Anatoly Karpov: «Só Deus poderia ajudar o campeão do Mundo»

O antigo campeão mundial de xadrez, Anatoly Karpov, foi o convidado de honra do festival Seixal 2001. Record aproveitou a sua presença para passar um dia com o russo numa conversa aberta sobre a sua vida, marcada por muita disciplina e algumas peripécias que marcaram a história

O RUSSO Anatoly Karpov, antigo campeão mundial de xadrez, continua a ser uma das figuras emblemáticas do desporto mundial, pelo significado dos títulos que ganhou ante o norte-americano Bobby Fisher e o dissidente soviético Viktor Korchnoi, respectivamente, em 1975 e 1978, em plena Guerra Fria. Depois, a partir de 1983, protagonizou um dos duelos mais apaixonantes da modalidade frente ao eterno rival e compatriota, Garry Kasparov, perdendo um ceptro que anunciou o desmembramento do império socialista e o eclodir da Perestroika. Voltou a recuperar o título mundial devido à cisão provocada por Kasparov, mas, hoje, com 50 anos, é um "rei" sem trono. Passámos um dia com Karpov e o russo demonstrou uma simpatia cativante, respondendo a todas as questões sobre a sua vida atribulada, sempre com muitas histórias para contar.

- Foi um dos símbolos da União Soviética, mas o sistema socialista desmoronou-se. Continua a acreditar na Rússia?

- A Rússia continua a ser um grande país e aquele que tem menos problemas económicos e sociais, desde o desmembramento das repúblicas. O problema dos nacionalismos acabou e a guerra também. Apenas existem alguns problemas pontuais na Tchetchénia, que o estado russo terá obrigatoriamente de controlar, devido a ser uma porta do comércio de drogas e armas. A Geórgia, o Cazaquistão e a Arménia têm tido grande instabilidade, mas a Rússia é uma potência que sairá da crise a breve trecho.

- A que é que se deve esse optimismo? Quando esteve em Portugal, há dois anos, traçou um quadro negro do país e do presidente Boris Ieltsin...

- A Rússia ganhou muito com a saída de Boris Ieltsin dos comandos do país. O novo presidente, Vladimir Putin, é um homem racional, que está a encontrar o melhor caminho para a Rússia e a resolver os seus inúmeros problemas. A mafia continua activa, mas está muito mais controlada pelas forças de segurança do que há uns anos atrás.

- Continua a ser um xadrezista?

- Sim, essencialmente continuo a ser um xadrezista, embora tenha outras actividades, pois sou, há 20 anos, presidente da Fundação da Paz e, mais recentemente, embaixador da UNICEF para os países de Leste. Em Setembro, por exemplo, vou voltar a jogar o Memorial Nadjorf, em Buenos Aires, Argentina.

- Fala-se que foi ajudado em determinadas circunstâncias para conquistar o Campeonato do Mundo, nomeadamente durante o "match" contra Korchnoi. Alguém lhe transmitiu mensagens de fora para aplicar no tabuleiro?

- Só Deus poderia ajudar o campeão do Mundo, pois se houvesse alguém que percebesse mais de xadrez, seria essa pessoa a sentar-se diante do tabuleiro. Quando um "match" se prolonga, os jornalistas precisam de histórias e, por isso, surgem sempre algumas especulações. Eu, por exemplo, fui prejudicado na última partida do "match" contra Kasparov, em 1985, quando apoiantes do adversário começaram a tossir na sala, para afectarem a minha concentração.

- O grande rival, Kasparov, perdeu o título mundial. Será que o seu compatriota Vladimir Kramnik é um digno sucessor do número um do "ranking" internacional?

- Kramnik venceu o "match" porque se preparou muito melhor do que Kasparov. No entanto, existe uma série de jogadores que podem vencer o Mundial, pois têm grandes conhecimentos e preparação competitiva.

- A Defesa Berlinense de Kramnik foi a chave do "match" de Londres. Considera-a uma boa arma?

- Será uma boa arma contra Kasparov, que não consegue adaptar-se a ela. Mas não é, com certeza, a melhor defesa das negras contra a Abertura Espanhola.

- Tem algum tipo de relação com Bobby Fischer, Korchnoi ou Kasparov?

- Bobby Fischer continua arredado de tudo. Depois de Budapeste, escolheu refúgio em Tóquio e nunca mais ninguém soube nada dele. Quanto a Korchnoi, nunca falámos. Cruzei-me algumas vezes com Kasparov, nas escadarias de algum torneio ou diante do tabuleiro, como aconteceu em Linares, nada mais.

