Aventura no Dakar: todos os detalhes da preparação

Motard Mário Patrão conta como é participar na maior prova de todo-o-terreno do mundo

Ao longo da minha vida, sempre gostei de desafios e de lutar por alcançar metas/objetivos. O gosto pelo todo-o-terreno surgiu no decorrer do meu percurso no motociclismo. Gosto do espírito de aventura e da descoberta contínua que se sente ao praticar esta modalidade e, com tudo isto, o “bichinho” vai-se entranhando. É assim até começar a sério, a disputar o Campeonato Nacional de Todo-o-Terreno. Fiz o meu primeiro Campeonato de TT em 1998. Também já fiz enduro e até ao momento são mais de 20 títulos de campeão nacional conquistados no total em ambas as modalidades, o que para mim também é motivo de orgulho. Do Campeonato passei para o Dakar em 2013, foi nesse ano que cumpri pela primeira vez, aquele que é o sonho de qualquer piloto: disputar o Dakar.

O melhor momento na prova rainha foi sem dúvida ter alcançado em 2016 o 13º lugar na geral e 1º lugar na marathon class. Foi um momento mágico. Esse resultado foi uma forte conquista, já que tinha desistido no ano anterior. De qualquer modo, consegui-lo foi resultado de muito trabalho. Esse foi o momento alto. De resto, os outros melhores momentos são aqueles em que experienciamos de perto o carinho das pessoas pelo Dakar e é caloroso sentir a forma afável como nos recebem… Mas os dias são muito intensos. Não há grandes momentos de solidão. Quem está de fora tende a achar que sim.

Sinceramente o Dakar é tão envolvente e num ritmo tão acelerado que não sinto essa solidão. Diariamente temos de cumprir horários e tarefas que são necessárias, então não há tempo livre que permita desligar desse foco. Mal temos tempo para dormir, para descansar. De qualquer modo, quando estou em navegação, há algumas alturas de competição solitária, necessária e obrigatória, mas que fazem parte da modalidade.

No dia de descanso preparamos a semana seguinte. São cerca de 15 dias, é uma competição muito dura e exigente. Nesse dia tentamos dormir o máximo, descansar e fazer uma alimentação com mais calma, já que durante o Dakar em si, mal temos tempo para nos alimentar. Parece exagerado, mas para nós ali o tempo passa muito rápido.

Desde que integro a equipa KTM FACTORY RACING TEAM, que descanso numa caravana, o que posso dizer, que é um verdadeiro luxo quando comparado com dormir numa tenda, com os compressores a funcionar a noite toda. Não é um descanso igual ao que se tem em casa, claro, mas na caravana, descansamos bem melhor, é mais confortável e mais abrigado. Por outro lado, durante a corrida, quando estou horas e horas em cima da mota que me obrigam a um desgaste físico enorme, penso que tenho de me concentrar em ler o roadbook o melhor possível, e sem erros para não ter penalizações.

Agora já estou em contagem decrescente para mais um grande desafio, há muita coisa para preparar, sem dúvida, mas a partir do momento em que se surge integrado numa equipa de fábrica como a KTM FACTORY RACING TEAM, passamos a cuidar apenas da bagagem (roupa e acessórios), o resto é deixado a cargo da equipa. É a equipa que trata de todos esses pormenores tão importantes e dos quais faz parte uma extensa lista de coisas que não podem de modo algum ser deixadas para trás. Comigo levo o básico como qualquer piloto, equipamentos, roupa desportiva, roupa de proteção contra calor/frio/chuva, botas, óculos, necessaire de higiene pessoal, mas também tenho algumas medalhas que me acompanham sempre nestes casos e onde muitas vezes vou buscar algumas das forças para seguir em frente.

Os dois últimos anos não correram de feição para mim. Soube a 31 de dezembro de 2017 que o azar me tinha batido à porta, na altura em que fui internado de urgência com uma apendicite e tive de ser submetido a uma intervenção cirúrgica. Honestamente, nessa altura, foquei-me em recuperar, cuidar da saúde, e depois sim, a seguir, vêm os momentos de frustração por não participar. Mas a vida é feita destas coisas. O ano passado caí enquanto disputava a sexta etapa. Não perdi a consciência. Caí em seco, embrulhado com a moto, ainda me levantei e continuei cerca de 10 km, até encontrar a caravana de apoio, mas as dores nas costas eram tão insuportáveis que fui obrigado a parar. Este ano a expectativa passa, acima de tudo, por terminar o Dakar. Estive oito meses arredado paras competições para poder recuperar, mas assim que regressei às corridas tentei disputar o maior número de provas possível e de características distintas. Sinto alguma ansiedade, aproxima-se o grande desafio, o tão desejado desta temporada e para o qual nos preparamos o ano todo. Há sempre um este frenesim habitual de pré Dakar, e uma enorme ansiedade por começar. Quero dar o meu melhor. A expetativa mantém-se.

Por: Mário Patrão

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