Houve um tempo em que se dizia à boca pequena que o problema do Benfica era não ter um presidente como Pinto da Costa e Joe Berardo até conta uma história segundo a qual tentou “comprar o passe” do presidente do FC Porto para assim enfraquecer o rival dos encarnados. A comunidade futebolística reconhece o papel protagonizado por PC na quebra da hegemonia dos clubes de Lisboa, principalmente no que diz respeito ao enfraquecimento do Benfica. O trabalho está feito. Os adeptos e sócios do FC Porto estar-lhe-ão sempre gratos. Adiar o tema da sucessão pode resultar, no entanto, em prejuízo do clube do dragão. O FC Porto tem, em tese, três anos para encontrar um novo líder, uma vez que Pinto da Costa está no “fim da linha”. Mas a ausência de preparação desse novo tempo (insistência num certo centralismo) encerra o perigo de o FC Porto não se adaptar a uma nova liderança. E isso PC poderia evitar, disponibilizando-se a fazer uma transição... sem dor. Será capaz?
A decisão de se recandidatar a mais um mandato como presidente do FC Porto estava dependente da luz verde dos médicos. Essa luz verde foi dada e PC, confessando-se a 100 por cento, decidiu avançar. Entende-se. Não é fácil a um homem que dedicou quase toda a sua vida à consagração de uma instituição desportiva no plano do desporto profissional dizer “basta”. Não foi apenas dedicação. Foi uma luta pela implantação de um estilo, primeiro dentro de portas; depois externamente. Agora em ambos os tabuleiros.
Pinto da Costa construiu uma teia em seu redor: eliminou (potenciais) inimigos, travou batalhas com quem não o bajulou e, através de um hábil “concurso” de alianças e parcerias, foi gerando o “centralismo” que tanto se empenhou em fustigar, na “versão Terreiro do Paço”. Com o apoio de muitos governantes e do poder político – ao contrário do que quis fazer crer depois da “populista” intervenção do presidente colombiano Juan Manuel Santos.
Esta época não está a correr bem ao FC Porto e, se o Benfica conseguir gerar a vantagem que entretanto adregou, não se vê forma de não se falar de uma época totalmente falhada. E a pergunta impõe-se: com um presidente menos activo, em função de circunstâncias muito respeitáveis, está justificada a menor eficácia da (estrangulada) SAD portista desde que André Villas-Boas decidiu, unilateralmente, “desertar”? Menor eficácia, sim, porque Jackson Martínez foi uma solução tardia e porque Vítor Pereira foi o “remendo” que se achou para atenuar o impacto de uma “fuga” não controlada.
Acresce que uma SAD controlada (bem paga) não tem espaço para se movimentar. Reinaldo Teles e Antero Henriques são dirigentes de tempos diferentes, eles próprios com visões diferenciadas, mas antes como agora (e sempre) com “autonomia” condicionada.
Resta Pinto da Costa concluir que, neste último mandato, é importante preparar a sucessão. E mais valia prepará-la “dentro do FC Porto”, num papel não executivo, do que fora do FC Porto, quando já não houver nada a fazer perante uma situação inelutável. Ignorar a transição é não proteger o próprio edifício construído por Pinto da Costa.
TEMPO EXTRA
Benfica-Sporting
Trinta e quatro (34!) pontos de distância entre Benfica e Sporting atirariam o dérbi para um jogo sem discussão... Tem sido de tal forma superlativa a superioridade do Benfica em relação ao Sporting neste campeonato, que ninguém pode contestar o favoritismo dos encarnados... A diferença pontual até daria para juntar a pergunta à afirmação: “Vitória do Benfica. Por quantos?...” As coisas, em futebol, não são assim tão lineares, mas a pressão que também existe no lado do Sporting (o empate seria um mau resultado para ambas as formações) pode funcionar negativamente... A menos que hoje, em Moreira de Cónegos, o FC Porto facilite as coisas para o lado do Benfica, nenhum dos contendores entrará em campo despressionado (ambos estão obrigados a vencer, o primeiro por causa do título; o segundo por causa do... 5.º lugar) e isso pode ser bom para o espectáculo, porque o jogo, em certos momentos, tenderá a partir-se...
Um dérbi que se realiza sob a expectativa de um novo relacionamento institucional entre águias e leões, com o presidente Bruno no banco (ai os bancos...) e com os dois treinadores a lutarem por um contrato...
JARDIM DAS ESTRELAS
Vitória, Vitória
O V. Guimarães vai estar no Jamor na final da Taça de Portugal, repetindo 2011 quando foi batido pelo FC Porto (de Villas-Boas) por 6-2.
Em dois anos, mudou muita coisa. Mudou o presidente, mudou a estrutura, mudou o treinador e mudaram os jogadores. Dessa final apenas resta o veterano Alex. Não é fácil ser competitivo num ambiente de pouca estabilidade. É por isso que o mérito de Rui Vitória deve ser sublinhado. A verificação segundo a qual não é preciso gastar milhões para se ser competitivo no futebol português.
O CACTO
Sem necessidade
Não gosta que coloquem em causa a honestidade e o profissionalismo. Ninguém gosta. Mas Augusto Inácio conhece o aforismo segundo o qual não basta ser sério, é preciso parecer... Nunca ninguém imaginou o actual e ex-treinador do Moreirense conceber estratégia e táctica para perder em Alvalade... Mas... não é ético jogar-se em dois tabuleiros... O actual e ex-treinador do Moreirense encontrou-se com Bruno de Carvalho para tratarem de questões relacionadas com o “futebol do Sporting” e logo nasceram especulações em torno de Jesualdo Ferreira. Não havia necessidade. A falta de um padrão ético no futebol em Portugal levou Inácio a achar que poderia representar dois papéis. É que, mesmo como “director do Sporting”, esta situação já começa a ter custos para o próprio Inácio. Não é verdade, Augusto?...