Os estudos da REDESPP em torno do movimento paralímpico: Número de atletas ainda preocupa

Formação de treinadores e falta de investigações na área são outras das conclusões

• Foto: Bruno Teixeira Pires

O número reduzido de atletas, a ausência de estudos em torno do desporto adaptado e a falta de formação orientada para os treinadores são alguns dos problemas detetados pela Rede de Escolas com Formação em Desporto do Ensino Superior Politécnico Público (REDESPP). As conclusões foram retiradas na sequência dos estudos iniciados após um protocolo com o Comité Paralímpico de Portugal, assinado em dezembro de 2018.

Em entrevista a Record, o organismo explicou os pormenores sobre estas investigações científicas. As questões do nosso jornal foram respondidas pelo presidente da REDESPP, Professor Doutor José Fernandes Rodrigues, e pelas coordenadoras da Comissão de Desporto Adaptado desse organismo, as Professoras Doutoras Anabela Vitorino (Politécnico de Santarém – ESDRM) e Helena Mesquita (Politécnico de Castelo Branco – ESECB).

RECORD -  Como surge a ideia deste protocolo?


REDESPP - A REDESPP tem como um dos seus objetivos a partilha de conhecimentos relacionados com a atividade física e o desporto. As escolas da rede produzem conhecimento técnico e científico e proporcionam formação na área das ciências do desporto. A parceria com o CPP é uma consequência da finalidade do ensino superior, colocando-se ao dispor da sociedade civil para a transferência de conhecimento e o apoio à consecução dos objetivos das organizações. O CPP é uma instituição fundamental na dinâmica e projeção do desporto para pessoas com deficiência, sendo por isso um parceiro natural da REDESPP.

R - Em que consiste este trabalho?

REDESPP - O trabalho desenvolvido consiste em promover o desenvolvimento do Movimento Paralímpico, bem como a formação na área da Educação Física e Desporto para pessoas com deficiência. Também visa a melhoria qualitativa da Formação de Professores e Treinadores no ensino superior e a promoção da investigação científica das instituições envolvidas. O trabalho objetiva-se através da participação dos representantes das diferentes Escolas Superiores do Ensino Politécnico Público com formação em Desporto e de algumas entidades que foram convidadas a fazer parte da Comissão de Desporto Adaptado da Rede de Escolas com Formação em Desporto do Ensino Superior Politécnico Público – REDESPP.

R - Quais as principais conclusões que foram retiradas ao longo dos últimos dois anos?

REDESPP - Apesar do protocolo ter sido assinado em Dezembro de 2018, a sua entrada em funcionamento não foi imediata. Entre a constituição do grupo e respetiva aprovação do plano de atividades decorreram alguns meses. O tal facto acresce ainda o confinamento provocado pelo coronavírus SARS-CoV2, a partir de março de 2020. Verificou-se, assim, a impossibilidade de realização de um conjunto de iniciativas descritas no Plano de Atividades. Mesmo assim, foi possível realizar um conjunto alargado de iniciativas ligadas ao Desporto Adaptado nas várias escolas da REDESPP, envolvendo estudantes, docentes, atletas e profissionais desta área.

Entretanto foi possível, desde já, retirar conclusões, em termos de necessidades pressentidas. É necessário promover a análise e reflexão sobre a reformulação dos conteúdos das Unidades Curriculares nos cursos de Desporto, de forma a ir ao encontro do estudo das modalidades desportivas adaptadas nos currículos das Escolas da REDESPP, uniformizando os seus conteúdos programáticos. Nesta preocupação inclui-se a especificidade necessária à atribuição da certificação de treinadores nestas modalidades e a análise da possibilidade de currículos certificados pelo Instituto Português de Desporto e Juventude (IPDJ). É necessária a promoção de estágios curriculares no contexto do Desporto Adaptado, a desenvolver nas diferentes escolas da REDESPP, bem como a incrementar formação contínua, da promoção de congressos, seminários, jornadas, no âmbito do desporto adaptado para professores, treinadores, assistentes desportivos, dirigentes e técnicos de exercício físico.

É também necessárior realizar um levantamento das principais barreiras para a prática da atividade física e do desporto adaptado nas diferentes regiões que a rede de escolas abrange, através da estruturação de um projeto de investigação. Parece-nos que esta atualização de conhecimento poderá ser muito oportuna, especialmente no contributo para a atualização do "Mapa da Inclusão Desportiva" do CPP. Incrementar a avaliação periódica de atletas, no âmbito da sua preparação para a participação em competições nacionais e internacionais também é necessário.

R - Recentemente houve algum estudo ou alguma conclusão que tenha saltado à vista e que me possa destacar?

Podemos destacar o número reduzido de participantes no desporto adaptado e a necessidade urgente da realização de estudos para a identificar a tipologia de motivos percecionados que contribuam para a prática e não prática de desporto por parte das pessoas com deficiência. Tal visaria fornecer um conjunto de dados de interesse, do ponto de vista da intervenção especializada, que poderão beneficiar os organismos oficiais e os profissionais envolvidos em projetos com pessoas com deficiência. E que também permitam a adequação de estratégias de intervenção, com a finalidade de potenciar o desempenho dos atletas e levar ao aumento do número de pessoas com deficiência que praticam desporto.

