Ronnie O’Sullivan: Dr. Jekyll ou Mr. Hide

O "Rocket" de novo alvo do comité disciplinar

• Foto: Getty Images

É do senso comum dizer-se que só há um homem capaz de derrotar Ronnie O’Sullivan: ele próprio. Após o primeiro jogo do mundial, onde ganhou mas não jogou com o perfecionismo que exige a si próprio, os sinais negativos apareceram de novo.

No final do encontro que marcou a sua estreia no Campeonato do Mundo de Snooker de 2016, Ronnie O’Sullivan voltou a mostrar a faceta de "enfant terrible" que o marcou ao longo de toda a carreira. Segundo algumas testemunhas, logo após a conclusão do encontro face ao jovem David Gilbert – que o Rocket venceu por 10-7 – ouviram-se gritos, peças partidas e palavras menos simpáticas vindas do balneário onde, entre outros, estavam o amigo pessoal de Ronnie, o famoso artista plástico Damien Hirst, e o seu psicólogo, Steve Peters.

Mais tarde, algumas dezenas de jornalistas de todo o mundo esperaram em vão pelas declarações à imprensa do "Rocket". Perturbado, o pentacampeão do mundo saiu do Crucible sem avisar ninguém da organização, para espanto dos profissionais da comunicação social. Ciente da importância da promoção do desporto junto da imprensa, a World Snooker já veio definir uma multa pecuniária para O’Sullivan por esta atitude menos própria. Afinal, a história de polémicas à volta de Ronnie está longe de ser recente…

Uma mente perturbada, um génio na mesa

A história pessoal de Ronnie O’Sullivan não é uma linha reta, mas sim um percurso sinuoso e cheio de altos e baixos. Depois de vencer aos 17 anos o UK Championship, Ronnie foi à prisão mostrar a taça ao seu pai que, meses antes, tinha sido preso por, numa rixa de bar, ter assassinado um cliente daquele espaço.

Estava dado o mote. O motor da estabilidade familiar não estava presente e, dois anos depois, a mãe de O’Sullivan foi também ela detida por fuga fiscal. Daí à dependência de álcool e de drogas foi um pequeno passo. Em 1998 foi afastado do Irish Masters por ter acusado marijuana num controlo antidoping e, algum tempo depois, Ronnie assumiu as suas debilidades e entrou num grupo de apoio dos Alcoólicos Anónimos, onde acabou por conhecer aquela que viria a ser a sua segunda mulher e mãe dos dois filhos mais jovens do "Rocket".

Mais estabilizado emocionalmente, Ronnie começou a mostrar na mesa o porquê de ser visto por todos os seus pares como o jogador mais dotado de sempre para a prática da modalidade. Ganhou os títulos mundiais de 2001, 2004 e 2008, mas nesse mesmo ano, numa visita à China, o espírito perturbado voltou. Em plena conferência de imprensa, O’Sullivan convidou a intérprete chinesa para o acompanhar ao quarto e… não só.

Steve Peters, os sapatos e o sexo

Após dois anos quase sem vitórias, onde ameaçou desistir da carreira várias vezes e assumiu ser um depressivo crónico, O’Sullivan passou a trabalhar com o famoso psicólogo desportivo Steve Peters e os resultados foram imediatos. Vitórias atrás de vitórias, entre elas mais dois títulos mundiais em 2012 e 2013.

Porém, no ano passado as nuvens negras voltaram. Entrou no mundial nervoso, apático e irascível. Foi incorreto e mal-educado com a fotógrafa da World Snooker, Monique Limbos, e só no dia seguinte percebeu o que fizera, pedindo-lhe desculpas por ter sido tão rude.

Num "frame" face a Craig Steadman descalçou-se, alegando que os sapatos novos estavam a fazer doer os pés, e teve de ser o diretor de prova, Mike Ganley, a emprestar os seus para que o jogo continuasse com a dignidade devida. O mesmo Mike Ganley que, uns anos antes, tinha sido alvo da fúria de O’Sullivan num confronto que acabou com várias agressões físicas!

À parte de tudo isto, ainda se insurgiu com a forma como o jovem árbitro Terry Camilieri se posicionava à volta de mesa e usou um cubo de giz para tirar uma medida na mesa, algo que é anti regulamentar mas que não foi devidamente punido pelo então já perturbado árbitro.

Acerca de Ronnie O’Sullivan muito mais havia para dizer neste capítulo, como os carros topo de gama destruídos, um num lobby de hotel, outro numa capoeira de um vizinho ou ainda um último contra o rail da auto-estrada, sendo que neste caso quase colocava em risco a vida do jovem ocupante do lugar ao lado… o seu filho, Ronnie Jr.

Além da propensão para destruir viaturas de alta cilindrada, o sexo parece ser outra forma de aliviar a pressão… onde menos se espera. Só assim se explica o facto da bela juíza escocesa Michaella Tabb ter avisado Ronnie de uma conduta anti desportiva quando, em pleno jogo, simulou a masturbação com o taco.

Hexa ou Flop?

Em 2016 Ronnie é de novo apontado por todos como o grande favorito. Afinal, depois de sete meses ausente por opção, voltou em janeiro para conquistar o seu 6.º Masters da carreira – igualando o recorde de Stephen Hendry – e garantindo o 28.º major ao vencer Neil Robertson na final do Open da Gales.

Caso triunfe em Sheffield, Ronnie chegará ao "hexa" em mundiais, o mesmo registo do mito Steve Davis – que este ano se despediu oficialmente dos panos verdes – e ficando apenas a um do campeoníssimo escocês Stephen Hendry.

Mas os sinais, para já, não são os melhores. Caso fique por aqui, o episódio da ausência da conferência de imprensa será apenas e só isso: um episódio. Porém, quem conhece de perto o génio sabe que isto pode ser apenas o primeiro passo para outros que se seguirão.

Normalmente são passos que conduzem a um destino comum: mais um troféu perdido por culpa própria. Afinal, num desporto onde a concentração é o fator mais determinante para o sucesso, a irascibilidade não combina bem com o sucesso.

Por Miguel Sancho
Deixe o seu comentário

Últimas Notícias

Notícias
Subscreva a newsletter

e receba as noticias em primeira mão

ver exemplo

Ultimas de Snooker

Notícias

Notícias Mais Vistas

Copyright © 2020. Todos os direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Cofina Media S.A. Consulte a Política de Privacidade Cofina.