo a sério. Depois, bem, depois, registou-se, para não variar, uma fuga com vários corredores e o adormecimento do pelotão. Ullrich fez mais uma viagem tranquila, os espanhóis, que gastam rios de dinheiro, demonstraram, novamente, manifesta incapacidade para colocar em risco a liderança e as equipas com "sprinters" voltaram a abster-se, por falta de pernas. Aliás, Wust, que andou com a camisola dourada, entrou no carro vassoura, o mesmo sucedendo com dois homens da Vitalicio, Victor Hugo Peña, que era terceiro na geral da montanha, e Angel Casero, duplo campeão de Espanha, este com problemas no tendão de Aquilles.
Brás fez a defesa da sua equipa atacando as formações espanholas, precisamente pelo que acabámos de escrever. Depois, finalmente, dispôs-se a falar do Benfica. "Não podemos ganhar a Vuelta", mas também ninguém é louco para lhe pedir isso. "Temos dez equipas do topo atrás de nós", o que não é de subvalorizar, "mas, sinceramente, não consigo fazer mais e, por isso, admito abandonar o ciclismo no final do ano. É impossível fazer mais. Por isso, o melhor é ir para casa. Não consigo motivar mais os meus ciclistas. O Benfica, se calhar, queria que ganhasse etapas. Não o conseguimos", desabafou, de uma assentada, o "treinador" benfiquista, garantiu que ninguém do clube o chamou à atenção pelo desempenho do conjunto na Volta à Espanha.
DEZ CICLISTAS...
"O Benfica não gasta um milhão de contos, como acontece com a Vitalicio. Não tem 20 corredores, mas, sim, 13 e três deles praticamente não correram. Foi-lhes pedido que começassem a ganhar logo no princípio e que não deixassem fugir a vitória na Volta a Portugal. Conseguimos esses objectivos. Pediram-nos, também, que corrêssemos a Vuelta com dignidade. Estamos à frente de dez equipas. Tivemos de estar sempre em forma. Não estamos a envergonhar ninguém. Só não conseguimos ir com os primeiros. Enfim, não consigo fazer mais", disse António Brás, que, para dar mais ênfase ao trabalho que desenvolve, não se esqueceu de outra contestação:
"Sabe, se bem me lembro, nos últimos 20 anos, nesta altura da Vuelta, nenhum jornalista estava a entrevistar treinadores de equipas portuguesas. Tinham ido todas para casa." Como a memória, por vezes, é traiçoeira, não pelejámos com Brás, mas sempre lembrámos que um ciclista português já concluiu nos 20 primeiros, concretamente Joaquim Gomes. Um lugar, de resto, ao alcance de Melchor Mauri, a quem o "técnico" deu instruções muito claras no sentido de reservar todas as forças para o contra-relógio, tendo como objectivo alcançar uma posição de relevo.
Veremos, pois, se Brás colocará o seu lugar à disposição do Benfica. Sinceramente, julgamos tratar-se de um desabafo de quem quer mais e melhor, de quem, como disse, não teve tempo, esta época, para "ser treinador", mas de quem aceitou os riscos de trabalhar no arame e sem rede, porque o importante era dar as primeiras pedaladas, depois de 20 anos na berma da estrada. O vice-presidente encarnado com a responsabilidade pelo sector, José Manuel Antunes, consciente de que o Benfica... à Benfica das estradas portuguesas não tem ritmo para trilhar, com a cara ao vento, o asfalto do outro lado da fronteira, irá, com certeza, receitar-lhe um chá de laranjeira. Brás, fora da Vuelta, adoptará outro discurso e tentará sensibilizar os responsáveis do Benfica para a necessidade de se aproveitar o estrangeiro para se passar uma mensagem de grandeza. E, de preferência, com publicidade nas camisolas...
ZARRABEITIA "SOBE"
Já agora, assinale-se que quem acabou por ter benefícios directos com a fuga de quarta-feira foi o italiano Cristian Moreni, vencedor isolado. O homem da Liquigas ganhou dois segundos a Garcia Acosta (Banesto) e a Mikel Zarrabeitia (ONCE), quem tirou maiores dividendos da escapada, ao ascender aos décimo primeiro posto da geral, o que se traduz num "salto" de sete lugares.
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