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Em equipa com o Irão alegre e culto

À CONQUISTA DOS PICOS DO MUNDO - OBJETIVO NANGA PARBAT

Caro leitor do Record, sou o alpinista João Garcia e escrevo-lhe desde o campo base do Nanga Parbat, a 9.ª montanha mais alta do Mundo, que tem 8.125 metros de altitude. Ainda antes de sair de Portugal, as notícias sobre o Paquistão em relação a bombas em hotéis e atentados não eram as melhores, de maneira que família e amigos, sem quererem, acabavam por aumentar o stress típico da partida para uma montanha que já por si só tem reputação de terrivelmente perigosa e difícil.

Mas no meu caso não se fica pela reputação, pois já em 1996 tentei por duas vezes o cume do Nanga Parbat pela vertente Diamir, sem sucesso, e conheci os seus reais riscos: avalanchas de neve e gelo a qualquer hora do dia ou noite, muita queda de pedras no corredor que dá acesso ao segundo acampamento, sectores muito técnicos e quase verticais, a grande altitude, e um grande compromisso - caso esteja acima deste C2 e o mau tempo se instale está-se impedido de descer (senão para uma morte certa!).

Toda a expedição começa por uma viagem, muita gente gosta de viajar de avião, mas estes voos longos começam a moer-me o corpo. Depois de dois dias em Islamabad, capital do Paquistão, para reorganizar os equipamentos e cumpridas as formalidades legais partimos para Norte pela famosa Karakorum Hihgway (KKH), que de autoestrada não tem quase nada. É o equivalente a uma estrada de campo muito danificada. Nesta zona da parte mais oeste da cordilheira do Himalaia detetam-se cerca de 60 pequenos tremores de terra por dia. Ainda na KKH, paramos na localidade de Chilas, a pouco mais de 1.000 m de altitude, mas que vive a dureza de 10 graus negativos durante o Inverno e 50 no Verão.

No segundo dia chegamos logo aos 4.100 m do campo-base, pois repentinamente os carregadores decidiram acelerar o passo. Na verdade, com a altitude, o chuvisco passou a neve e Manang, o nosso guia, solicita autorização para cortar um dia no programa e irmos diretamente ao CB. Foi um erro, pois sofro de uma perturbação intestinal, provavelmente causada por um parasita que me provoca diarreia. Esta desidratação, juntamente com uma subida rápida demais em altitude, faz com que chegue ao CB numa lástima: fraqueza, tremores, temperatura e cólicas... nada que um antibiótico e alguns dias de repouso não curem!

Nesta expedição partilho a licença de escalada, as despesas de alimentação no CB e do trekking com três alpinistas do Irão - Pedram, de 26 anos, Sharam, de 44, e Homayoun, de 53. Estão cá não pelas melhores razões, são familiares de Saman, um alpinista iraniano que morreu junto do cume no ano passado e vieram para realizar uma homenagem. E também para tentar escalar, ficando Homayun no CB a comandar as operações. São alegres e cultos. O convívio intercultural tem sido bastante interessante. Comparamos muitas coisas entre Portugal (que no Irão quer dizer laranja) e o Irão, mas o que mais me marca é o facto de o nosso diesel custar 1 euro por litro e que com 1 euro eles compram... 50 litros!

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