Eduardo Marques recorda acidente grave em 2024: «Os médicos disseram que podia ter morrido ou ficado paraplégico»

Eduardo Marques
• Foto: EPA

Um acidente grave interrompeu o percurso do velejador Eduardo Marques, que procura agora ir dia a dia para perceber se o seu corpo lhe permite regressar ao nível que o levou aos Jogos Olímpicos.

Foi "mais ou menos um mês e pouco depois" de Paris2024, onde, no início de agosto, foi 11.º em ILCA 7, que o acidente aconteceu: enquanto estava a treinar para um 'half ironman', uma caravana ultrapassou-o em excesso de velocidade.

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"Eu nem tinha fones, não tinha nada. Pôs-se à minha frente, tinha um sinal de velocidade, [que] virou vermelho, porque [a caravana] ia muito rápido, e travou a fundo. E quando travou a fundo, bati com a roda, a cabeça e, depois, com as costas. Foi 'chapa' direto", relata à agência Lusa.

Eduardo Marques fraturou três vértebras, "uma delas por completo", 12 costelas, esterno, clavícula e cervical e ainda perfurou o pulmão.

"Os médicos todos disseram que se eu não fosse atleta profissional, teria morrido ou teria ficado paraplégico. Um dos dois. Os músculos das costas, aqueles que estão ao lado da coluna, protegeram. Contraíram e isso fez com que tudo partisse na mesma, mas não me tocou na medula, não tocou nos nervos", revela.

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Naqueles que descreve como "os momentos mais difíceis" da sua vida, "especialmente em termos de dores", o velejador conta que "o duro passou a ser" quando começou "a ficar mais confortável".

"Acho que ali os primeiros 10 dias foram muitas dores, mas ok. Tinha de ter ajuda para tudo. Sou muito independente, de repente sou zero. [Tinham de me] Dar banho, dar comida à boca, mal andava, nada. Depois, comecei a ganhar um bocadinho de independência, mandaram-me para casa. De repente, todos os dias ganhava uma coisa: consigo pôr as calças hoje; hoje consigo pôr as meias", enumera.

Neste processo, garante, nunca pensou se a sua carreira tinha acabado ou se iria recomeçar, indo apenas "dia a dia".

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"Por norma, não faço muitos planos para a frente, sou mais do momento. Por exemplo, ali no final do primeiro mês, [...] contra aquilo que a federação queria e que os médicos queriam, comecei a fazer umas coisas um bocado sozinho, uns pequenos exercícios. Comecei a fazer natação, mas em que tinha pé. Então, fazia os movimentos de natação, mas com pé, e acho que isso ajudou-me imenso", admite.

Após ter tentado voltar pela primeira vez à água, em janeiro de 2025, e ter percebido que a sua estrutura "óssea não estava pronta para aquilo", por ter perdido "oito quilos de músculo em duas semanas" e sentir que perdia "alguns centímetros" quando agarrava no barco para o transportar, começou mesmo a treinar "a sério" em outubro passado.

"Fiz um campeonato seis meses depois [do acidente], aguentei três dias de regata. Depois fiz um interregno, em que fiz alguns treinos assim um bocado separados. Depois, devo ter feito à volta de 15 treinos entre junho e o Campeonato da Europa, que foi no final de agosto", detalha.

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Ainda hoje, reconhece, não consegue "pôr muito volume" no treino, exemplificando que se andar à vela e fizer ginásio no mesmo dia "tem de ser uma coisa mesmo muito light, no máximo tipo ioga".

Por isso, no Troféu Princesa Sofia, em Palma de Maiorca, local onde conversou com a Lusa, disputou apenas as regatas que o corpo lhe permitiu, depois de nas duas primeiras jornadas os velejadores de ILCA 7 terem passado, respetivamente, oito horas e meia e sete horas na água e ter sentido uma dor que "parece uma beliscada".

O velejador de 32 anos não pensa, portanto, nos Jogos Olímpicos Los Angeles2028, por não saber como o seu corpo se vai comportar nos próximos meses.

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"Uma coisa que está em causa é se eu consigo ter, no mínimo dos mínimos, o mesmo nível. Porque se eu sinto que não consigo ter o mesmo nível, acho que não vale a pena. Porque ou faço isto para fazer melhor, ou então estou a destruir um bocado o meu corpo, quase em vão", assume.

O lisboeta diz que não consegue estar na vela "por estar", porque, "afinal de contas, acaba por ser muito tempo" da sua vida em que não está "com a família, amigos, namorada".

"Falhamos as datas todas, aniversários. E só por paixão, paixão, paixão, paixão. Às vezes, é preciso pensar um bocadinho, até porque nós não ganhamos dinheiro, não é? Hoje em dia, com o custo de vida em Portugal, é muito difícil. Portanto, é preciso arranjar outras maneiras para sobreviver", concede com uma admirável lucidez e tranquilidade, que aliás pautam todo o seu discurso.

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Por Lusa
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