- Mas assinou um documento contra a FIDE, de parceria com Kasparov e Kramnik, faltando ao respeito ao russo Khalifman e ao indiano Anand, campeões mundiais, que se insurgiram contra si por ignorá-los.

- Na essência, o documento vai contra o novo sistema que a FIDE quer adoptar no Mundial, destruindo o xadrez clássico, com um novo ritmo de tempo, muito mais rápido. Por outro lado, a FIDE ameaçou realizar um circuito coincidente com os grandes magistrais, perdendo o sentido das responsabilidades. Essas provas têm tradição e envolvem o empenhamento de patrocinadores e organizadores, do circuito profissional, que merecem todo o respeito.

- O responsável por estas convulsões é o presidente da FIDE, Iliumjinov?

- Sim. Kirsian Iliumjinov é uma pessoa genial, mas que apenas se quer servir do xadrez para ganhar protagonismo, poder e desenvolver os seus negócios. Foi candidato à Federação da Rússia de futebol, é deputado, está nos concursos das misses; enfim, dedica-se o mínimo de tempo possível ao xadrez e a modalidade requer tempo e responsabilidade para resolver os seus problemas. Pode-se dizer que está a prestar um mau serviço à modalidade, porque a sua dedicação acaba por ser muito pobre.

- Foi um símbolo do desporto, mas também da política. Quais são os seus ideais neste momento?

- As minhas actividades no seio da Fundação da Paz e da UNICEF são importantíssimas, porque é uma forma de minorarmos o sofrimento de muitas pessoas que precisam de ajuda. Para além disso, estas organizações desenvolvem programas de ajuda social e de caridade nos países de Leste. Esta passou a ser a minha política. Ajudar, sempre que posso, as pessoas.

"Iogurtes deram-me apenas energia"

Perguntámos a Karpov se sempre era verdade a famigerada "guerra dos iogurtes" nos "matches" ante Korchnoi, tendo em conta que, segundo os jornalistas, as mensagens dos analistas de Karpov eram passadas ao russo através deste alimento. Por exemplo, uma embalagem vermelha podia significar proposta de empate ao adversário, a amarela trocar um peão, a azul sacrificar uma peça, etc. Karpov sorriu e esclareceu a história.

- Pode-se falar que, na realidade, existiu, na altura, um iogurte com a minha marca. Mas não foi concebido para a estratégia do jogo. O que aconteceu é que me foi recomendado pelo Instituto de Saúde da União Soviética, por ser um alimento muito energético e de fácil absorção do organismo. Durante seis horas ou mais de jogo, como sempre iogurtes e bebo café também. Assim, sou um dos grandes apreciadores de iogurte e o mesmo Instituto desenvolveu uma composição especial para agradar ao meu paladar.

"Temperatura baixa quando jogo"

O antigo vice-campeão mundial, o holandês Jan Timman, disse no ano passado, em Lisboa, que Anatoly Karpov era como uma jibóia, tendo em conta a sua frieza durante as partidas. O grande mestre António Antunes, o único português que disputou um "match" contra o russo, de saldo negativo (0-2), também sentiu que Karpov tentou controlar-lhe todos os movimentos. Perguntámos ao antigo campeão mundial se o apelido de "jibóia" lhe era aplicável.

- Na realidade, a minha temperatura desce quando jogo. Isto deve-se ao meu poder de concentração, pois tento abstrair-me de tudo para me dedicar à partida. Todos me dizem que sou uma pessoa muito controlada e fria, pois nunca me viram nervoso. Apenas um amigo meu me viu aflito, há uns anos atrás, em Porto Rico, quando estava a nadar no meio de tubarões. No entanto, sou humano como as outras pessoas, apesar da minha vida atarefada, sempre a viajar. Tenho uma vida familiar normal. Sou casado pela segunda vez e tenho dois filhos.

"Na filatelia também sou um grande mestre"

Anatoly Karpov tem uma valiosa colecção de selos, sendo um dos filatelistas mais famosos do Mundo. Nos Jogos Olímpicos de Sydney 2000, a sua colecção esteve exposta e foi o próprio Karpov quem a apresentou: "Nos selos nunca fui campeão do Mundo, mas sou, seguramente, um grande mestre como no xadrez", considerou Karpov.

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