Venda de Matic ressuscita FC Porto

Venda de Matic ressuscita FC Porto

Alguém vai ter de ser campeão nacional de futebol na Liga-do-pé-coxinho. Não obstante os erros crassos que estão à vista no seio dos principais candidatos ao título (FC Porto e Benfica), e sem querer minimizar as hipóteses do Sporting nessa corrida, alguém vai ter de erguer o troféu. E, nessa altura, os erros que neste momento são óbvios serão transformados – pelos vencedores – em brilhantes decisões. Isso não invalida que se identifique um certo desnorte. O “melhor trinco do Mundo” só vale 25 milhões de euros? A venda de Matic por metade do valor da cláusula de rescisão não faz nenhum sentido, seja qual for o âmbito em que se observe a operação, mesmo considerando o ambiente de contracção financeira que se vive na Europa, mesmo ao nível do futebol.

Os clubes e as SAD viveram durante anos tempos de grandes facilidades. Um pouco como noutros sectores de actividade, o acesso ao crédito era fácil e os financiamentos (bancários) estavam, à partida, garantidos. O futebol conheceu, neste aspecto, generosos regimes de excepção e, por via deles, cometeram-se autênticas loucuras. Os clubes e as SAD estão agora confrontados com uma nova realidade, porque a crise instalou-se e os bancos, apertados pela troika, mudaram naturalmente o seu comportamento, também em relação às SAD e aos clubes de futebol. Conclusão: não há pão para malucos. Banalizou-se o argumento segundo o qual “os clubes têm de vender”. Claro que têm de vender. Não chegam as receitas provenientes da UEFA nem aquelas que resultam das transmissões televisivas. A quotização e a bilhética são uma gota no oceano, sobretudo num país em que o futebol não enche os estádios.

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Não me parece, pois, que o argumento, utilizado de forma simplista, de que “os clubes têm de vender” sirva para aceitar, sem alguma reflexão, o processo da venda de Matic ao Chelsea. Roman Abramovich não tem de dar satisfações a ninguém, porque os milhões que decidiu colocar no Chelsea serviram para projectar o clube londrino, em permanência, num lugar destacado do futebol europeu e a gratidão dos seus adeptos desculpará qualquer acto de gestão menos racional, como é este de comprar Matic ao Benfica por um preço oito vezes superior àquele que fixara quando o sérvio se transferiu de Stamford Bridge para a Luz.

A realidade do Benfica não tem nada a ver com o dinheiro do petróleo. Há um desconchavo enorme no futebol de hoje, que torna a competição desigual e injusta, segundo o qual há clubes que competem com dinheiro extra-futebol e outros, como todos os clubes portugueses, que fazem as suas vidas com o dinheiro do futebol. As necessidades (financeiras) têm, todavia, de ser compaginadas com a realidade e as possibilidades desportivas. Se o treinador do Benfica, Jorge Jesus, diz que Matic “é o melhor trinco do Mundo”, na actualidade, como é que a SAD dos encarnados decide vender o seu principal activo por metade do valor da cláusula de rescisão? A perplexidade não tem a ver apenas com o valor da transacção; tem a ver, igualmente, com o timing e os sinais emitidos pelo seu principal adversário, o clube do Dragão.

O FC Porto, que chegara a ter na liderança 5 pontos de vantagem, vinha dando sinais de alguma fraqueza e desagregação, o que obrigou o seu presidente, Pinto da Costa, a vir a terreiro atacar – como nos velhos tempos – a arbitragem e os cronistas do reino. Rapidamente se podia concluir que esta se tornara a época certa para o Benfica conseguir alcançar o título que lhe foge desde 2010. E é exactamente quando o Benfica vence o FC Porto na Luz e lhe ganha a dianteira no campeonato que os encarnados decidem vender o seu melhor jogador. Isto faz sentido? Muitos adeptos do Benfica acreditarão certamente na capacidade que Jorge Jesus tem revelado em extrair maior rendimento de certos jogadores. Já tinha sido assim com Coentrão; já tinha sido assim, também, com Javi García e muitos outros. O mecanismo de repetição credibiliza a hipótese de Fejsa ou Ruben Amorim poderem substituir, com êxito, Matic. Será mais um milagre se isso acontecer, em abono do treinador do Benfica. Mas que é um risco enorme, disso não restam dúvidas. Acresce que a cláusula de rescisão de Matic passou, em Março, de 40 para 50 milhões de euros (havia passado de 15 para 40 milhões há um ano), sem que daí o Benfica tivesse tirado qualquer proveito. O Benfica pode ser campeão? Pode. Mas que dá assim uma grande ajuda ao FC Porto para recuperar das suas maleitas, disso também não restam muitas dúvidas.

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NOTA – Jorge Jesus sabe que tem de “inventar” um Manel e sabe que “Matics” não há para aí aos pontapés. Mas talvez pudesse evitar ser tão nu e cru, se tivesse sido chamado a ser parte integrante do plano de desenvolvimento do Benfica para a recuperação dos jogadores portugueses (made in Benfica).

O CACTO

De regresso

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Esgotou-se o tempo de hibernação. Há coisas que nunca mudam e estranho foi o presidente do FC Porto ter levado cerca de 100 horas para reagir aquilo que considerou ser uma arbitragem “vergonhosa e escandalosa”, na Luz. No futebol, há momentos em que a arbitragem resolve aquilo que as equipas não conseguem resolver.

O FC Porto jogou pouco, ou nada, na Luz, mas Pinto da Costa e Paulo Fonseca vêm dar a entender que a equipa jogou o suficiente para sair de Lisboa com um resultado positivo, não fora a arbitragem de ASD.

A técnica é conhecida: quando as coisas não correm como projectado, surgem as críticas – à arbitragem e à comunicação social. Levam todos pela mesma medida, menos os alinhados e os soldados.

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É verdade que o FC Porto pode queixar-se de duas decisões infelizes de ASD, mas o Benfica também teve uma situação de claro prejuízo. Paulo Fonseca já veio dizer, estimulado superiormente, que se disseram muitas mentiras à volta da exibição do FC Porto na Luz. Até alguns “masters” de opinião azul e branca levaram a vergastada da ordem, a ver se doravante se portam melhor.

A capacidade autocrítica dos responsáveis portistas há muito que é conhecida, com largo prejuízo do “valor comercial” do clube do Dragão. E quem foi que disse que só os burros e os estúpidos falam de arbitragem?

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