Paulo Andrade: «Vou deixar a Federação de Ténis com as contas controladas»

NO DIVIDIDO mundo do ténis português é difícil encontrar grandes consensos, mas a Direcção presidida por Paulo de Andrade tem sido considerada uma das melhores na história do ténis português, só comparada com a de Cordeiro dos Santos no início dos anos 80. Jogadores, treinadores, árbitros, jornalistas, clubes e dirigentes internacionais não lhe poupam elogios e mesmo alguns dos seus opositores lhe reconhecem méritos. A tentativa de retirar poder às associações, para o distribuir pelos clubes valeu-lhe um ataque das associações que o elegeram em 1997 e Paulo de Andrade viu-se obrigado a demitir a Direcção na Assembleia Geral de sábado passado. Record apresenta um balanço dos dois anos de mandato.

- Com que cenário deparou quando chegou à FPT?

- Vi situações impensáveis. Os jogadores da Taça Davis recebiam menos do que as jogadoras da Taça Federação; o ambiente entre os “internacionais” e a FPT era péssimo; os campeonatos nacionais eram organizados de forma lamentável; a imagem da FPT era deplorável, desde o material gráfico ao relacionamento com patrocinadores e a tesouraria encontrava-se numa situação complicada. Desde 1992, tinham entrado mais de cem mil contos da herança de Artur Mantero e, mesmo assim, havia um saldo negativo, entre 1993 e 1997, de mais de 35 mil contos.

- Como conseguiu o saneamento financeiro da FPT?

- Não posso dizer que a situação financeira da FPT esteja resolvida, mas está equilibrada e controlada. Em 1999, se tivéssemos recebido os cerca de dez mil contos do IND, referentes a Dezembro, teríamos terminado o ano sem dívidas. Há, no entanto, ainda muito trabalho a fazer, designadamente na angariação de patrocínios. Fizemos uma reformulação administrativa, tendo saído dois funcionários. Fizemos também uma racionalização de custos, utilizando verbas em domínios importantes, cortando acções de pouco impacto, e introduzimos a contabilidade analítica com centros de custo.

Encontrámos patrocinadores em áreas fundamentais e conseguimos que terceiros suportassem algumas despesas, para além de termos reforçado a ligação às autarquias.

FOMENTO, FORMAÇÃO E DESCENTRALIZAÇÃO

- Como analisa a vossa acção no fomento do ténis?

- Fizemos um levantamento da realidade do País, no respeitante a número de praticantes, atletas de competição, treinadores, árbitros, dirigentes, clubes e “courts”, bem como a sua distribuição geográfica por distritos e concelhos. Esses dados, devidamente tratados - a informatização da FPT foi mais uma vitória desta Direcção -, foram enviados a todas as associações.

Verificámos um diminuto número de praticantes, em relação à população total do País. Estávamos na cauda da Europa. Lançámos a campanha nacional de miniténis, em 1999, que deveria estender-se pelos próximos anos, apoiada pelo programa de televisão “Clube Disney”, que movimentou sete mil jovens.

Se acrescentar que todas as escolas de ténis do País não têm mais do que quatro mil alunos, ficamos com uma ideia do êxito desta acção, que ofereceu, só num ano, mil raquetas. Editámos também um manual de manuseamento das raquetas, dirigido aos professores do primeiro ciclo, distribuído por escolas e associações regionais. Para 2000, estávamos já a organizar uma maior aproximação ao desporto escolar.

- A vossa Direcção tem fama de ter descentralizado o ténis. Que medidas palpáveis foram tomadas nesse sentido?

- A tal acção de miniténis percorreu as 13 associações regionais; levámos a Taça Davis para fora de Lisboa e do Porto, pela primeira vez na história do nosso ténis; organizámos pela primeira vez campeonatos nacionais fora dos dois pólos macrocéfalos e em 2000 tínhamos a possibilidade de, pela primeira vez, não haver um único campeonato nacional em Lisboa. Mais recentemente, no início de Janeiro, o estágio da selecção da Taça Davis, que todos os anos se realizava no Estádio Nacional, foi efectuado em Águeda.

