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14 de março de 1987. Fui com o Porto jogar a Portimão e perdemos. Aquela derrota deixou-nos numa situação muito complicada no campeonato. O Benfica era primeiro, ganhava avanço e estava cada vez mais isolado. Mas nessa altura o nosso objetivo era outro. A nossa cabeça estava na Europa. Éramos uma equipa com duas caras. Uma na Liga, outra nas competições europeias.
O jogo em Portimão antecedeu a segunda mão dos quartos-de-final da Champions, frente ao Brondby. Tínhamos ganho a primeira mão nas Antas por 1-0 e agora seguia-se um jogo muito difícil na Dinamarca. Naquela altura, o Brondby era uma das melhores equipas da Europa. Com craques em todas as posições: Schmeichel, Brian Laudrup, Lars Olsen, entre outros. Muitos desses jogadores seriam campeões europeus no Euro’92. O jogo foi uma verdadeira batalha. Empatámos 1-1 e seguimos em frente. O nosso sonho de vencer a Champions começava a ganhar forma. A partir daí, o campeonato – que já estava complicado – passou para segundo plano. Campeonatos havia todos os anos. Mas ser campeão europeu de clubes era uma oportunidade única. Para nós e para o clube. Porque o Porto, nessa altura, também nunca tinha ido a uma final da Champions.
À medida que os jogos de campeonato iam passando, a nossa concentração estava apenas nas meias-finais frente ao poderoso Dínamo de Kiev. E depois de ultrapassarmos os ucranianos, já só víamos a final de Viena e o Bayern Munique. Era o jogo das nossas vidas. Seria também o momento mais importante da história do Porto. Por mais que o nosso treinador, Artur Jorge, tentasse que nos concentrássemos no que ainda faltava das competições domésticas, era impossível.
Só queríamos Viena. Sonhávamos com a final. Com a taça. E conseguimos vencer o Bayern. O sonho concretizou-se. Na Liga, terminámos em segundo. Mas ninguém se importou. Tínhamos ganho algo muito mais importante do que qualquer campeonato.
Lembro este episódio numa semana em que o Porto ultrapassou o Nápoles com um grande jogo, em contraste com muitos desempenhos negativos que tem mostrado no campeonato. Neste momento, estamos também a ver duas caras completamente diferentes da equipa do Porto. A que joga mal nas competições domésticas, e a que tem noites de gala na Europa. O que se está a passar esta época com os dragões, aconteceu antes com outras equipas.
Recordo-me do Real Madrid em 1997/98. Acabou em quarto, a 11 pontos do campeão Barcelona, e fez um campeonato terrível. Mas pôs todos os trunfos na Champions e derrotou a Juventus na final. Ou o Liverpool, em 2004/05. Teve uma final mágica com o AC Milan. Perdia por 3-0 ao intervalo, empatou na segunda parte e venceu nas grandes penalidades. Uma equipa demolidora... na Europa. No campeonato, acabou em quinto, a 37 (!) pontos do campeão Chelsea. É muita fruta.
Estes exemplos mostram que as competições europeias não têm nada a ver com o campeonato. É um mundo à parte. Outra competição. E quando se entra nesta fase, não há favoritos. Uma equipa não é mais candidata do que outra apenas por estar a fazer uma liga melhor. Por isso, o Porto tem toda a legitimidade para sonhar com a vitória na Liga Europa. Tal como o Benfica.
As duas equipas portuguesas eliminaram dois dos grandes candidatos à vitória nesta competição. Mais: Nápoles e Tottenham têm o triplo ou o quádruplo do orçamento de Porto e Benfica. Para mim, depois desta eliminatória, qualquer uma das equipas portuguesas é favorita a ficar com a taça.
Também fiquei contente por não terem de jogar uma contra a outra na próxima ronda. O ideal seria que Porto e Benfica se encontrassem apenas na final de Torino. Seria uma final bonita e totalmente portuguesa, a exemplo do que aconteceu em 2011 entre o Porto e o Braga. Dessa forma, a taça viria sempre para o nosso país. E o futebol português voltaria a estar nas bocas de todo o Mundo. Seria mais um prémio justo para os milagres que as nossas equipas conseguem fazer. Com menos dinheiro do que os outros, mas com muito mais qualidade. Tal como provaram Porto e Benfica esta semana.
GRANDE CALDEIRADA
Maldini arrasa Milan
Tive o privilégio de ser colega de Paolo Maldini no AC Milan. Um grande amigo, uma excelente pessoa e um dos melhores profissionais que conheci em toda a minha carreira. Como jogador, só representou o AC Milan. Ao longo de 26 épocas! Único, irrepetível. Depois de abandonar, o clube retirou a camisola número 3, o seu número, tal como já haviam feito antes com o 6 de Baresi. Esta semana, Maldini deu uma entrevista em que arrasou a gestão atual do Milan. Está triste e dececionado por ver o seu clube de sempre nesta situação caótica. E tem razão. Maldini merece ver um Milan bem melhor do que este.
NÓS LÁ FORA
Os dedos de Beto
Foi a primeira vez que Sevilha e Betis se defrontaram para as competições europeias. Uma das rivalidades mais históricas e ferozes do mundo do futebol que se alargou, este ano, à Liga Europa. E foi uma eliminatória de loucos, resolvida no drama das grandes penalidades. Beto foi o grande herói do Sevilha. E entrou para a história do clube. Com a ponta dos dedos defendeu o penálti que levou a sua equipa para a próxima eliminatória. Um grande guarda-redes, com muita personalidade, que é dono da baliza de uma das mais importantes equipas de Espanha.
DO MEU ÁLBUM
Os dias do sorteio
O sorteio de sexta-feira fez-me recuar aos tempos de balneário. Quando passávamos uma eliminatória, ficávamos todos colados à televisão ou à rádio à espera de saber quem seria o nosso próximo adversário. Era como as cores. Cada jogador tinha a sua preferência. “Eu quero esta. Eu quero aquela”. Acredito que os jogadores de Benfica e Porto tenham ficado contentes com os adversários. AZ Alkmaar e Sevilha não são peras doces. São grandes equipas. Mas pelo menos não saiu a fava Juventus. Águias e dragões têm futebol para seguir em frente.