Há meses escrevi que o maior adversário do FC Porto poderia ser o... FC Porto. Não é uma questão de reduzir o mérito do Benfica, que está a realizar uma grande época desportiva. É a verificação de que Pinto da Costa, sentado em cima do êxito gerado há muitos anos, tem uma grande sedução pelo risco e, às vezes, exagera no excesso de confiança. O FC Porto está a pagar esse excesso de confiança e o Benfica faz o aproveitamento, potenciando o que de melhor tem na sua estrutura e plantel. A grande diferença neste campeonato e mesmo na época desportiva é ter ou não ter... Lima. E qual foi a razão por que o FC Porto deixou Lima ir para o Benfica?
O excesso de confiança do FC Porto começa na convicção antiga de Pinto da Costa, alicerçada em resultados, diga-se de passagem, segundo a qual “qualquer treinador arrisca-se a ser campeão no FC Porto”. Tem sido, assim, de facto, e os louros dessa situação têm vindo a ser recolhidos pelo presidente portista e pela sua “coreana” estrutura. O hábito faz o monge, mas o monge confiou em demasia na tese do “piloto automático” e o resultado está à vista: a equipa, quando precisava de dar uma resposta cabal da sua personalidade (Málaga e Funchal), fraquejou. Sem Moutinho. E com uma gestão muito discutível dos dois activos (Izmailov e Liedson) que a SAD portista ofereceu (impôs?) a Vítor Pereira, cujas aparições públicas arrastadas indiciam poder ter, neste momento, o seu destino sinalizado e traçado...
Mas não foi só o capricho de querer fazer de Vítor Pereira “um grande treinador”. Um assunto até agora nada discutido tem muito a ver com uma decisão que está a desequilibrar, decisivamente, os pratos da balança a favor do Benfica e contra o FC Porto: a contratação de Lima. Numa altura em que ainda se sentiam no Dragão os efeitos das más apostas em Kléber e Walter e não havia Jackson Martínez, por que motivo o FC Porto não accionou os mecanismos da “aliança” com o SC Braga?
Se juntarmos a isso o facto de a SAD portista achar que se pode fazer uma época inteira sobre os ombros de três jogadores (Fernando-Moutinho-Lucho), talvez estejam achadas as razões para uma época menos afirmativa.
Quer dizer: com Vítor Pereira, sem alternativas ao 3 do meio-campo, “sem” Liedson nem Izmailov e sem Lima, o FC Porto está a estender a passadeira ao Benfica. Independentemente dos grandes méritos que se devem atribuir aos encarnados.
Acerca de um mês do Porto-Benfica, o campeonato entrou numa fase de “tudo ou nada” e a equipa da Luz bem pode estar à beira de uma época histórica, se vencer as duas competições nacionais em que se acha envolvido e ganhar a Liga Europa, que começa a ser uma possibilidade muito verosímil.
O FC Porto ainda está na luta, mas atapetou o caminho ao Benfica.
O CACTO
Alargamento da batotice
O futebol português está mergulhado há muitos anos nas profundezas da falta de verdade desportiva. O Apito Dourado foi uma oportunidade desperdiçada para punir alguns protagonistas da bola indígena que abusaram do poder que tinham para influenciar decisões. As escutas, tornadas acessíveis a qualquer ser humano que tenha um computador, apenas tornaram audível o “modus operandi” desses protagonistas e o tipo de relações estabelecido, com implicações na promoção e despromoção de outras figuras que continuam a gravitar à volta da “indústria”.
Os erros e o efeito de contaminação da investigação não permitiram aos tribunais parir mais do que um rato. No plano da justiça desportiva houve uma tentativa de enfrentar a promiscuidade e as técnicas utilizadas para subverter a verdade, mas como as fundações dessa justiça desportiva estão minadas na sua (falsa) independência, a tentativa transformou-se em saneamento e ostracização.
O que se discute, hoje, em assembleia geral da FPF, não é uma mera formalidade, resultante de se ser a favor ou contra o alargamento. Este alargamento é a extensão da batotice. A batotice prescrita. Ninguém se indigna?
As reformas no futebol português serão sempre operações de cosmética. Absolutamente postiças.
TEMPO EXTRA
Bruno e os bancos
Bruno de Carvalho (BC) no banco de suplentes do Sporting. O que ganha uma equipa de futebol com o presidente na “área técnica”? Doses de confiança? Um elemento de pressão supletiva? A experiência correu bem em Braga, pode ter contribuído para uma real e efectiva aproximação a Jesualdo Ferreira, que chega a uma altura da sua carreira em que não consentirá invasões do seu “território”. Hoje, em Alvalade, num jogo importante para as duas equipas, BC repartirá as atenções com Augusto Inácio, agora treinador do Moreirense, amanhã director do Sporting, algo que só um futebol de baixa ética pode consentir... Uma estranha fusão de bancos, à qual se associa à distância a relação que Bruno de Carvalho começou a estabelecer com a banca, sem a qual se torna muito difícil governar...