Importa promover a realização de cursos de formação, destinados aos treinadores, não apenas ao nível da formação inicial, mas também da formação contínua e avançada, com a integração de vários conteúdos programáticos específicos. Tal formação deveria igualmente contemplar a caracterização dos aspetos físicos, fisiológicos, psicológicos, sociais e emocionais, inerentes às diversas tipologias da deficiência; a atualização de competências técnicas referentes à modalidade (em função das categorias desportivas por deficiência para os diferentes desportos, disciplinas, especialidades e provas); e o desenvolvimento profissional do treinador e uma visão mais holística e detalhada do atleta e, por conseguinte, uma ajustada programação e execução do treino.

R - Quantas pessoas estão envolvidas em todo este projeto?

REDESPP - Na Comissão de Desporto Adaptado estão envolvidas 17 pessoas. Destas, 12 são docentes representantes das Escolas Superiores com formação em Desporto do Ensino Superior Politécnico Público (Beja, Bragança, Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Leiria, Portalegre, Porto, Santarém, Setúbal e Viseu) e 4 são representantes das seguintes entidades: Comité Paralímpico de Portugal (CPP), Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência (FPDD), Instituto Nacional para a Reabilitação (INR) e Confederação Portuguesa das Associações de Treinadores de Portugal (CPAT). A Coordenação é assegurada pelas Professoras Anabela Vitorino do Politécnico de Santarém e Helena Mesquita do Politécnico de Castelo Branco, bem como um membro da direção da REDESPP, Professora Teresa Figueiredo.

R - Como foi a receção dos profissionais e dos alunos quando surgiu o protocolo?

REDESPP - Verificou-se uma boa recetividade por parte dos profissionais e estudantes das escolas da REDESPP, ressaltando, neste campo, a Confederação Portuguesa das Associações de Treinadores de Portugal, a qual aceitou imediatamente o desafio para se constituir como entidade parceira.

R - Segundo o site do CPP, "o protocolo pretende estimular o progressivo desenvolvimento das dimensões científica, técnica e pedagógica do desporto para pessoas com deficiência." Nesse sentido, quais os principais avanços sentidos ao longo destes dois anos?

REDESPP - De forma a dar resposta a esta intenção, foram constituídos 2 grupos de trabalho com as designações de "Articulação da Formação" e "Investigação", que se encontram a desenvolver trabalho no sentido de promover a investigação em diferentes dimensões que permitam aumentar o número de participantes no desporto para pessoas com deficiência, bem como na formação necessária para o treino nesta área.

R - Para estes constantes estudos, há uma proximidade com os atletas, certo? Quais as principais dificuldades que eles procuram demonstrar?

REDESPP - As dificuldades mais referidas assentam na preocupação ao nível da conciliação entre a vida desportiva, social, académica ou laboral dos atletas, dos atletas guias e dos assistentes desportivos e referem aas dificuldades ao nível da acessibilidade aos locais da prática desportiva, nomeadamente os transportes. Há também aspetos relacionados com a formação de treinadores e o financiamento para o desporto de competição e do reconhecimento do estatuto dos agentes que prestam apoio que possibilite melhores condições de trabalho e, por outro lado, a satisfação com a profissão, o que poderá afetar positivamente o clima motivacional e a sua relação com o atleta e o treinador.

R - No sentido da pergunta anterior, sensibilizar a sociedade é também um objectivo do protocolo?

REDESPP - Sensibilizar a sociedade é de extrema importância e como tal é um dos objetivos do protocolo. Uma das atividades que mais contribui para a sensibilização da sociedade consiste na realização do Dia Paralímpico, com diversas atividades (Exposição Fotográfica, Ação de Formação, Colóquio, atividades com alunos das escolas básicas e secundárias, utilizando diversos espaços públicos das cidades onde este decorre). Para 2021, ano em que (se a pandemia o permitir) pretendemos que este evento seja implementado por cada instituição de ensino superior da REDESPP, no mesmo dia e no mesmo horário, numa organização conjunta do CPP e dos Institutos Politécnicos. O objetivo é que este dia chegue a todos de forma igual e que se possa viver um momento de celebração conjunta do desporto paralímpico na comunidade, de forma a valorizar, junto da opinião pública, os atletas paralímpicos e as modalidades por eles praticadas.

R - Certamente há vários objetivos ainda por cumprir. Quais são eles? O que nos esperam os próximos meses no que toca a este protocolo?

REDESPP - Nos dias 2 e 3 de novembro de 2021 a REDESPP realizará o seu 3º Forum na Escola Superior de Educação, do Politécnico de Coimbra, onde haverá um seminário dedicado ao desporto adaptado, entre outros temas relevantes para o desporto e a formação. Se a pandemia o permitir, pretendemos reforçar a realização dos dias paralímpicos; promover ações de formação à distância (webinares) e presenciais, permitindo a articulação entre a componente teórica e a prática com a intervenção de atletas, treinadores, assistentes desportivos; divulgação de boas práticas no âmbito da inclusão no desporto; realização de estudos de sobre temáticas prementes neste contexto. Tudo isto, sempre de acordo com os objetivos estratégicos determinados pelo protocolo estabelecido entre a REDESPP e o CPP.

Por Rafael Soares
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