Os meses mais loucos

Os meses mais loucos

Em dia de clássico não podia deixar de recordar a minha saída do Sporting para o FC Porto na decisão mais difícil da minha vida. E tudo começou na pré-época de 1984/85.

Um homem dirige-se a mim no final de um treino do Sporting: “Preciso de falar contigo porque tenho uma casa na Costa de Caparica para vender. Tenho ali um catálogo no carro para te mostrar.” Fui até ao carro para ver o catálogo e ele abriu o jogo: “Não há casa nenhuma. Sou representante do FC Porto. Chamo-me Domingos Pereira e gostava de falar contigo.” “Quando?”, perguntei. “Agora.” “OK.”

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Estava a viver o pior período dos meus primeiros 18 anos de vida. Tinha jogado uma época como sénior no Sporting e já era o jogador mais jovem de sempre a ter sido internacional pela Seleção A. Era o menino de ouro dos adeptos leoninos. Mas John Toshack, o meu treinador da altura, queria emprestar-me. E começaram a sair notícias de que seria cedido à Académica. Sentia-me com capacidade para me impor no Sporting e aquelas notícias deixaram-me de rastos. Nem parecia eu. Sempre tive um caráter alegre, bem-disposto, brincalhão e, naqueles dias, andava triste. Até a minha mãe me perguntava: “O que se passa, filho? O que tens?”

Éaqui que aparece o FC Porto. Domingos Pereira era um homem de confiança de Pinto da Costa. Um todo-o-terreno (foi muito importante na minha adaptação e, mais tarde, até comecei a tratá-lo, carinhosamente, de “vovô”). Segui logo com ele para a casa do Porto, na Avenida da República, em Lisboa. Falámos um bocadinho sobre futebol e recebi uma proposta milionária para aquele tempo. Fiquei de dar resposta no dia seguinte porque não queria tomar nenhuma decisão sem falar com o Sporting porque, no fundo, eu queria ficar no meu clube. No dia seguinte, fui ao escritório do chefe do departamento de futebol, Armando Biscoito, disse-lhe o que se estava a passar, qual o valor do contrato do FC Porto, e que queria reunir-me com o presidente João Rocha. Expliquei que não queria ganhar tanto para ficar no Sporting, mas queria uma melhoria. Pedi muito menos do que o FC Porto me oferecia. Quase metade. Ele disse que ia falar com o presidente. Entrou numa sala e saiu três minutos depois: “O presidente diz que estás louco”, disse-me.

Já passaram quase três décadas e nunca mais voltei a encontrar o senhor Armando Biscoito. Ainda hoje não sei se ele falou com o presidente, se fez bluff ou se pensava que era eu a fazer bluff. A verdade é que fui mesmo louco. E arranquei. Fui a casa por volta da hora de jantar e despedi-me de toda a gente. A minha mãe e a minha avó começaram a chorar. O menino de apenas 18 anos ia-se embora. Foi um momento cruel.

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Todos sabiam que aquela era a oportunidade de uma vida, mas também percebiam o que nos iria cair em cima. Era uma bomba. Estava a mudar-me para um clube rival. Os adeptos do Sporting nunca iriam perdoar-me. Só que tinha de procurar o melhor para mim. Por isso, fui para o Porto nessa mesma noite. O Domingos Pereira a conduzir, o vice-presidente do FC Porto Alexandre Magalhães ao lado, eu e o meu pai atrás.

Cheguei ao Estádio das Antas por volta das seis da manhã e entrei numa sala onde estava reunida toda a direção do Porto. Incluindo o presidente Pinto da Costa. Foi nesse momento que o conheci. O grande Pinto da Costa. “Aqui vais ser tu e mais dez”, disse-me.

Nessa época, fui a Alvalade com a camisola do FC Porto para o campeonato. Atiraram-me laranjas durante todo o jogo. Uma receção de puro ódio. Custou-me muito. Doeu-me muito. Mas é futebol. E hoje consigo entender. O amor que tinham transformou-se em ódio. A mudança para o FC Porto foi a decisão mais difícil da minha carreira, mas talvez a mais acertada. Foi ali que que tive oportunidade de ser campeão da Europa, em 1987, e dar-me a conhecer internacionalmente. Estarei eternamente grato a estes dois clubes por tudo o que fizeram por mim. São responsáveis pelo jogador e homem em que me tornei. E que hoje seja um clássico mágico…

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GRANDE CALDEIRADA

Semana de polémicas

Três casos diferentes, mas com muita polémica. Romário voltou a criticar a FIFA e Blatter, por causa da organização do Mundial de 2014. Sobre o suíço, o Baixinho disse isto: “É um ladrão, um corrupto e um filho da…” Sem papas na língua, como sempre. À mesma hora que o Mundo lia esta notícia, Cantona foi preso em Londres por, alegadamente, ter agredido um homem num bar. Na última sexta-feira, o presidente do Bayern Munique, Uli Houness, foi condenado a três anos e meio de prisão por evasão fiscal. Foi mesmo uma semana de loucos no mundo do futebol.

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NÓS LÁ FORA

Carriço decisivo

Na última jornada da liga espanhola, o Sevilha foi ao terreno do Almería vencer por 3-1. Daniel Carriço marcou o segundo golo e foi decisivo na vitória da sua equipa. O central formado no Sporting é um dos vários portugueses que brilham em Sevilha: os outros são Beto e Diogo Figueiras. Todos eles foram titulares neste jogo, mas Carriço foi o que mais brilhou. Não teve sorte em Inglaterra, ao serviço do Reading, mas está em grande na liga espanhola. A alternar entre central e trinco. Atenção, Paulo Bento!

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DO MEU ALBÚM

Cuidado com este Atlético

Na última terça-feira fui ao mítico Vicente Calderón para ver a 2.ª mão do jogo da Champions entre o meu Atlético Madrid e o AC Milan. Joguei nos dois clubes, mas o meu coração é rojiblanco (apesar de sentir um grande orgulho por ter representado o AC Milan, onde ganhei um scudetto). Passámos aos quartos-de-final 17 anos depois. Com este resultado, voltamos a estar entre os oito melhores da Europa. Todos os colchoneros, como eu, sonham em ver o Atlético na final de Lisboa. Seria o máximo para nós.

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