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Ana Pinho Rodrigues: «Nunca pensei chegar aos 153 títulos»

Ana Pinho Rodrigues: «Nunca pensei chegar aos 153 títulos»
• Foto: Sp. Braga

Perto de completer 31 anos, Ana Pinho Rodrigues tornou-se na 2.ª nadadora com mais títulos nacionais de sempre (153). A olímpica do Sp. Braga ultrapassou, nos recentes Nacionais no Jamor, Paulo Frischknecht (151) e só está atrás de Rui Borges (207). Em entrevista a Record, a nadadora analisa este momento histórico, fala-nos da sua carreira e dos seus projetos para o futuro.

Leia a entrevista na íntegra:

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R – Chegou agora aos 153 títulos... o que significa? 

ANA PINHO RODRIGUES - É difícil expor em palavras o que significa... porque nunca sequer pensei em chegar a esse número de títulos nacionais. Mas é um orgulho muito grande ser, principalmente, a atleta feminina mais medalhada de sempre, e ser a segunda de sempre mais titulada, digamos assim, só atrás de Rui Borges [207], que também teve uma carreira incrível. Por isso, para mim, tive muito orgulho e, nesta fase da minha carreira, deixou-me muito realizada. 

R – Lembra-se do seu primeiro título destes 153?  

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APR – Sim, estes 153 incluem as categorias de idade, e o primeiro título foi em infantil B, e especificamente foi mesmo na minha terra natal, em São João da Madeira. Portanto, foi bem memorável e lembro-me na altura de participar no campeonato nacional nos 100 metros bruços, numa altura em que nem tinha noção ainda do que era um campeonato nacional. Creio que foi em 2006. 

R – A pergunta que se impõe: onde guarda essas medalhas todas? 

APR – Inicialmente, quando eram menos, guardava-as numa caixinha, dentro de um armário. De repente, com a minha mãe, comprámos um baú numa viagem, que tinha por fora stickers de vários países, então estão guardadas nesse baú, que está em casa da minha mãe, porque ainda não tive a possibilidade de conseguir trazê-lo para a minha nem pensar de que forma é que eu vou guardar as medalhas definitivamente. 

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Ana Pinho Rodrigues: «Nunca pensei chegar aos 153 títulos»

R - É um facto que, nos últimos tempos, um título num Nacional vale a dobrar (Open), mas o que ressalta é sua tremenda longevidade: para atingir este número, foi preciso ganhar muito... e durante muito tempo. Concorda? 

APR – Sim, concordo. E isso também mostra que já passou muita gente... Ou seja, não ganhei sempre mas consegui manter-me sempre lá em cima. Já tive atletas fantásticas como a Victoria Kaminskaya e a Raquel Pereira, que não me facilitaram a vida muitas vezes, mas consegui sempre ir mantendo-me e arranjando objetivos pequeninos para que fosse possível estar sempre lá em cima de alguma forma. 

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R – Considera-se muito competitiva? 

APR - Sim, sim, sou muito competitiva! Não só na natação, mas depois acabo por passar isso para a vida pessoal, com quando estou com os amigos a fazer jogos... coloco sempre algum tipo de objetivo. Portanto, sim, sou muito competitiva desde sempre. 

R – E, por outro lado, tem muito mau perder? 

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APR – Confesso que sim... [risos]. 

R – Num calendário com três Nacionais individuais por época, já colocou alguma meta a nível de títulos? 

APR - O objetivo que tinha mesmo era os 150, ou seja, queria reformar-me com esse número real. Agora, nesta época não sei... O meu objetivo será fazer o mínimo para o Campeonato do Mundo de Singapura, e que vai coincide com o Nacional de julho. Portanto, se for, não participarei nesse Nacional. Mas sinto-me feliz por já ter ultrapassado a barreira dos 150 títulos. Por isso agora não tenho nenhum número na cabeça como objetivo. 

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R - Ficou agora no Jamor a apenas 2 décimas do mínimo para o Mundial de Singapura. É esse o seu grande objetivo para esta época? 

APR - Sim, fiquei agora a duas décimas, muito perto. O tempo de acesso é em cima do meu recorde nacional, portanto é um tempo que é desafiante para mim, porque faz-me voltar a estar no meu melhor de sempre. Mas sinto-me bem, estou a trabalhar bem, não saiu agora agora o tempo, mas afinando alguns pormenores, porque é uma prova de 50 metros onde tudo conta, vou continuar a trabalhar até ao final do prazo, que é em maio, e vou fazer tudo para estar presente. 

Ana Pinho Rodrigues: «Nunca pensei chegar aos 153 títulos»
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R – A caminho dos 31 anos, continua a desfrutar tanto da natação como, por exemplo, quando foi campeã nacional absoluta pela primeira vez nos 50 bruços em 2009, com apenas 15 anos? 

APR- Sim. E até foi muito engraçado, porque fui campeã nacional absoluta a primeira vez no Jamor, e até tive agora quase alguns flashbacks, algumas memórias desse momento, que me lembro, lá está. Sempre fui competitiva e, na altura, não tive medo nenhum de ir à final lá com as mais velhas. Só que tinha 15 anos e acho que nem tinha muita noção do que é que estava a acontecer. Mas acho que agora, sem dúvida, desfruto muito mais. Na altura era uma miúda que não tinha noção, muitas das vezes sentia alguma ansiedade e receio, com a pressão de estar lá em cima aos 15 anos. Agora consigo estar a ver as novas gerações, aproveito muito mais todo o processo. 

