O meu clube

Bruno Vieira Amaral
Bruno Vieira Amaral

Um Benfica tão alto como a taça erguida por José Águas

Tarefa ingrata a de pensar o meu clube depois da pandemia quando nunca o pensei antes da pandemia. O leitor arguto espera que o cronista agora enverede por misticismos vaporosos e diga coisas como "o Benfica não se pensa, o Benfica sente-se, o Benfica vive-se, o Benfica saboreia-se, o Benfica respira-se, etc." Lamento. Não vou por aí. O que sei é que quando um adepto se põe a pensar o clube é mau sinal. Cheira a crise, a dívidas a fornecedores, a salários em atraso, a treinadores despedidos à primeira jornada.

Naqueles tempos infaustos em que o Benfica cambaleava pelas vielas da amargura e no relvado os espectáculos eram tão medonhos e deprimentes que, de bom grado, uma pessoa se entregaria às delícias escandinavas do curling, as televisões tinham por hábito reunir em amplos estúdios a fina-flor do benfiquismo. Dezenas de benfiquistas ilustres, entre antigas glórias, eternos candidatos à presidência e figuras folclóricas, dissecavam a crise, escalpelizavam a crise, autopsiavam a crise. O Benfica era a crise, a crise era o Benfica, o cadáver de um gigante deitado numa marquesa sob o olhar dos seus adeptos consternados e dos seus adversários eufóricos, em repetidas lições de anatomia que, desgraçadamente, nunca tiveram o seu Rembrandt. O que saía desses tremendos concílios? Nada. Nem uma singular e escassa ideia. Apenas uma névoa de preocupação generalizada e vozes a repetirem em coro a bengala do conde de Steinbroken: "C’est très grave, c’est excessivement grave!"

É que o adepto, o verdadeiro adepto, aquele que estende o cachecol do avesso enquanto desafina o "Ser Benfiquista", que antes do jogo tem sempre um prognóstico otimista e depois do jogo confessa um mau pressentimento de véspera, não foi feito para pensar. Quando um adepto pensa, o mundo tropeça e encrava, como um brinquedo partido nas mãos de uma criança. Pensa e, a custo, lá lhe sobe o arremedo de uma ideia à cabeça, que se lhe derem tempo ele tenta moldar num plano e, se se tratar de um bacharel em Gestão de Empresas, pode mesmo degenerar num projeto.

Se em cada adepto há um potencial treinador, com táticas mirabolantes congeminadas na pausa para o cigarro ou expostas à mesa de um café numa Casa do Benfica em suposições de tremoço, também haverá, numa parte mais remota do cérebro, o embrião de um presidente, a cozinhar um ensopado de planos de negócios, relações institucionais e empréstimos obrigacionistas. Confesso, não sem alguma vergonha, que, além de sonhos com golos marcados no Estádio da Luz, já sonhei em discursar de um palanque presidencial. Felizmente até os meus sonhos são contidos e neles nunca passo da invocação inicial: "Benfiquistas…"E o sonho desfaz-se em fiapos de fantasia.

Mas não ter ideias, daquelas ideias sólidas com que se erguem impérios e constroem colossos, ideias presidenciais, não significa não ter desejos, ambições fulgurantes e fátuas sem qualquer adesão à realidade. Nisso é que os adeptos são bons. O meu maior desejo, por exemplo, é o de que o Benfica só jogasse aos domingos às três da tarde. Domingos de sol, convém sublinhar. A exceção seriam as noites europeias. E as únicas que um adepto admite são as de quarta-feira. Uma terça-feira ou uma quinta-feira europeias são contradições nos termos, entorses burocráticas no calendário, um Ano Novo festejado a 2 de janeiro, uma festa de aniversário convenientemente empurrada para o sábado seguinte. Só as quartas-feiras são europeias. Outro desejo é que, doravante, o Benfica jogasse sempre de vermelho em casa e que o equipamento alternativo fosse único e eterno, todo branco. Equipamentos cor-de-laranja ou cor-de-rosa, pretos ou cinzentos, seriam proibidos pelos estatutos, se o bom senso não chegasse.

No entanto, o que queria mesmo é que, depois da pandemia, o Benfica aparecesse mais alto. Aí da altura a que José Águas ergueu a Taça dos Campeões Europeus. Não há benfiquista que não conheça a fotografia. Podem escrever-se bibliotecas sobre a história e os feitos do Benfica, mas nenhuma será mais eloquente do que aquela fotografia. Ali está toda a história, passada e futura, do clube. Não sei – nem quero saber – como é que os capitães de outras equipas levantavam as taças. Imagino que no Real Madrid a tarefa, de tão repetitiva, fosse delegada aos estreantes, a um apanha-bolas. Mas duvido que haja na história do mundo um, digamos, "levantar da taça" mais natural, mais justo e um sorriso de vitória e grandeza mais luminoso do que o do capitão José Águas. É personificação da grandeza. E a grandeza sorri.

Eis a vantagem do futebol. No fim de uma batalha, de uma guerra, nenhum general, nenhum presidente, nenhum imperador, pode sorrir. Na Roma Antiga, os generais regressavam das suas campanhas, recebidos por multidões que lhes atiravam pétalas e talvez roupa interior feminina, mas nas suas bigas, no imóvel e solene perfil de estátua, não sorriam. No futebol, o sorriso é obrigatório. E nós temos a sorte de conhecer o mais belo dos sorrisos. Então, eu queria que o Benfica se parecesse mais com o José Águas naquela fotografia, que algum cientista tirasse uma folga na procura da vacina e sequenciasse o genoma da imagem e inoculasse o clube com aquela essência, para que nenhuma máscara ocultasse o mais glorioso dos sorrisos, o mais vermelho e vivo dos triunfos.

Delírios, bem sei. Com o regresso ao velho tempo, o Benfica há de jogar à segunda-feira à noite e não teremos outro remédio que não aguentar as quintas-feiras europeias; haverá equipamentos de cores esfuziantes e vendáveis e voltaremos às loas ao Seixal e a ver como se nos escapam pelos dedos das mãos as pérolas fugazes da formação; cairemos na tentação de comparar passivos e prejuízos e de festejar lucros semestrais como o sucedâneo possível, empresarial, da verdadeira glória, a que se conquista num relvado qualquer, um relvado por onde um capitão passeia e, com um sorriso universal, esperanto da vitória, ergue uma taça à altura dos nossos sonhos.

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