Dos "200 km de carro por dia" às "5 horas de viagem de autocarro": Catarina, Pedro e Adriano são exemplo de superação

Trio do GC Mirandelense faz parte da comitiva portuguesa no Europeu de kickboxing da WAKO

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Sendo certo que a conquista da medalha de ouro por parte de André Santos foi o ponto alto da comitiva portuguesa no Campeonato da Europa de kickboxing da WAKO, que chega ao fim este sábado, a verdade é que houve outros momentos de relevo para os atletas lusos em prova. Enquanto Adriano Lopes e Pedro Sauzedo fizeram a estreia em provas da WAKO, sendo que este último até se qualificou para os Jogos Europeus do próximo ano, Catarina Dias regressou da Turquia com uma medalha de bronze e, tal como Pedro, assegurou presença na prova que se vai disputar em Cracóvia em 2023.

Apesar de terem um passado muito distinto, quis o destino que estes três atletas chegassem ao Europeu disputado em Antalya como representantes do mesmo clube, o Ginásio Clube Mirandelense. Pois bem, é assim na cidade banhada pelo rio Tua que os três jovens vão lutando pelo sonho de chegarem mais longe no kickobxing, num enrendo algo complexo. Mas vamos por partes.

Aos 24 anos, Catarina Dias, engenheira civil de profissão, é o elemento do trio que trabalha há mais tempo no ginásio de Sónia Pereira e José Pina, figuras de renome no kickboxing nacional que têm tido um papel importante no desenvolvimento do mesmo em Trás-os-Montes. De resto, a jovem não esconde a satisfação por representar esta zona do país. "No meu concelho [vive em Gralhós, uma aldeia de Montalegre] sou a única pessoa a praticar kickboxing, mas sinto que incentivo as pessoas a experimentar. Já tive conhecidas que foram estudar para fora e disseram-me 'Vou experimentar a tua modalidade, és uma inspiração'. A minha terra está situada no interior e não tem grandes modalidades. Não há quem as dinamize e é um sonho para abir poder abrir uma escola no futuro. Para já quero continuar a crescer como atleta e ser, quem sabe, campeã da Europa ou do Mundo", começa por explicar, dando depois ênfase às dificuldades inerentes ao facto de viver numa zona do país cujas oportunidades, de uma forma geral, são reduzidas: "Há oito anos que faço perto de 200 km por dia para treinar, 1h30 para cada lado. Vir a estas provas da WAKO é muito bom, mas obriga-me a ter muito apoio dos meus pais, sem eles não conseguia fazer isto há tanto tempo. Tendo combates com frequência tenho de ir ao ginásio todos os dias e é complicado, mas a paixão pelo kickboxing fala mais alto".

A lutadora, que vê Sónia Pereira e José Pina "quase como uma mãe e um pai" pela forma como "lideram pelo exemplo", faz ainda um balanço positivo da sua participação no Europeu da WAKO, que culminou com a conquista da medalha de bronze (Full Contact -70 kg). "Apesar de ter perdido nas meias-finais, estou satisfeita com o meu jogo porque sei que liderei os dois combates que disputei. Vou feliz para casa porque tive oportunidade de estar no meio destas atletas tão boas e tão profissionais, tenho ainda mais vontade de trabalhar para conseguir chegar mesmo lá cima nos Jogos Europeus do próximo ano. Saber que tenho esta prova para disputar dá-me ainda mais vontade, saber que estava a lutar não só por uma medalha mas também por outra prova deu-me uma grande motivação", realça

Miúdo com "peso acima da média" só parou no Europeu

Se a relativa proximidade entre Montalegre e Mirandela ajudar a explicar o ingresso de Catarina Dias no GC Mirandelense, como é que alguém natural de Coimbra acaba no clube transmontano? A explicação, pela voz de Adriano Lopes, é bastante simples. "O meu clube sempre foi o Condeixa, sendo que os nossos mestres [Paulo Nogueira do Condeixa e José Pina do GC Mirandelense] foram colegas de Seleção e o nosso sugeriu irmos treinar ao GC Mirandelense. A Catarina também estava a fazer Full Contact e acabámos por unir esforços, até porque esta era a nossa primeira vez nestas andanças. Começámos a preparar esta prova em agosto e passávamos os fins-de-semana em Mirandela a treinar", vinca o jovem, que competiu em Full Contact -86 kg. 

Miúdo com "peso acima da média" só parou no Europeu

Miúdo com "peso acima da média" só parou no Europeu

Defendendo a importância de haver uma maior promoção da modalidade, Adriano, de 23 anos, explica ainda como se iniciou no mundo dos desportos de combate. "Comecei quase sem querer, eu era um jovem com um peso acima da média que estava em consultas de risco cardiovascular e comprei um saco para me ir mexendo em casa. Na altura não sabia que tinha kickboxing perto de casa e acabei por ir mesmo com a ideia de perder peso. Entretanto comecei a competir e aqui estou", refere, fazendo também um balanço da sua prestação em Antalya: "Sei que não estive no meu melhor e fiquei pelos oitavos, mas foi uma experiência incrível porque contactei com atletas com muita rodagem e percebi quais são os meus pontos fracos. Espero poder vir mais vezes no futuro e adaptar-me a este jogo tão diferente".

Pedro já era o melhor amigo dos motoristas de autocarro

Tal como Adriano, Pedro Sauzedo também chegou ao GC Mirandelense após a sinergia criada entre o clube de Trás-os-Montes e o Condeixa, mas, ao contrário do companheiro de treino, o atleta que competiu em Full Contact -75 kg não é natural da zona de Coimbra. Seguindo esta permissa, Sauzedo assume ainda mais o papel de 'nómada'.

"Eu sou de Gouveia e na minha cidade não há muitos desportos para além do futebol, sendo que comecei no karaté com 15 anos. Entretanto o meu pai falou-me de um primo de Condeixa que eu nem conhecia, mas que tinha sido campeão da Europa de kickboxing. Surgiu a oportunidade de, às quartas-feiras à tarde, ir treinar a Condeixa, isto tendo de apanhar três autocarros para ir para lá e dois para voltar para casa. Eram 5 horas de viagem para treinar 1h30, mas entretanto fui estudar para Coimbra e deu para começar a treinar mais. Na altura em que ia e regressava a Gouveia, os condutores da Rede Expressos já me conheciam. Eu saía de Gouveia às 13h30 e só voltava às 23h30", assevera. Atualmente com 20 anos e a estudar/trabalhar na área da eletrotécnica e manutenção industrial, o jovem caracteriza como positiva a sua participação nesta prova: "Fiquei pelos quartos-de-final e saio daqui satisfeito porque achava que isto era algo que eu nunca iria conseguir fazer. Sinto que o resultado que obtive não foi suficiente, mas vou continuar a trabalhar para dar mais".

O orgulho por representarem Portugal é enorme, mas somar a isso a possibilidade de darem visibilidade a áreas do país muitas vezes esquecidas torna todo o processo mais motivante. Quem o garante é Catarina, Adriano e Pedro, elementos da nova geração do kickboxing português que lutam- literalmente- pelo crescimento da modalide.

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