«Sir» Lennox Lewis educa «selvagem» David Tua

A estratégia de Lewis provou ser demolidora para o ”baixinho” adversário: com 38 centímetros de alcance a mais, rodeou sempre o seu perseguidor, mantendo-o sistematicamente à distância

«Sir» Lennox Lewis educa «selvagem» David Tua
«Sir» Lennox Lewis educa «selvagem» David Tua

SE FOI um marquês britânico que primeiro codificou as regras da nobre arte de bem esgrimir com os punhos, o compatriota Lennox Lewis bem merecia domingo o título pugilístico de ”Sir” pela forma como ensinou ao ”selvagem” socador samoano – radicado na Nova Zelândia – David Tua que o boxe não versa apenas a potência dos golpes, mas também a estratégia, a inteligência e a técnica.

Estes argumentos, consubstanciados por arreliadores e precisos ”jabs” e combinações, chegaram ao londrino para vencer aos pontos, por unanimidade, ao fim dos 12 assaltos, num lotado recinto do Hotel Mandalay Bay de Las Vegas, EUA, mantendo os títulos mundiais de pesados IBF e WBC.

Cerca de 1000 neozelandeses estiveram entre os 12500 espectadores para testemunhar, ao vivo, a vitória do seu ídolo. ”Tua Man” não ganhou a luta, mas arrecadou cerca de 4 milhões de dólares (à volta de 800 mil contos): metade do que auferiu Lewis, que agora tem, aos 35 anos um registo de 36 vitórias (27 por ”KO”), um nulo e uma derrota, para 37 vitórias (32 por ”KO”) e duas derrotas do ”’Throwin’ Samoan”. ”Agora vou para casa descontrair-me um bocado”, disse o derrotado. Obrigado, a conta bancária, ao menos, não deve doer-lhe, e um cortezinho abaixo do olho esquerdo passa com unguento... nem que seja de ouro...

Cavaleiro negro abafa búzio ilhéu

Por vezes, nestas coisas do desporto, os números dizem mesmo tudo, e a sua fria linguagem trás os incautos de volta à terra: Lewis foi creditado com 300 socos certeiros, contra 110 apenas de Tua (e 213 foram ”jabs”...); os juízes votaram 118-110 (Chuck Giampa), 119-109 (Dave Moretti) e 117-111 (Jerry Roth) a favor de Lewis. Mas o simbolismo também conta para criar ambiente.

Talvez para contrariar o previsível folclore austral dos apoiantes de Tua, Lewis, 13 centímetros mais alto (1,96 metros) foi apresentado ao som de trombetas medievais, na peugada de portadores de tochas vestidos como cavaleiros.

Por seu turno, David Tua foi precedido de um homem vestido de guerreiro samoano, com marcas negras na cara, soprando uma nota grave num búzio. Depois, ”Tua Man” entrou, ao som de batuques, com sementes de uma árvore sagrada que, diz-se, os guerreiros da sua terra usavam na batalha. Será que ganhavam? O certo é que o descendente não teve grande inspiração dos vegetais...

De facto, a estratégia de Lewis provou ser demolidora para o ”baixinho” adversário: com 38 centímetros de alcance a mais, rodeou sempre o seu perseguidor, mantendo-o sistematicamente à distância com ”jabs”, e colocando combinações.

Busca sem esperança do ”KO”

O melhor soco de Tua em 12 ”rounds” foi um gancho de esquerda (arma a que recorreu em desespero de causa) que enviou Lewis às cordas pouco antes do fim do segundo assalto. Muito pouco, e havia tempo de sobra para Lewis se vingar do samoano: levou-o a encostar-se à vedação, por sua vez, com uma direita (preparada com esquerda-direita), ao 10º assalto, que terminou dançando à Mohamed Ali; e, no assalto seguinte, fez tiro-ao-alvo com a cabeça do pretendente.

Diga-se que os lutadores chegaram a ser assobiados por não haver ninguém derrubado. Que culpa teve Tua que Lewis preferisse jogar boxe a entrar numa zaragata? Estava fora do seu campeonato...

Lewis bem avisara: ”Quando se vem para a guerra, é preciso trazer todo o arsenal, não apenas um gancho de esquerda e um penteado...”

E, afinal, o tal cabelo espetado da polémica, homenagem aos respectivos antepassados, até acabou por chatear mais Tua, com os técnicos a molharem-lhe a cabeça para não ter cabelos nos olhos...

Tua já tinha dito que ninguém acreditava na sua vitória por decisão, e que tinha de derrubar Lewis para ganhar. Isso acabou por ser verdade, mas apenas porque a vantagem pontual do adversário se tornou enorme. Lewis comentou, sobre a busca desesperada do ”KO” por Tua no último assalto: ”Ele limitava-se a esperar, tentando colocar o tal gancho. Direita? Ele nem tem a mão direita...”

O empresário Kevin Barry justificou a derrota do seu pupilo com o reavivar de uma antiga lesão nas costelas: ”Tua rasgou mesmo uma cartilagem, e não conseguia mexer-se nem para a esquerda nem a para direita.”

Claro que Lewis foi o último a rir: ”Eu magoei-me no joelho, no nariz e na orelha, e acho que ele não reparou... O problema de David Tua foi Lennox Lewis.” E, passando à frente deste adversário (Faça-se-lhe justiça, Tua disse que não dava desculpas: ”Fiz o melhor que podia, e respeito muito Lennox Lewis, um grande campeão”), Lewis fez já ”campanha eleitoral” em rima: ”If Tyson wants to come to test, I’ll put him to rest. Lennox Lewis is the best” (”Se Tyson quer vir ao teste, ponho-o a descansar. Lennox Lewis é o melhor”). Agora, quem quiser que enfie a carapuça... perdão, as luvas.

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