- Diz-se que os jogadores portugueses não têm qualidade, e os jogadores queixam-se da falta de conhecimentos dos treinadores e dos árbitros portugueses. O que se fez no sector da formação?

- Em 1996, tinham-se gasto 3700 contos nesse sector. Em 1998, ultrapassámos os 11 500 contos! Levantámos os alicerces de uma futura Escola Nacional de Formação, que já tem três dos seus cinco directores designados: os professores universitários Vítor Cabral e José Alberto, e o seleccionador José Vilela. Em 2000, estava previsto o primeiro curso de formação de dirigentes e em 1999 fizemos o primeiro curso de treinadores de nível três dos últimos 12 anos. A FPT apoiou ainda financeiramente a deslocação de treinadores portugueses a acções de formação em Espanha e trouxe técnicos da Real Federação Espanhola de Ténis para ministrarem cursos em Portugal. Ainda em 1999, criámos o I Simpósio de Treinadores Ibéricos. O primeiro foi em Madrid e em 2000 será em Lisboa. A prazo, esta iniciativa poderá revestir-se de uma dimensão europeia, pois a Federação Francesa demonstrou interesse em juntar-se a Portugal e Espanha.

Incrementámos também a formação de árbitros, embora essa acção tenha sido levada a cabo pelo Conselho Nacional de Arbitragem, um órgão autónomo da FPT.

- Em termos de resultados desportivos fomos bafejados...

- ...Foi um ano de ouro, com a manutenção no Grupo-1 da Taça Davis e com as subidas de divisão nos Campeonatos da Europa. Mas a nossa acção na alta competição não se ficou por aqui: apoiámos financeiramente jogadores que foram competir lá fora, reforçámos o Centro Nacional de Treino com a abertura do núcleo da Maia, elevámos o nível organizativo dos campeonatos nacionais, que voltaram a contar com os nossos melhores atletas e estávamos a estudar a hipótese de realizarmos competições internacionais, a começar por um circuito satélite em 2000 ou em 2001.

GUERRA COM LAGOS NÃO ASSUMIDA

Uma das primeiras medidas de Paulo de Andrade consistiu em provocar a rescisão do protocolo entre a FPT e a Soténis, assinado pela anterior Direcção - uma medida polémica, até por, no passado, nenhuma Direcção se ter saído bem de confrontos com o director do Estoril Open. Paulo de Andrade rejeita, porém, a existência de uma guerra institucional entre as duas entidades.

“Não há qualquer confrontação com o João Lagos, nem isso teria lógica nenhuma, tendo em conta tratar-se de uma pessoa que tem conseguido trazer a Portugal alguns dos melhores jogadores do Mundo. A vitória da candidatura à organização da Masters Cup, em Lisboa, quando poucos acreditavam que fosse possível fazê-lo, foi importantíssima para o ténis português. Simplesmente, acredito que não teria sido possível se não tivéssemos entrado no mercado de patrocínios, entrada essa que nos era vedada no protocolo existente com a Soténis. A prova de que não existem antagonismos foi dada em 1999, ao co-organizarmos o Campeonato Nacional de Cadetes.”

DIRECTOR TÉCNICO BEM CAMUFLADO

Duas das críticas que mais atingiram a Direcção foram a inexistência de um director técnico nacional e a não contratação de um treinador estrangeiro. Paulo de Andrade rejeita a primeira crítica mas aceita a segunda, embora com atenuantes.

“A FPT tem um director técnico nacional, que é o José Carlos Santos Costa. O importante não é o cargo, mas as funções que desempenha na realidade. Os estatutos da FPT obrigam-na a ter um secretário-geral, e é por isso que, no papel, o Santos Costa é o secretário-geral. Porém, não tem executado quaisquer tarefas administrativas, entregues a outras pessoas. Em contrapartida, encarregou-se das questões técnicas”, explicou.

“Quanto ao treinador estrangeiro - continua -, só aceitaria trazê-lo para Portugal se fosse um nome mundialmente conhecido, e isso implicaria uma resposta financeira à altura, que a FPT ainda não pode dar. Por outro lado, só vale a pena trazê-lo depois de adquirirmos outras condições de base, como um mais elevado número de participantes e centros regionais de treino a funcionar.”

HUGO RIBEIRO

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