Após a final da Liga Europa, disputada entre FC Porto e Sp. Braga, o presidente da UEFA não se coibiu de deixar um reparo sobre o reduzido número de jogadores portugueses presentes naquele desafio. Apesar das declarações algo parciais, já que o problema não é exclusivamente luso, vindas de um Michel Platini que também emigrou quando era jogador, colocou-se o dedo numa ferida que importa estancar quanto antes.
Em Portugal não há limites ao número de jogadores extracomunitários de uma equipa profissional. Um clube só tem de apresentar oito atletas “formados localmente”, sendo que nada impede a inscrição de oito juniores e um plantel composto por estrangeiros. Até nas provas da UEFA há regras mais apertadas, exigindo-se oito futebolistas formados no país, sendo que quatro deles no próprio clube, o que causará dificuldades, por exemplo, a FC Porto e Benfica que, sem portugueses suficientes, terão de deixar jogadores fora da lista para a Liga dos Campeões.
Recentemente o Benfica alinhou na Turquia sem portugueses no onze titular, mas FC Porto e Sporting não lhe ficam atrás. As contratações na época em curso revelam que o jogador “made in Portugal” não foi prioridade e a tendência alastra-se aos outros clubes. Todos os anos, centenas de novos atletas forasteiros vêm tirar espaço competitivo aos futebolistas lusos e, num futuro próximo, este problema poderá causar sérios danos à Seleção Nacional, reduzindo a sua base de recrutamento.
Ao vermos tantos jogadores nascidos fora de Portugal nos escalões de formação dos clubes nacionais, nota-se que o problema é mais profundo e chega às seleções jovens. Hoje em dia, um futebolista de 19 anos, de elevado potencial e acabado de sair dos juniores, corre o risco de ter a sua entrada nos campeonatos profissionais praticamente vedada.
É urgente evitar que, a médio prazo, o futebolista português se torne uma espécie em vias de extinção nos nossos relvados. A FPF e a Liga de Clubes têm de criar mecanismos de proteção, a exemplo do que se pratica nos principais campeonatos europeus. Buscando a inspiração a outros quadrantes, bem se pode dizer que os nossos clubes precisam de uma campanha do tipo “compre o que é nosso”, de aposta no jogador nacional.
Para levar esse objetivo em frente, o regresso das equipas B é uma medida vital. Para que muitos jovens portugueses pudessem evoluir e ganhar experiência, seria importante a sua competição na Segunda Liga, tal como acontece em Espanha. No país vizinho, o campeão europeu Barcelona aproveita excelentes trutas da sua equipa secundária (basta falar num tal de Lionel Messi), onde outros, como Benfica e Sporting, também aproveitam para pescar.
Convém não esquecer que, em anos recentes, foi assim que FC Porto, Benfica, Sporting, Sp. Braga, Marítimo e Académica lançaram para a ribalta nomes como Beto, Bruno Alves, Bruno Vale, Cristiano Ronaldo, Daniel Fernandes, Danny, Eduardo, Jorge Ribeiro, Hélder Postiga, Hugo Almeida, Hugo Viana, Manuel Fernandes, Paulo Machado, Pepe, Ricardo Costa, Ricardo Quaresma, Ricardo Rocha, Tonel e Zé Castro. Nada mais nada menos do que 19 internacionais A.
A Lei Bosman transformou o mercado da bola. A ditadura dos clubes mais ricos leva as equipas portuguesas a apostar na prospeção e valorização de jogadores jovens para ter êxito desportivo e financeiro. Mas vendas como a de Fábio Coentrão para o Real Madrid mostram que a matéria-prima nacional cabe nesta estratégia.