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O Eden acabou de atracar em Puerto Montt. O sol ainda está baixinho mas já começa a afastar, timidamente, o frio da noite. Passa pouco das sete da manhã e está uma luz magnífica. Como a de Lisboa em certos dias, aquela luminosidade que encanta apesar de nem todos darem por ela e muitos por ela passarem a correr. São estes os momentos que nos fazem esquecer que, para trás, ficaram umas centenas de milhas (marítimas, claro) umas oitenta (!) horas sem pôr pé em terra e um terceiro dia de viagem em que o Oceâno se mostrou muito pouco Pacífico com as suas vagas de 3/4 metros que levaram a nave a um enjoativo e muito desagradável ritmado balançar.
Mas se esquecermos os pequenos «pormenores» – como os de uma alimentação não direi intragável mas sim pouco convidativa (tempero é coisa que não se usa), ou o reduzido espaço das cabinas e a dificuldade que há para subirmos para o primeiro andar na hora de deitar ou mesmo as poucas alternativas oferecidas à contemplação da paisagem - a viagem valeu a pena. Pela beleza deslumbrante que nos envolveu enquanto navegámos pelos vários canais até entrarmos nas águas do Pacífico, pela imponência das montanhas cobertas por um gelo milenar que apenas a tenebrosa acção do Homem consegue fazer desaparecer, alterando o clima, alterando a paisagem, alterando o habitat de espécies que gradualmente vão desaparecendo. Chamam a isto progresso...
Reconheço que não é uma viagem para todos, (obrigado Sonhando.Pt e diário Record, nas páginas de cuja revista dominical contaremos com mais pormenores a aventura), esta que nos levou através dos fiordes da Patagónia chilena, mesmo ali ao lado da fronteira argentina, por uma imensidade de canais que o degelo criou. É uma viagem melancólica, contemplativa e por isso até se estranha a presença no navio de jovens (ingleses, norte-americanos, argentinos), cujo passatempo ao longo destes dias se limitou a longas conversas, a fotografar a paisagem, a escrevinhar e a ler. Havia televisão, mas ninguém se interessava no que nela se via; à noite, isso sim, a «sala de cinema» quase esgotava a lotação. Mas esta presença de juventude é um bom sinal, um sinal revelador de que, afinal, ainda há gente preocupada com o planeta em que vivemos.
Vamos deixar os gelos e partir para Sul, para o calor – esperamos – para o Atacama. Depois de tanta água...vem a areia do deserto.
No regresso de Santiago, viemos via Charles de Gaulle, via Paris, esta Paris que, hoje, chora os seus mortos...
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