R- Que conselhos daria a essa “miúda de 15 anos” que estava a começar a carreira ao mais alto nível em 2009? 

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APR – Meu Deus [risos]... Primeiro diria para relaxar um bocadinho e acreditar mais nela, porque acho que precisava disso na altura. E depois diria também para confiar no processo, que não imaginaria a jornada que iria ter, porque efetivamente nem mesmo eu não imaginava de tudo. 

R – Em retrospetiva, fica alguma mágoa pessoal por ter participado apenas nos Jogos Olímpicos de Londres’2012? 

APR - Sim. Na altura custou-me muito depois quando tentei ir aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro’2016, que foi quando mudaram o processo de apuramento. Em Londres já foi tinha por rankings, mas depois, para 2016, eles diminuíram as vagas de qualificação e, apesar de ter tirado um bom pedaço ao meu tempo de 2012, fui até a última mas não consegui o apuramento e custou-me. Aí senti que falhei enquanto nadadora, e foi difícil depois voltar a colocar outras metas. Acho que aí foi assim o ponto onde achei que realmente tinha falhado enquanto nadadora. Mas agora não sinto isso. Depois tive a oportunidade de participar em Campeonatos do Mundo, em Europeus e fazer tantas outras coisas que não vejo isso como uma mágoa. Claro que gostaria de ter estado presente em mais Jogos, mas sinto-me realizada com todo o resto.  

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R – E já tem algum prazo para terminar a carreira? 

APR – Sim. E até foi um pouco ridículo quando anunciou no Nacional do ano passado, em julho, que iria terminar depois em dezembro de 2024, sem ter consciência de que o meu treinador [Rafael Ribas] iria ter esse convite para o Sp. Braga e que iríamos mudar de clube [do Escola Desportiva de Viana]. Então, de repente, em setembro de 2024 estamos no Sp. Braga e comecei a gostar muito de estar na equipa, das pessoas que vieram comigo, do trabalho em si, que já era muito daquilo que eu já sabia mas de forma diferente, e comecei a perguntar-me porque vou parar agora se sinto que ainda estou bem e posso continuar a fazer mais coisas. Agora estou a viver passo a passo, mas já defini como meta dezembro da próxima época [2025]. Gostava de terminar a carreira num Campeonato Nacional de Clubes pelo Sp. Braga. Então deverá por aí... 

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R - O fim de uma carreira de tantos anos na natação assusta-lhe? 

APR - Já me assustou mais. Lembro-me de, há uns anos, se me falassem sobre o final da carreira, e como também ainda não tinha a minha vida profissional definida e é difícil conciliar às vezes os estudos com a natação, assustava-me muito e nem queria falar sobre isso, era quase um tema tabu. Neste momento, sinto que preparei muito bem esse final. Agora, obviamente, sei que vou chorar baba e ranho quando isso acontecer, pois será um momento muito emocionante, porque é uma vida inteira. Mas estou preparada para isso acontecer. 

R - Fale-me agora do seu percurso profissional ligado à psicologia desportiva (mestrado integrado em Psicologia pela Universidade do Porto). Que projetos tem em mente? 

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APR - Quando tirei o curso da psicologia no ensino superior já tinha a psicologia do desporto na minha mente, porque foi algo que enquanto eu cresci, enquanto atleta, não se falava. Ninguém falava sobre o psicólogo do desporto e sobre a necessidade dos atletas serem acompanhados mentalmente. E eu própria senti falta disso algumas vezes, até que depois cheguei a ser acompanhada por um psicólogo do desporto e pensei que isso faz toda a diferença. E depois começou uma pessoa também muito ligada a outro, preocupada com outra pessoa, muito altruísta diria. Achei que faria muito sentido na minha personalidade e conseguiria aliar sempre o estar no cais da piscina. Obviamente eu não acompanho só nadadores, mas conseguiria estar sempre ligado ao mundo do desporto. Então acho que passará muito por aí, poder estar com atletas e ajudá-los a alcançar os seus objetivos. Também trabalhar um pouco na Federação Portuguesa de Natação. Passará muito por aí. 

R – E ser treinadora de natação está fora de questão? 

APR - Por acaso sempre foi algo que disse que achava que não tinha o perfil, sou muito boazinha para ser treinadora. Mas não ponho de parte trabalhar com os miúdos da formação, por exemplo cadetes. A competição em si acho que não tem mesmo perfil, mas aquela formação dos miúdos cadetes, na pré-competição. Não fechou essa porta mesmo. 

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R - Um dia no futuro, como gostaria de ser recordada na natação portuguesa? 

APR - Gostava de ser recordada não só pelos meus feitos, das medalhas, mas também como alguém que inspirou outras gerações, não só pelo seu currículo, mas também pela sua maneira de estar na natação. Acho que isso é o que fica e na forma como nós tocamos outras pessoas. E para mim, gosto sempre quando algo como um atleta mais novo vem dizer comigo e que diz que admira a minha forma de estar e o meu percurso e que um dia quer ser como eu. Ou seja, eu acho que gostava de ter recordada essa forma, ou seja, como um atleta de topo, obviamente, e que esteve lá em cima, que fez história mas também pela sua forma de estar. 

Ana Pinho Rodrigues
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Por Diogo Jesus
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